Publicado em: 24 de novembro de 2025
Em entrevista exclusiva para o Uruá-Tapera durante a COP30, o reitor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Professor Doutor Francisco Ribeiro da Costa, destacou que a presença das universidades interiorizadas em eventos internacionais não é apenas representativa, mas essencial para revelar os conflitos, desigualdades e tensões históricas que moldam a região. Ele ressaltou que as dez universidades federais criadas desde 2013 foram instaladas no interior do país, e que a Unifesspa ocupa uma área particularmente sensível, uma zona de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, marcada por disputas fundiárias, violência, desmatamento e trabalho escravo. Segundo o reitor, trata-se de um território que reúne “os grandes conflitos sociais pela luta pela terra” e que coincide com o chamado arco do desmatamento, também associado ao “arco dos massacres” e ao “arco do trabalho escravo”.
Para ele, a chegada da universidade nesse contexto cumpre um papel político e social decisivo, que é o de formar profissionais que compreendam o território e sejam capazes de reagir a violações de direitos. O reitor afirmou que a COP30 trouxe visibilidade inédita à Amazônia, permitindo ao mundo observar diretamente os impactos da crise climática sobre povos indígenas e comunidades tradicionais. Ele alertou que perder essa oportunidade significaria desperdiçar um momento único de exposição internacional das urgências regionais. Ao comentar sobre sua presença na conferência, representando também a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), da qual é coordenador do Norte, enfatizou a relevância de dar centralidade à região, destacou que a COP “trouxe a centralidade para a Amazônia” ao expor problemáticas como a fragilização de territórios indígenas e a pressão sobre modos de vida tradicionais.
Ao discutir o cenário econômico local, o reitor lembrou que a região responde por quase um terço da mineração nacional, com destaque para a Serra dos Carajás. Ele observou que, nos últimos 30 anos, a atividade gerou um superávit estimado em 265 bilhões de dólares para a balança comercial brasileira. Contudo, essa prosperidade camufla disputas profundas envolvendo empresas mineradoras e populações tradicionais contrárias ao modelo de exploração. Diante desse cenário, Francisco Costa afirmou que a universidade atua como mediadora dos conflitos, articulando diferentes áreas do conhecimento. Ele citou os onze institutos da Unifesspa, que abrangem desde geociências e tecnologia até ciências humanas e movimentos sociais, permitindo que o debate sobre mineração incorpore tanto questões técnicas quanto impactos sociais.
O reitor mencionou ainda estudos sobre o uso da CEFEM (a compensação financeira pela exploração mineral) e apontou distorções na arrecadação. Ele relatou, como exemplo, o caso de uma mineradora que produzia 400 mil toneladas de cobre por ano contendo 18 toneladas de ouro, mas pagava a taxa apenas sobre o cobre. O episódio, segundo ele, resultou em uma CPI em Marabá, que obrigou a empresa a repassar mais de R$ 100 milhões à prefeitura. A universidade, destacou o reitor, atuou como colaboradora durante o processo, reforçando seu papel técnico e social no território.
A entrevista também abordou a relação da Unifesspa com os conhecimentos ancestrais da região. Francisco Costa explicou que a instituição desenvolve políticas voltadas ao diálogo com saberes tradicionais, incluindo turmas específicas para povos indígenas. Ele citou três cursos em andamento com os povos Xikrim, Kayapó e Gavião, desenvolvidos no âmbito do programa federal Parfor Equidade. A proposta, disse ele, é realizar a formação na língua materna dessas comunidades, gerando materiais produzidos por elas próprias e criando uma relação de troca: “nós estamos aprendendo nesse processo de ensinar”.
Ao narrar sua visita à Universidade de Rondônia, o reitor afirmou ter ficado impressionado com o curso de Arqueologia, que reúne artefatos de até 15 mil anos. Para ele, esse acervo demonstra que povos ancestrais produziram tecnologia sofisticada e deixaram marcas concretas desse conhecimento. Ele ressaltou que esses objetos não são apenas artísticos, mas “tecnologias que nós não compreendemos”. E concluiu destacando que a maior prova dessa capacidade científica ancestral é a própria floresta, afirmando que eles “produziram, inclusive, a floresta”, definindo-a como “a maior prova da tecnologia deles”.
Ao fim da entrevista, o reitor enfatizou que a COP30 expôs, de forma inédita, a escala dos desafios amazônicos e o papel das universidades na construção de alternativas sustentáveis. Para ele, instituições como a Unifesspa têm a responsabilidade de disputar narrativas históricas, formar lideranças e garantir que o conhecimento produzido na região influencie políticas públicas. Ao participar da conferência, afirmou o reitor, a universidade se coloca como voz ativa em um debate que ultrapassa fronteiras acadêmicas e nacionais, abrindo caminho para uma compreensão mais justa e integrada da Amazônia no cenário climático internacional.
Assista a entrevista do reitor da Unifesspa:









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