Publicado em: 4 de janeiro de 2026
O Ano Novo assina um acordo silencioso entre o tempo e a esperança. Algo se reorganiza quando a meia-noite se aproxima, porque acreditamos que esse fragmento de tempo carrega uma passagem simbólica. A Terra segue seu movimento preciso e imperfeito, completando mais uma volta ao redor do Sol, alheia às promessas humanas, às celebrações e aos silêncios. Ainda assim, escolhemos contar o tempo como quem acende uma luz discreta no início do caminho.
Há algo de profundamente humano nesse rito coletivo de recomeço. Sabemos que o calendário é uma convenção construída para acompanhar as estações, mas, quando o relógio marca zero hora, uma disposição interior se renova. Vestimos roupas novas, abrimos espumantes, abraçamos estranhos e repetimos gestos herdados de outras eras, como se cada movimento pudesse reorganizar o mundo íntimo. No plano interior, o simbólico tem força própria e orienta a forma como atravessamos os dias.
Janeiro se inicia quando a Terra está mais próxima do Sol, mas o frio predomina em parte do planeta. Trata-se de um paradoxo delicado, desses que a vida apresenta com frequência. Aproximação e calor nem sempre caminham juntos, assim como distância e ausência nem sempre coincidem. Os ciclos seguem trajetórias elípticas, e o Ano Novo recorda que avançar consiste em girar com maior consciência, ajustando o passo ao movimento maior que nos envolve.
Heráclito nos legou fragmentos que funcionam como versos inaugurais do pensamento sobre o tempo. Ao afirmar que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, revela uma compreensão profunda da existência como fluxo contínuo. O rio simboliza o mundo em permanente transformação, enquanto o ser humano, ao atravessá-lo, também se transforma. O devir surge como princípio organizador, no qual a mudança sustenta a harmonia invisível do real e a permanência se manifesta justamente no movimento.
Heráclito escreveu que tudo flui como constatação sensível do mundo. O rio ao qual retornamos se transforma junto conosco. O movimento sustenta a permanência, e o devir se apresenta como forma contínua da existência. Pánta rheî expressa a ordem viva que se refaz a cada instante.
Os povos originários reconhecem essa verdade antes da filosofia lhe atribuir forma conceitual. Entre os Guarani, o tempo é estrada viva, chamada teko e oguata. O tempo é atravessado com o corpo e com a alma. Cada passo redesenha quem caminha, e o caminho nasce do próprio movimento. Viver é compreender que a paisagem se transforma junto com os pés que a tocam.
Para os Krenak, o tempo respira no corpo da Terra. Ele se expande e se recolhe como o fôlego do mundo. Segue o compasso do rio, da montanha, da noite que cai e do dia que retorna. O rio expressa a própria vida em movimento. Quando suas águas mudam, o mundo se reorganiza, e o humano aprende a escutar esse chamado e a ajustar o próprio ritmo ao pulso da existência.
Entre os Yanomami, o tempo habita a floresta. O agora se amplia e acolhe a presença contínua dos ancestrais, que circulam entre folhas, ventos e sonhos. O tempo gira como força viva. Viver é sustentar o equilíbrio desse giro, reconhecendo que a existência se constrói no encontro contínuo entre o visível e o invisível.
Assim, pánta rheî se revela como linguagem universal do viver. O rio de Heráclito, o caminho Guarani, o fôlego Krenak e a floresta Yanomami expressam a mesma sabedoria em vozes distintas. Tudo se move. Tudo se transforma. Nesse fluxo, a existência encontra sentido.
Séculos depois, T. S. Eliot devolve essa intuição em forma de poesia. Em Quatro Quartetos, o tempo assume a forma da experiência consciente, onde passado, presente e futuro se encontram em um mesmo ponto de atenção. O instante vivido concentra memória e expectativa, permitindo que o agora se torne um lugar de escuta e sentido. O Ano Novo, sob essa perspectiva, ilumina a possibilidade de presença plena, onde o tempo deixa de ser apenas sucessão e passa a ser profundidade.
Antes dele, Santo Agostinho já havia intuído que o tempo habita a interioridade humana. Em suas reflexões, o passado se manifesta como memória viva, o futuro como expectativa aberta e o presente como atenção ativa. O tempo, assim compreendido, desloca-se do calendário para a consciência. O Ano Novo se transforma em um exercício interior, um convite a habitar o instante com lucidez e entrega.
