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Há alguns dias a Capes – fundação do Governo Federal responsável pela avaliação e por parte
do funcionamento da pós-graduação brasileira – divulgou a sua avaliação quadrienal dos
cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) do país. Dias depois,
coincidentemente, o CWTS Leiden Ranking, um sistema de avaliação de universidades de todo
o planeta, muito respeitado, elaborado pela elaborado pelo Centro de Estudos em Ciência e
Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda, divulgou seus resultados anuais –
indicando a presença de oito universidades chinesas entre as 10 melhores do mundo. Outros
índices de avaliação de universidades costumam ser divulgados em janeiro e fevereiro de cada
ano – num processo que chega a surpreender, por seu nível de abstração métrica e pela frieza
e objetividade como o saber universitário passa a ser mensurado por indicadores numéricos.
Oportunamente, indo no sentido contrário a todo esse movimento, a Unidade da Sorbonne, de
Paris, anunciou que, oficialmente, interrompia o fornecimento de dados ao sistema World
University, produzido pela revista Tines Higher Education, que classifica 2.191 instituições, de
115 países, sendo um dos mais influentes desses índices. De acordo com uma declaração
pública da reitora da Sorbonne, Nathalie Drach-Temam, sua universidade está deixando esse
índice específico, “mas nossa crítica aos rankings universitários internacional é global”.
Fico particularmente satisfeito de ver a Sorbonne deixar esse índice, pois foi a universidade
onde fiz um de meus mestrados e meu douramento – sendo, como se diz no mundo anglo-
saxônico, minha alma mater (uma delas, a outra é a UFPA, onde fiz minha graduação).
Porém, minha satisfação maior é porque considero ser absolutamente importante uma
decisão destas, um movimento como esse. O gesto da Sorbonne é um ato político, uma
insubordinação crítica à lógica produtivista que vem transformando a avaliação da pós-
graduação numa corrida matemática.
Evidentemente que toda avaliação é importante e necessária, mas é preciso lembrar que
universidades não são escolas – ou não deveriam ser. São muito mais do que lugares de
aprendizado – embora também o sejam. São lugares onde se pode fazer a prospecção
científica e intelectual, a inovação técnica e exercitar novas visões e soluções para os
problemas do mundo e das sociedades. Universidades são laboratórios da ontologia social:
espaços que precisam dialogar com o “mundo da vida” (o Lebenswelt discutido por Husserl).
O conhecimento produzido numa universidade é, necessariamente, plural e aberto às
contradições, dúvidas e incertezas que, naturalmente, fazem o saber se autoproduzir. Nesse
sentido, qualquer lógica avaliativa estruturada sobre critérios quantitativos e ranqueamentos
constitui, a meu ver, não apenas uma lógica que tende a constranger a especificidade de
muitas instituições a um padrão de valoração globalizado mas, também, uma lógica que tende
a reduzir instituições que deveriam colaborar entre si em instituições adversárias. Por fim, que
tende a diminuir, o conhecimento, sobretudo na sua dimensão emancipatória, a uma planilha
de índices quantificáveis e de metas abstratas.
A atitude de insubordinação da Sorbonne não é isolada. A instituição lidera a Coalizão para o
Avanço da Avaliação da Pesquisa (Coara), que reúne universidades, instituições de pesquisa e
tecnologia e agências de fomento da ciência e tecnologia. Outras instituições integram esse movimento. Em 2022 as faculdades de Direito das prestigiosas universidades de Yale, Harvard
e Columbia se recusaram a fornecer dados para o mais tradicional ranking acadêmico dos
Estados Unidos, o U.S. News & World Report – fato que contribuiu para a queda na avaliação
internacional dessas instituições. Seguindo o mesmo movimento, em 2023, 52 universidades
da Coreia do Sul anunciaram um boicote ao ranking da empresa privada britânica Quacquarelli
Symonds, acusando-a de falta de transparência. Por fim, em 2024, a Universidade de Zurich se
retirou do Times Higher Education.
Isso mostra que nem tudo está perdido… E que o conhecimento não poder ser transformado
em mercadoria, tal como o saber não deve ser pensado como um fetiche ou um instrumento
de trocas de prestígio simbólico.
Evidentemente, repito, toda avaliação é importante. O problema é a forma como se
compreende uma avaliação. O Brasil, seguindo a tendência mundial, tem priorizado, há
décadas, a lógica produtivista, classificando seus cientistas e professores, bem como seus
programas de pós-graduação (os PPGs), suas revistas científicas, seus projetos de pesquisa etc,
em métricas e em “posições”, sempre numa lógica de exclusão e de “distinção social” (e o digo
sendo um tanto bourdieusiano, coisa de que não gosto muito).
Para quem está fora da batalha diária e muito tensa que é a Ciência & Tecnologia (C&T) no
Brasil, a título de informação, faço uma síntese das métricas brasileiras. Os PPGs são avaliados
por meio de notas que não de 1 a 7. O mínimo para continuar funcionando é receber a nota 3,
o patamar básico, que autoriza a abertura de cursos de mestrado. A partir da nota 4 o PPG
pode abrir seu doutorado. As maiores notas, 6 e 7, contemplam os PPGs com inserção e
reconhecimento internacional. As revistas cientificas, por sua vez, são classificadas por meio
que um índice chamado Qualis, que vai de A1, o mais elevado, a A8. Os livros científicos, a seu
turno, são classificados em índices que vão de L1 a L4.
Os pesquisadores, por sua vez, são classificados por meio de diversos indicadores, dentre os
quais a pontuação das suas publicações, a quantidade de vezes que seus artigos são referidos
por outros pesquisadores, o volume de downloads de seus artigos em revistas cientificas, sua
inserção internacional, a quantidade de produções cientificas assinadas com ex-orientandos e
com orientandos etc.
Como tudo é lançado em plataformas de quantificação – as brasileiras Lattes, Sucupira, DGP e
Carlos Chagas; as internacionais Orcid, Web of Science, Academia, Google Scholar e muitas
outras – todo mundo pode acompanhar os índices de todo mundo.
Vejam, tudo isso junto tem potencial para transformar a vida de um cientista brasileiro numa
tensão permanente, senão mesmo num calvário, lançando-o num ambiente de competição
que deveria ser, necessariamente – que poderia ser – um ambiente de cooperação.
É difícil não ceder ao competitivismo, senão mesmo à cupidez – coisas absurdas, do ponto de
vista de uma filosofia e de uma ética do conhecimento. Não por acaso, tenho muitos amigos
que estão ficando doentes. Não por acaso, eu mesmo não venho me sentindo muito bem…
E, vejam, creio que tenho um bom “lugar de falar” para fazer as críticas que estou fazendo
aqui. Sou coordenador de um Programa de Pós-Graduação – o PPG em Desenvolvimento
Sustentável do Trópico Úmido, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da UFPA – que é nota

