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A Presidente da Academia de Letras de Trás-os Montes, Maria da Assunção Anes de Morais, concede-me a honra de lançar, em Vila Real, Portugal, na sede da Biblioteca Municipal dessa linda cidade, minha recente obra poética: “O Rito do Sobrevivente”.

Regozijado, agradeço a acolhida da Biblioteca Municipal de Vila Real, para o lançamento em “avant premier” desse livro (brevemente a ser lançado no Brasil), prefaciado por Anes que também é sócia Correspondente da Academia Paraense de Letras.

A prefaciadora é uma das maiores investigadoras do escritor português Miguel Torga (1907/1995), que foi contistaromancistateatrólogo e poeta, ligado à terra, ao mundo rural e as pessoas humildes, relacionadas à dignidadesolidãoliberdadeconflitos entre o ser humano e à sociedade na dimensão trágica da existência. Tais identidades com o que escrevo, penso que sejam os laços que nos permitiram a deferência do prefácio e a da apresentação ao povo português. 

Aceitei o convite, por razões dos laços culturais que possuímos com a região de Trás-os-Montes, por nossas origens portuguesas (referenciadas em poesias do nosso livro) e pela honra do chamado por quem representa a intelectualidade transmontana.

Anes visitou Belém do Pará com renomados acadêmicos de Trás-os-Montes, entre os quais os escritores, Caseiro Marques e Cabrita, cidade pela qual se encantaram e, igualmente, encantaram seu povo, sobretudo os membros da Academia Paraense de Letras.

Realizaram palestras e lançaram livros, ratificando a profundidade da cultura lusitana que se ramifica entre os brasileiros desde a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500.

Parabenizo a Anes e ao escritor Antònio Bárbolo Alves, pela tradução de suas obras que serão lançadas: “A abelhinha Mariana e outras histórias”, “A viagem de Comboio de Afonso e outras histórias”, admitindo a parceria do “Rito do Sobrevivente”, coletânea de poemas que aqui ofereço um breve comentário:

Escolhi esse título para falarmos da sobrevivência da palavra, observada em sua própria inconstância de se relacionar com o mundo exterior. Imagino poesia como uma atitude da metáfora, transformando a realidade usual pelo signo da escrita, em ficção inusual, na ação da perplexidade.

Os seres humanos se comunicam por diversos recursos de linguagem, sonoro, escrito, visual, musical, iconográfico, gestual, e outros que possam proporcionar relação intelectual,mas poesia é comunicação forjada na acepção do incomum. Revela-se na disfuncionalidade material do vocábulo e na subsistência do verbo elaborado.

Quando se utiliza combinações com palavras, figuras de linguagem – metáfora, símile, analogia, metonímia, perífrase, sinestesia, hipérbole, polissíndeto, antítese, paradoxo, aliteração, prosopopeia, valorização dos sentidos, sentimentalismo, lirismo – a expressão da palavra assume uma atitude poética.

Dentro desse conjunto de fatores, coloco o Rito e o Sobrevivente ensejando disposição e escolha que sobraram em uma peneira gramatical, sobrepostos na expressão filtrada.

Acredito que a poesia subsiste além do próprio vocábulo consignado na usualidade, disposta na disposição da fala amparada no papel, feito crivo, como sugeriu o filósofo paraense Benedito Nunes,ou imperando no espaço em que restou, como dicção que não estagnou.

Poesia é linguagem imperfeita mais-que-perfeita na feição da palavra insurgida, a flor de outro jardim que Mallarmé regou, expressão que transcendeu. Se constitui, assim percebo, como recriação daquilo que se pensou criado ou acabado, metáfora da metonímia, fala submersa que emergiu.

É dessa maneira que penso a linguagem do “O Rito do Sobrevivente” que inicia como um impulso pessoal para tentar exprimir a ressonância da palavra, organizando e revelando o que sobreviveu durante uma reflexão que buscou a transformação do plano comum.

