0
 

Celebrado todos os anos em 17 de março, o St. Patrick’s Day tornou-se uma das datas mais difundidas do calendário cultural globalmente. No mundo inteiro – inclusive na nossa “longínqua” Amazônia –, bares pubs e pessoas vestem-se de verde e, habitualmente, bebem até cair em homenagem ao santo. É como se na Croácia, no Japão ou onde for, os restaurantes começassem a vender maniçoba e pato no tucupi nos segundos domingos de outubro (e ficassem lotados de pessoas vestidas com camisas da Nazica).

A origem da comemoração está associada à memória de São Patrício, o santo padroeiro irlandês, cuja atuação missionária no século V teve impacto duradouro no estabelecimento do catolicismo na ilha. Com o passar dos séculos, a data deixou de ser exclusivamente religiosa e passou a incorporar manifestações culturais amplas, impulsionadas principalmente pela diáspora irlandesa.

17 de março é supostamente o dia da morte do missionário. Embora a data exata do falecimento não seja totalmente confirmada, a tradição sustenta que ele morreu por volta do ano 461. Quando morreu, já havia estabelecido igrejas, mosteiros e escolas em diversas regiões da Irlanda, contribuindo para alterar profundamente o cenário religioso do território.

A trajetória de São Patrício mistura registros históricos e elementos de tradição. Ele nasceu no final do século IV na Bretanha romana (região que fazia parte do Império Romano e corresponde hoje à Grã-Bretanha). Aos 16 anos, foi capturado por piratas irlandeses e levado para a Irlanda, onde foi mantido em condição de escravidão, como pastor de ovelhas.

Após cerca de seis anos escravizado, conseguiu escapar. A fuga incluiu uma longa caminhada de aproximadamente 200 milhas até encontrar um navio que o levasse de volta à sua terra natal. A experiência teria provocado uma mudança profunda em sua vida religiosa, levando-o a interpretar sua sobrevivência como resultado de intervenção divina.

Mais tarde, após retornar à Bretanha, ele teria recebido em sonho o chamado para voltar à Irlanda como missionário cristão. Para isso, passou cerca de quinze anos em preparação religiosa em um mosteiro. Ao tornar-se sacerdote, adotou o nome Patricius e retornou à ilha por volta de 432 d.C. com o objetivo de evangelizar a população local.

Embora já existissem comunidades cristãs na Irlanda naquele período, grande parte da sociedade ainda seguia práticas religiosas consideradas pagãs. A missão, portanto, exigiu deslocamentos constantes entre aldeias e regiões rurais. Ao longo do tempo, o missionário conseguiu fundar diversas instituições religiosas que consolidaram a presença do cristianismo no território.

Ao redor da figura de São Patrício surgiram numerosas narrativas. Uma das histórias mais conhecidas afirma que ele teria expulsado todas as serpentes da Irlanda. Pesquisadores apontam, porém, que serpentes nunca foram nativas da ilha.

Outro elemento recorrente na tradição é o uso do trevo de três folhas, conhecido como shamrock. Segundo a narrativa popular, o missionário teria utilizado a planta para explicar a doutrina cristã da Santíssima Trindade (“Pai, Filho e Espírito Santo”) durante sua pregação. Não há registros históricos diretos que comprovem esse uso pedagógico, porém o símbolo é um dos emblemáticos da data.

É importante distinguir o trevo de três folhas do trevo de quatro folhas. Enquanto o primeiro se tornou símbolo ligado a São Patrício, o segundo já era considerado pelos antigos celtas um amuleto contra espíritos malignos.

Na Irlanda, as celebrações do dia 17 de março começaram como serviços religiosos e refeições festivas. A transformação da data em um evento cultural amplo ocorreu principalmente fora da ilha, especialmente nos Estados Unidos, onde grandes comunidades de imigrantes irlandeses se estabeleceram ao longo dos séculos XVIII e XIX.

