0
 

Um estudo conduzido na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) analisa a presença de florações de cianobactérias (popularmente chamadas de “limo”) em praias do rio Tapajós, na região de Santarém. A investigação busca compreender os fatores ambientais associados ao surgimento dessas manchas de biomassa na superfície da água e avaliar possíveis implicações para a qualidade ambiental do rio.

A pesquisa é desenvolvida por Fernando Abreu Oliveira, servidor da universidade e doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND) e ao Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA). O trabalho encontra-se em fase inicial e ainda não apresenta conclusões definitivas sobre eventuais riscos à saúde humana.

As atividades de campo ocorreram entre o final de 2025 e o início de 2026 em diferentes trechos do rio Tapajós, incluindo pontos próximos às praias de Ponta de Pedras, Alter do Chão e Maracanã. Durante essa etapa, uma equipe formada por pesquisadores e estudantes da Ufopa participou das coletas e das análises laboratoriais.

Nesta primeira fase, o estudo concentrou-se na avaliação de parâmetros físico-químicos associados à produtividade biológica do sistema aquático. Entre os indicadores analisados estão as concentrações de clorofila-a e fósforo total, além do cálculo do Índice de Estado Trófico (IET), utilizado para medir o nível de enriquecimento de nutrientes em corpos d’água.

Esse indicador permite avaliar o grau de disponibilidade de nutrientes no ambiente aquático. Quanto maior o enriquecimento, maior tende a ser a produtividade biológica, o que pode favorecer o crescimento de organismos microscópicos, incluindo algas e cianobactérias.

Os resultados preliminares apontaram valores elevados de clorofila-a em alguns pontos analisados. Na praia de Ponta de Pedras, por exemplo, foram registradas concentrações superiores a 60 microgramas por litro (µg/L), chegando a ultrapassar 100 µg/L em determinados momentos.

Esses níveis estão acima dos intervalos de alerta recomendados pela Organização Mundial da Saúde para águas utilizadas em atividades recreativas.

A partir desses dados também foi calculado o Índice de Estado Trófico para o trecho estudado do Tapajós. Os resultados indicam um cenário de maior disponibilidade de nutrientes no sistema aquático, condição que pode favorecer o surgimento e o desenvolvimento de florações de microrganismos.

Além das análises laboratoriais, o estudo incorpora registros fotográficos realizados durante as campanhas de campo e dados obtidos por sensoriamento remoto. O uso de imagens de satélite permite acompanhar a formação e a dispersão das manchas de biomassa na superfície do rio ao longo do tempo.

Essa combinação de técnicas busca ampliar a compreensão sobre a dinâmica das florações e sua distribuição espacial.

Segundo Fernando Oliveira, o fenômeno não depende de um único fator ambiental. Ele explica que “Entre os principais fatores estão o aumento da temperatura da água, a maior disponibilidade de nutrientes, a luminosidade e o tempo de permanência da água no sistema. Em trechos mais largos do rio Tapajós, esse tempo de retenção tende a ser maior, o que pode favorecer o acúmulo de biomassa e o desenvolvimento dessas florações”.

As observações realizadas durante a pesquisa indicam que o aparecimento do limo ocorre com maior frequência durante a fase de subida das águas do Tapajós. Esse período geralmente começa em novembro e pode se estender até abril ou maio.

Registros semelhantes já haviam sido observados em anos anteriores, sugerindo um padrão sazonal associado às condições ambientais do rio.

Os dados coletados até o momento apontam para um aumento da produtividade biológica em determinados trechos do sistema aquático, caracterizando um estado trófico mais elevado. Esse cenário pode criar condições favoráveis para o surgimento de florações em locais específicos e em períodos determinados.

A pesquisa seguirá agora para uma nova fase voltada à análise de possíveis efeitos associados às florações de cianobactérias.

Os próximos estudos irão avaliar a presença e os níveis de toxinas que podem ser produzidas por esses microrganismos. A investigação pretende verificar se há relação entre essas substâncias e potenciais riscos decorrentes do contato com a água ou da ingestão acidental durante atividades recreativas, como banhos nas praias do rio.

Para essa análise, os pesquisadores consideram parâmetros estabelecidos por normas brasileiras e recomendações internacionais relacionadas à qualidade da água. Entre as referências utilizadas estão a Resolução CONAMA nº 274/2000, que define critérios de balneabilidade no Brasil, e orientações da Organização Mundial da Saúde sobre limites de alerta para águas recreacionais.

Com base nos resultados já obtidos, os pesquisadores destacam a importância de monitorar continuamente a qualidade da água em áreas utilizadas para lazer.

O estudo também recomenda que órgãos ambientais e de saúde pública mantenham atenção à presença visível de florações, com possibilidade de emissão de alertas preventivos quando necessário. O acompanhamento das condições ambientais que favorecem o crescimento dessas populações de microrganismos também é apontado como medida relevante para a gestão ambiental.

Segundo a equipe responsável, os dados produzidos pela pesquisa poderão contribuir para estratégias de prevenção e para o desenvolvimento de políticas de monitoramento ambiental voltadas à preservação da qualidade da água na região do Tapajós.

O estudo reúne pesquisadores e estudantes da Universidade Federal do Oeste do Pará. Participam da investigação os professores Paulo Roberto Brasil Santos, Antonio Jorge Silva Araujo Junior, Lucinewton Silva de Moura, Dávia Marciana Talgatti e José Max Barbosa de Oliveira Junior.

Também colaboram com o trabalho a pesquisadora Mayerly Guerrero Moreno, vinculada à Ufopa e ao CAPACREAM, o mestrando Welington Ribeiro e os discentes Adilson Alves dos Santos, Gabriel Vinicius Silva, Helbia Beatriz Farias da Silva, Jaynara Aboim de Oliveira, Frankilin José de Oliveira Melo, Matheus Silva Pimentel, Jean Jacques Douglas Sampaio Oliveira, Beatriz Vinente Brelaz e Nilro Antonio Amorim Marinho.

Leia a nota técnica do estudo:

Foto em destaque: acervo da pesquisa / Ufopa

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

UFPA coordena projeto internacional aprovado em edital do CNPq

Anterior

Aplicativo promete reduzir tempo de controle de fronteiras em Portugal

Próximo

Você pode gostar

Comentários