Aventuro nessa emoção erguida em vários contextos – cabeça, tronco e membros – percorrendo um perigoso mundo de grafemas, no universo do poema em todos os seus predicados, por acreditar na transcendentalidade da expressão mágica da poesia.

Foi nessa prioridade, aqui citando e homenageando, que Fernando Pessoa pediu à Ophélia para aguardar, porque precisava escrever, e assim aterrissou nos contrafortes de Órion, alinhados às esfinges do Egitopenetrou na Via Láctea, pontuando o Cruzeiro do Sul, atravessando noites infindas como um cometa reluzente iluminando campos, pastores e ovelhasvagou pelos espaços interestelares da imaginação e do mistérioconheceu a quinta dimensão da existência enfrentando a ausência, a dor, a volúpia e o medo.

Foi português, inglês, africano, filósofo, homem, mulher, idoso, criança, a multidão dos grandes bulevares das capitais do Ocidente e das extensas feiras do Oriente. Foi ele mesmo e muitos outros, todos os outros e muito mais do que poderia ser porque a vida não lhe bastava.

Nessa linguagem incomum, composta por níveis linguísticos: fonologia, morfologia, sintaxe e semântica, itens lexicais denominados sinais por articulação cinético-visual, é que acreditamos transmitir ao público o misterioso mundo da poesia.

O poético é um alvéolo onde a larva se desenvolve, mas para que se torne uma borboleta, a lagarta tem que construir seu próprio casulo, não podendo tomar emprestado outro ou pedir que outra borboleta o construa. Depois do estágio vivido nessa habitação, existe a hora para abandoná-la porque não é uma prisão, mas sim uma casa transitória enraizada. Nessa dinâmica, quatro elementos são importantes: o ovo, a larva, a pupa e a maioridade.

O poema não voa sem atravessar o casulo-estação que possibilita asas para as constelações de onde partem as orionidas (chuva de meteoros ou estrelas cadentes, que ocorre anualmente entre os dias 15 a 29 de outubro), ao encontro do infinito.

O Rito do Sobrevivente é um casulo onde as palavras escolhidas seguiram uma ordem de sobrevivência, restando sobradas num critério de escolha pessoal e emocional. Não seguiram com as usuais do dia-a-dia que nos cercam. Não passaram, ficaram, restaram, engataram, querendo sobreviver. O sobrevivido é o pequeno conjunto inicial, pessoal, dessa filtragem, buscando uma expressão nas palavras escolhidas, unidas, desunidas, autônomas, divorciadas, livres, independentes, radiantes, felizes, tristes, humanas.

É dessa maneira que entrego o sobrevivido em seu rito, ao conhecimento dos leitores como elemento personalizado de reflexão pessoal que se vale do tempo, do sentimento, da imagem, da história, da alegria, da tristeza, do lirismo, da indignação, da inconformação, do amor, da saudade e de todas as coisas que em mim sobraram e se movimentaram.

Apresento a sobrevivência como casualidade do espontâneo e causalidade da contração, buscando o poético, ou como se diz na Amazônia: procurando o encantamento, o sentido, e a vida, querendo alguma coisa dizer.

Recebi na noite desta última sexta-feira, 30 de janeiro, enviado pelo autor e logo publicado no Portal Uruatapera, mais um belo artigo literário do Professor Doutor Marcos Valério Reis. Sob o título O chão, o silêncio e a condenação da existência em Vidas Secas, o texto faz uma acutilante análise da obra magna do alagoano Graciliano Ramos (1892-1953) – Mestre Graça, como o chamava a escritora Rachel de Queiroz.

Dissecando sociologicamente o livro e seus protagonistas, o articulista desnuda os dramas vividos por Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos, para então ensinar que “A seca é menos fenômeno natural e mais expressão concreta de uma estrutura social excludente. Em Graciliano, o sertão não é somente uma paisagem exótica, é um espaço de desumanização, onde a miséria corrói a linguagem, os afetos e a própria consciência.”