Nessas cidades, a celebração assumiu dimensões públicas e festivas. Desfiles tornaram-se parte central das comemorações. Boston registrou um dos primeiros eventos desse tipo em 1737. Já em Nova York, a realização de um desfile no dia de São Patrício ocorreu em 1762. Até hoje, ele é o maior do mundo, superando inclusive o de Dublin. Como sabemos que o capitalismo estadunidense é muito bom em massificar comportamentos que levem ao consumo, a celebração do dia passou a ser adotada em todos os cantos do mundo.

São Patrício, símbolo da colonização religiosa da Irlanda, passou então a ser um símbolo de pessoas migrantes, forçadas a abandonarem seu território em busca de uma vida digna justamente por causa da pobreza gerada pela colonização política e econômica daquele país.

Embora o azul fosse historicamente associado a São Patrício, o verde tornou-se gradualmente a cor dominante da celebração. A associação está relacionada tanto à paisagem irlandesa quanto ao apelido popular do país, frequentemente chamado de “Ilha Esmeralda”.

O uso da cor tornou-se um dos rituais mais difundidos do dia. Vestir roupas verdes ou usar um trevo na lapela passou a ser prática comum entre participantes das festividades, independentemente de sua origem irlandesa.

Outra tradição popular surgiu em Chicago em 1962, quando a cidade passou a tingir de verde o rio que atravessa o centro urbano como forma de marcar a data. Já há alguns anos o tingimento é feito com um corante ecológico, que não agride a água.

E, como é óbvio e ululante em toda festividade que se preza, a comida típica também faz parte das celebrações, com pratos como o colcannon, um purê de batatas preparado com cream cheese, sour cream e manteiga e misturado com couve ou repolho; o boxty, uma panqueca feita com purê de batata, batata ralada, ovo e farinha, normalmente frita na manteiga, com textura macia por dentro e crocante por for a; o pão de soda, produzido sem fermento biológico nem necessidade de sovar, e que pode incluir uvas-passas na massa, sendo servido com manteiga ou carne; o Irish stew, um cozido tradicionalmente preparado com cordeiro e vegetais como batatas, cebolas, cenouras e nabos, além de ervas como tomilho e estragão; e o bacon irlandês com repolho, cozidos juntos para que o vegetal absorva o sabor da carne e servidos com manteiga e batatas. Uma curiosidade é que, diferentemente do bacon consumido no Brasil, o ingrediente utilizado na Irlanda é preparado a partir do lombo do porco.

Curiosamente, algumas dessas práticas surgiram fora da Irlanda e foram posteriormente adotadas no próprio país. Apesar de manter importância religiosa na Irlanda, o St. Patrick’s Day se transformou em uma celebração internacional da cultura irlandesa. Como já mencionamos, a expansão da celebração também está associada à diáspora irlandesa. Estima-se que cerca de 40 milhões de estadunidenses tenham ascendência irlandesa, resultado das ondas migratórias que se intensificaram especialmente após a grande fome do século XIX.

A Irlanda ocupa cerca de cinco sextos da ilha situada no extremo oeste das Ilhas Britânicas, na Europa Ocidental. A paisagem atlântica, marcada por extensas áreas verdes e clima chuvoso, contribuiu para a imagem simbólica associada ao país.

A história política irlandesa também influenciou o desenvolvimento da identidade nacional. Durante séculos, o território esteve sob domínio inglês e posteriormente foi incorporado ao Reino Unido em 1801. Após um processo marcado por conflitos, a maior parte da ilha tornou-se o Estado Livre Irlandês em 1921. Em 1949, o país rompeu definitivamente com a Comunidade Britânica e passou a ser oficialmente a República da Irlanda.

Hoje, o país possui população estimada em cerca de 5,6 milhões de habitantes e mantém forte integração com a União Europeia, da qual faz parte desde 1973.

Foto em destaque: Carro do St. Patrick’s Parade em Rochestes, NY (Gabriella Florenzano)

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

Profissionais do Pará na Marcha da Enfermagem em Brasília

Anterior

Vacinação gratuita contra vírus da bronquiolite está disponível para todos os bebês prematuros

Próximo

Você pode gostar

Mais de Cultura

Comentários