Henri Bergson amplia essa compreensão ao afirmar que o tempo verdadeiro é vivido, não medido. Sua noção de duração descreve um fluxo contínuo, semelhante a uma melodia, onde cada nota carrega a ressonância das anteriores. Cada instante contém a totalidade da experiência acumulada e, ao mesmo tempo, inaugura algo novo. Sob essa ótica, o Ano Novo se inscreve em uma continuidade viva, onde seguir adiante significa aprofundar-se na própria experiência.
A sabedoria indígena oferece uma compreensão do tempo que antecede e amplia as formulações filosóficas do Ocidente. Para muitos povos originários das Américas, o tempo não avança em linha reta nem se fragmenta em passado, presente e futuro estanques. Ele se move em espiral, integrando memória ancestral, experiência atual e responsabilidade com o que ainda virá. O ano não começa em uma data fixa, mas no ritmo da terra, na chegada das chuvas, na floração, na migração dos animais. O tempo é vivido como relação: entre o corpo e o território, entre os vivos e os ancestrais, entre o humano e o não humano. Nessa perspectiva, tudo flui porque tudo está em relação contínua. O Ano Novo, assim compreendido, não inaugura um corte, mas reafirma um pertencimento ao ciclo da natureza, à comunidade e à continuidade da vida.
Jorge Luis Borges conduz essa reflexão a um território ainda mais sutil. Em seus textos, o tempo se organiza como um labirinto de bifurcações, onde memória, linguagem e imaginação constroem realidades possíveis. O passado se reconfigura a cada lembrança, o futuro se multiplica em possibilidades e o presente assume a forma de uma leitura sempre renovada. O Ano Novo, então, se apresenta como releitura do mesmo texto da vida, atravessado por novos olhares, outras perguntas e silêncios mais atentos.
Para quem atravessa a experiência da perda, como eu, a virada do ano assume outra tonalidade. A ausência reorganiza o ritmo interno e redefine a percepção do tempo. O luto transforma a forma de lembrar, de dormir e de existir, convidando a um movimento de adaptação profunda. Com o passar dos dias, a experiência se rearranja, permitindo que a presença simbólica se integre ao cotidiano e que a vida encontre novos modos de continuidade, ainda que sob o manto escuro da dor e da saudade.
O mundo coletivo também viveu seus próprios ciclos. O ano que se encerrou foi marcado por conflitos, instabilidades e transformações aceleradas, mas também por movimentos de consciência, vozes emergentes e esforços de reconstrução. Entre tensões e avanços, a humanidade revelou sua capacidade de criar sentido mesmo em contextos complexos, abrindo espaço para novos arranjos sociais e culturais.
No plano místico, a passagem do ano é percebida como um limiar invisível, um instante em que os véus entre o visível e o invisível se tornam mais tênues. Tradições ancestrais compreendem esse momento como um portal simbólico, no qual intenções, preces e silêncios ganham densidade espiritual. Não se trata de superstição, mas de escuta: uma atenção refinada ao ritmo do universo e àquilo que pulsa além da matéria. O Ano Novo, nesse sentido, funciona como um alinhamento interior, um gesto de entrega ao mistério do tempo, onde a vida segue seu curso e o ser humano aprende a caminhar em consonância com forças que não controla, mas pode reconhecer.
É assim que os ciclos se apresentam. Nada se encerra de forma absoluta, tudo se transforma em novas configurações. A vida se renova no próprio movimento, e cada passagem prepara o terreno para outra forma de existir. O Ano Novo preserva esse gesto ancestral, traduzido em linguagem contemporânea.
Ao entrar em um novo ano, escolho a atenção como gesto fundamental. Atenção ao tempo vivido, às transformações silenciosas e aos pequenos renascimentos diários. Que a Terra continue seu giro constante, que o calendário avance e que a consciência encontre espaço para se expandir, acompanhando o fluxo contínuo da existência.
Referências
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BERGSON, Henri. Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Tradução de Theo Santiago. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie; Instituto Socioambiental, 2014.
ELIOT, Thomas Stearns. Quatro quartetos. Tradução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.
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KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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