Quando se refere à cadela Baleia, Marcos Valério nos recorda que “paradoxalmente, é a personagem mais humanizada do romance. Seus pensamentos, afetos e medos são narrados com delicadeza (…). Sua morte constitui um dos momentos mais comoventes da literatura brasileira. Existencialmente, Baleia sonha, e sonhar é um gesto profundamente humano. Graciliano inverte a lógica social: o animal é capaz de imaginar um mundo melhor; os serem humanos, não.”

Por fim, fica-nos a conclusão de que “Vidas Secas permanece atual porque o Brasil que ele denuncia ainda insiste em existir. A obra nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas vidas continuam secas, não pela ausência de chuva, mas pela ausência de justiça? Graciliano Ramos escreve com dureza porque fala de um mundo duro. Seu romance não pede piedade. Exige responsabilidade social.”

A leitura fez eco em mim. O sertão como espaço de desumanização, a miséria como ferrugem voraz a consumir as consciências, a cadela capaz de esperanças em meio a homens desesperançosos e brutalizados, a aridez da vida ante tanta injustiça… tudo isso me levou a uma melancólica epifania: tanto pode a indigência levar ao caos quanto pode a opulência levar à barbárie, tanto pode a pobreza extrema induzir a piedade quanto a riqueza míope conduzir à selvageria.

Mesmo submerso em sofrimento, atravessando um deserto de oportunidades, farto de fome e abandono, Fabiano foi capaz de sentir piedade ao ver Baleia definhar magra e sem pelo, tomada de feridas purulentas escurecidas não por sangue coagulado, mas pelas moscas que lhe pousavam sobre costelas cada vez mais evidentes, com lacerações na boca que a impediam de ingerir escassa comida e raríssima água. Consternado, o sertanejo decidiu matá-la para aliviar seu calvário, permitindo que ao menos enquanto agonizava, no delírio que antecede a morte, o animal pudesse sonhar com preás gordos e crianças felizes brincando ao seu redor.

Em contraponto, num cenário diametralmente oposto, cercados de fausto e conforto, pretensamente bem educados, estômagos cheios e mentes vazias, camas quentes e corações gélidos, egos inflados pela superexposição das redes sociais, quatro adolescentes de Santa Catarina, ocupantes do topo da pirâmide social, foram capazes de sentir ódio e desprezo pelo cão Orelha, um dócil e simpático vira-lata, praticamente um habitante hippie da Praia Brava, torturando-o com requintes inacreditáveis de perversidade e selvageria, deixando-o ao relento, seviciado e machucado, tão barbarizado que só lhe restou a benevolência da eutanásia.

Não havia sertão, não havia miséria e não havia fome. Curiosamente, contudo, tal como percebido pelo Professor Reis, havia incompreensível desumanização, penúria moral a corroer afetos e consciências. Havia também vidas desidratadas pela ausência de justiça, e havia, infelizmente, um animal inocente a acreditar num mundo melhor, cuja má sorte o levou ao encontro de seres humanos que sequer desconfiam da existência de um mundo que não gire ao redor de seus umbigos.

Tal como ocorre num déjà vu, é como se a obra prima de Graciliano Ramos não tivesse fim; é como se, gerações depois de Fabiano, Sinhá Vitória e dos meninos, quatro novos e indigestos personagens insistissem na existência de um Brasil em que já não deveríamos habitar, dilacerado por eterna e aviltante irresponsabilidade social.

Não parece real, de tão insidioso, de tão pérfido. Parece mais, isto sim, um insondável enigma do Livro do Apocalipse (6, 1-8), com os cavaleiros assentados sobre quatro cavalos, o primeiro com a coroa sobre a cabeça; o segundo portando a espada, encarregado de tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; o terceiro com a balança nas mãos; e o quarto, que tinha por nome Morte, com o inferno a segui-lo; sendo-lhes concedido poder para matar a quarta parte da terra com a guerra, a peste, a fome e as feras.

Muito já se disse ou escreveu sobre esse episódio triste e revelador. Houve muito ódio a criticar ódio, maldade a condenar maldade, loucura a justificar loucura. Não quero participar disso. Não desejo o mal desses rapazes, isso não me compete. Desejo sim que sejam submetidos aos rigores da lei, na medida por ela estabelecida. E que um dia compreendam em plenitude tudo de ruim que fizeram. Será certamente a maior punição: alcançar e compreender a vilania de que foram capazes.

