Publicado em: 3 de março de 2026
Famílias quilombolas de três territórios localizados na Região Metropolitana de Belém mantêm uma ocupação na Avenida Liberdade para exigir que o governo do Pará cumpra compromissos assumidos durante a implementação da obra viária. O protesto reúne aproximadamente 200 pessoas das comunidades Abacatal, Nossa Senhora dos Navegantes e Ceasa e já dura quase três dias. A mobilização começou como manifestação e evoluiu para um acampamento instalado sobre o túnel construído no local.
Segundo Vanusa Cardoso, moradora do território quilombola do Abacatal, cientista social e mestranda em antropologia, a ocupação ocorre em resposta ao atraso na execução de medidas de mitigação e compensação que haviam sido acordadas com o governo estadual durante o processo de construção da Avenida Liberdade.
De acordo com Vanusa, a obra alterou diretamente o acesso à comunidade ao interromper a estrada que tradicionalmente ligava o território à cidade. A nova estrutura criada para substituir essa passagem (um túnel sob o elevado da avenida) apresenta problemas estruturais que, segundo os moradores, colocam em risco quem precisa utilizá-la diariamente.
Ela relata que há infiltrações nas paredes do túnel e a presença de um olho d’água que estaria provocando deterioração da estrutura. Outro problema apontado pelos moradores é a altura insuficiente da passagem. O limite exigido pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) é de cinco metros, mas, segundo a comunidade, a estrutura já sofreu rebaixamento e não permite a circulação de veículos maiores.
Além da preocupação com a segurança da travessia, as comunidades afirmam que vários projetos prometidos como compensação pelos impactos da obra ainda não foram executados. Entre as iniciativas previstas estão a construção de uma unidade de saúde, uma praça, um anfiteatro, uma quadra esportiva e uma portaria para controle de acesso ao território. Também foi prometida a implantação de um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Quilombola, cuja construção foi iniciada, mas ainda não entrou em funcionamento.
Segundo os moradores, nenhum desses projetos foi entregue até agora. A comunidade afirma que os compromissos foram estabelecidos em 2024, quando começaram as negociações sobre mitigação e compensação relacionadas à obra. Durante todo o ano de 2025, no entanto, os projetos permaneceram paralisados.
Enquanto isso, a Avenida Liberdade está próxima de ser inaugurada. A previsão de entrega da obra intensificou a mobilização das comunidades, que consideram inadmissível a conclusão do empreendimento sem que as medidas acordadas para compensar os impactos tenham sido efetivadas.
A ocupação reúne moradores do Abacatal, da Ceasa e também da comunidade Nossa Senhora dos Navegantes, outra localidade diretamente afetada pela construção da avenida. No caso dos Navegantes, a principal reivindicação está relacionada ao acesso à água potável. Os moradores relatam dificuldades no abastecimento e cobram soluções que garantam condições básicas de vida.
As famílias instalaram acampamento sobre o túnel que dá acesso à comunidade e afirmam que permanecerão no local até receber respostas do governo estadual. Até o momento, segundo os manifestantes, não houve visita de representantes da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seinfra) nem manifestação pública do governador sobre as demandas apresentadas.
Os quilombolas afirmam que o objetivo da mobilização é assegurar que o Estado cumpra os compromissos firmados com os territórios atingidos pela obra. Entre as principais reivindicações estão a conclusão das estruturas prometidas, a solução para os problemas de acesso e segurança no túnel e a garantia de respeito aos acordos estabelecidos durante o processo de implantação da Avenida Liberdade.
Registros audiovisuais de Evely Costa, comunicóloga do Quilombo do Abacatal.









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