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A obra “Os Sete Passos da Paixão”, composição violonista parauara Salomão Habib escrita em 2025 para violão e orquestra, terá sua estreia mundial em Belém. A obra estrutura-se como uma narrativa instrumental dividida em sete movimentos sobre a Paixão de Cristo, aos quais se soma uma peça complementar intitulada “Ressurreição”, também de autoria de Salomão.

O concerto será conduzido pela Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz (OSTP), sob regência do maestro Miguel Campos Neto, com participação do solista Luiz Sena no violoncelo e do próprio compositor, no solo para violão. O concerto será quinta-feira, dia 2 de abril, às 20h, na Igreja Santo Alexandre, com entrada gratuita, condicionada à capacidade do espaço.

Como explica o próprio compositor:

“A tradição dos Sete Passos da Paixão de Cristo é uma devoção cristã, muito comum na Quaresma e Semana Santa, que resume os momentos mais dolorosos do caminho de Jesus até a crucificação, focando no seu sofrimento físico e espiritual. 

A obra é dividida em 7 partes distintas, porém conectadas por temas desenvolvidos e revisitados, destacando a sonoridade do violão a exemplo em delicadas nuances de notas em “harmônico”, como mostra o 1º movimento até o contraste em “fortíssimos” no 6º movimento. A “Ressurreição”, obra em apêndice é parte independente da obra, porém configura-se como um 8º movimento por sua relação com o todo da obra.

  1. 1º movimento “A ÚLTIMA CEIA

Cristo reúne seus apóstolos para a ceia que revela seu destino. A Última Ceia de Cristo representa a última refeição de Jesus com seus apóstolos antes da crucificação, instituindo a Eucaristia e a Nova Aliança. Nela, Jesus partiu o pão e partilhou o vinho, simbolizando seu corpo e sangue sacrificados, e ordenou que seus seguidores repetissem o ato em sua memória. 

Da Peça: Um tema melódico (leitmotiv) executado em harmônicos no violão se desenvolve com repetições mântricas simbolizando a repetição das palavras: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha.” A repetição do tema neste  primeiro movimento, é proposital.

  • 2º MOVIMENTO “O HORTO DAS OLIVEIRAS” 

Oração no Horto das Oliveiras: Jesus vive uma agonia profunda, suando sangue e aceitando a vontade do Pai, enquanto os discípulos dormem. Cristo refletiu sobre a intensidade de sua Paixão iminente, enfrentando uma profunda agonia, tristeza e medo humano diante da morte, conforme relatos bíblicos e tradições cristãs. O termo Getsêmani significa “prensa de azeite”, o que simboliza a “prensa” espiritual que ele sentiu, esmagado pela carga dos pecados da humanidade e pelos sofrimentos futuros, como açoites, escarros e a crucificação.

Da peça: O caminho melódico do segundo movimento, também em Mi menor, é inspirado na reflexão de Cristo. Ritmicamente reflete o “caminhar” de Cristo no Horto, seguido pela melodia que representa nos acordes a humanidade de Cristo e o (Getsêmani), “prensa de azeite”. 

  • 3º movimento “A PRISÃO” 

Na prisão e os Tribunais Jesus é traído por Judas, preso e submetido a julgamentos falsos perante as autoridades judaicas, sendo zombado. 

Traído por Judas Iscariotes com um beijo, Jesus foi detido por guardas do Templo e soldados. Este ato iniciou a Paixão de Cristo, levando ao julgamento pelo Sinédrio e, posteriormente, à crucificação.

Da peça: Após a breve introdução melódica a sequencia de arpejos representa a tensão que tomou conta da madrugada da sexta feira no momento em que os guardas anunciam a prisão.

  • 4º movimento “FLAGELAÇÃO”

A flagelação de Jesus foi uma tortura cruel ordenada por Pôncio Pilatos antes da crucificação, relatada nos evangelhos como parte da Paixão. Jesus foi açoitado com um flagrum (chicote com ossos/metal) por soldados romanos, causando lacerações profundas e grande perda de sangue, muitas vezes servindo como punição preliminar à morte.

Da peça: A dor profunda que Jesus sentia em seu corpo era contrastada com a serenidade da alma e a resignação pela vontade de Deus. Entre os trítonos do acompanhamento que promovem agonia dos carrascos ao ouvinte, surge uma delicada e serena melodia representando a alma e o espírito de Cristo Jesus.

  • 5º movimento “COROAÇÃO”

Jesus é açoitado brutalmente e coroado com espinhos, sendo tratado como um “rei de zombaria” por soldados romanos.

Jesus foi zombeteiramente coroado com espinhos pelos soldados romanos como “Rei dos Judeus”, quanto à celebração litúrgica de Cristo como Rei do Universo. A coroa de espinhos simboliza sofrimento e escárnio, enquanto a coroação litúrgica exalta seu sacrifício

Da peça: Sustentada na tonalidade de Si menor, a melodia conduz o ouvinte a um misto de tensão e reflexão. Mais uma vez a representação em tom menor não oferece tristeza, mas, resiliência e força espiritual.

  • 6º movimento “JESUS CARREGA A CRUZ E O ENCONTRO COM MARIA”

Condenado por Pilatos, Jesus assume a cruz e caminha pelas ruas de Jerusalém em direção ao Calvário, exausto. No caminho, Jesus encontra sua mãe e tem a ajuda de Simão Cirineu para carregar o madeiro, além do gesto de Verônica.

Da peça: Os acordes da primeira parte da peça mostram o ritmo dos passos de Cristo ao carregar a cruz, seguido pela segunda parte em tom maior representando o encontro com sua mão, Maria.

  • 7º movimento “CRUCIFICAÇÃO”

A crucificação de Jesus foi um evento histórico ocorrido por volta de 30-33 d.C. em Jerusalém, sob o governo de Pôncio Pilatos. Jesus foi condenado à morte por crucificação, uma penalidade romana brutal para criminosos, após ser açoitado e ridicularizado. Ele foi pregado em uma cruz no Gólgota, onde morreu entre dois ladrões, em um ato descrito como sacrifício. 

Da peça: A força de uma melodia curta e assertiva na tonalidade de lá menor demonstra ao mesmo tempo a fragilidade da carne e a força do espírito.

“O amor de Cristo nos uniu”

Inverno amazônico, março de 2026.

Salomão Habib

A concepção musical privilegia o violão como eixo condutor, articulando-o com a orquestra para construir contrastes de dinâmica e textura. A alternância entre passagens em pianíssimo, com uso de harmônicos, e momentos em fortíssimo privilegia a dimensão dramática da composição.

A obra é organizada como uma sequência de imagens sonoras, sem recorrer à palavra, mantendo o foco na expressividade musical como meio de interpretação dos episódios bíblicos. A construção temática, com reapresentação de motivos ao longo dos movimentos, garante unidade ao conjunto.

Para os amantes das artes, o privilégio de assistir a estreia da obra é certamente imperdível.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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