Mais e melhor me apraz que realidade e ficção se entrelacem, fazendo nascer literatura e poesia, permitindo imaginar que Orelha encontre Baleia, não num sertão infértil e desprovido, não numa praia onde haja fel e fúria. Talvez num campo verde, sobre um extenso e sombreado relvado, num chão acolhedor em que a existência não esteja condenada à secura, repleto de preás nutridos e apetitosos e de crianças felizes brincando ao redor.

dimensão da existência enfrentando a ausência, a dor, a volúpia e o
medo.
Foi português, inglês, africano, filósofo, homem, mulher, idoso,
criança, a multidão dos grandes bulevares das capitais do Ocidente
e das extensas feiras do Oriente. Foi ele mesmo e muitos outros,
todos os outros e muito mais do que poderia ser porque a vida não
lhe bastava.
Nessa linguagem incomum, composta por níveis linguísticos:
fonologia, morfologia, sintaxe e semântica, itens lexicais
denominados sinais por articulação cinético-visual, é que
acreditamos transmitir ao público o misterioso mundo da poesia.
O poético é um alvéolo onde a larva se desenvolve, mas para
que se torne uma borboleta, a lagarta tem que construir seu próprio
casulo, não podendo tomar emprestado outro ou pedir que outra
borboleta o construa. Depois do estágio vivido nessa habitação,
existe a hora para abandoná-la porque não é uma prisão, mas sim
uma casa transitória enraizada. Nessa dinâmica, quatro elementos
são importantes: o ovo, a larva, a pupa e a maioridade.
O poema não voa sem atravessar o casulo-estação que
possibilita asas para as constelações de onde partem as orionidas
(chuva de meteoros ou estrelas cadentes, que ocorre anualmente
entre os dias 15 a 29 de outubro), ao encontro do infinito.
O Rito do Sobrevivente é um casulo onde as palavras
escolhidas seguiram uma ordem de sobrevivência, restando
sobradas num critério de escolha pessoal e emocional. Não
seguiram com as usuais do dia-a-dia que nos cercam. Não
passaram, ficaram, restaram, engataram, querendo sobreviver. O
sobrevivido é o pequeno conjunto inicial, pessoal, dessa filtragem,
buscando uma expressão nas palavras escolhidas, unidas,
desunidas, autônomas, divorciadas, livres, independentes,
radiantes, felizes, tristes, humanas.
É dessa maneira que entrego o sobrevivido em seu rito, ao
conhecimento dos leitores como elemento personalizado de
reflexão pessoal que se vale do tempo, do sentimento, da imagem,
da história, da alegria, da tristeza, do lirismo, da indignação, da
inconformação, do amor, da saudade e de todas as coisas que em
mim sobraram e se movimentaram.
Apresento a sobrevivência como casualidade do espontâneo e
causalidade da contração, buscando o poético, ou como se diz na
Amazônia: procurando o encantamento, o sentido, e a vida,
querendo alguma coisa dizer.

Fotos de Ernane Malato com Assunção Anes, presidente da Academia de Letras de Trás-Os-Montes e o escritor português Antònio Bárbolo Alves.

Foto de Ernane Malato com a escritora portuguesa Assunção Anes, presidente da Academia de Letras de Trás-Os-Montes, e os escritores portugueses Antònio Bárbolo Alves e Caseiro Marques.


* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Ernane Malato
Ernane Malato é escritor, poeta e jurista, especialista em Direito Constitucional pela UFPA, mestre em Filosofia do Direito, área de Direitos Humanos pela PUC/SP, professor e pesquisador da Amazônia em diversas áreas sociais e científicas no Brasil e no Exterior, membro das Academias Paraenses de Letras; Letras Jurídicas; de Jornalismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Pará. Exerceu funções de magistrado estadual e atualmente atua como cônsul honorário da República Tcheca na Amazônia.

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