  1. Um dos 5 mais “produtivos”, dentre os cerca de 150 PPGs da Amazônia. Também sou um
    dos editores-chefe de uma revista, a Galáxia, na PUC de São Paulo, que recebeu nota A1,

sendo uma das três mais influentes, no Brasil, do campo da pesquisa em Comunicação. Por
fim, sou “bolsista de produtividade” do CNPq, o que me confere uma condição de
reconhecimento alcançada por menos de 0,5% dos cientistas brasileiros. Em síntese, com esses
índices, eu poderia estar afirmando as métricas acadêmicas e sua institucionalidade, mas,
sinceramente, não concordo com elas e não me sinto à vontade com elas.
E isso porque, em nenhum desses campos, o esforço é exclusivamente meu. Em todos os
casos, o esforço é coletivo. Aliás, minha participação é uma fração, apenas, de um trabalho
que é cooperativo, tal como toda forma social do conhecimento – apesar da tendência à
reificação dos quantitativos acadêmicos. O Programa não sou eu, a revista não sou eu, a
publicação não sou eu, o quantitativo não sou eu. Resisto a ceder à toda metrificação, à sua
tendência à individualização e à perversidade do individualismo, porque não há conhecimento
sem o coletivo. Isso deveria ser evidente, mas essa evidência é mascarada pela ditadura dos
números.
Pelo capitalismo dos números… As práticas da classificação, do ranqueamento e da avaliação
quantitativa tendem a funcionar como agentes estigmatizadores do saber, reguladores das
consciências, redutoras das práticas pedagógicas e deletadores do mundo da vida.
Retornando à Sorbonne e à sua corajosa insubordinação às metrificações acadêmicas, penso
que, na medida do possível, como agentes críticos (digo-o aos que o possam ser), devemos
resistir à metrificação e ao produtivismo do saber, senão mesmo à mercantilização do
conhecimento.
A pergunta a fazer é: por qual razão o conhecimento deve deixar de contribuir com a
emancipação social para ser um objeto quantificável, restrito a um valor individualizado e
centrado, antes da competição, de que na cooperação?



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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