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A ocupação do terminal portuário da Cargill, em Santarém, iniciada em 22 de janeiro por lideranças indígenas, ribeirinhas e movimentos sociais, que entra hoje em seu sétimo dia de permanência contínua, ganhou novo fôlego com a Barqueata de Resistência realizada em Alter do Chão, ontem (28). A mobilização se posiciona contra a dragagem do Rio Tapajós, da concessão da hidrovia prevista no Decreto nº 12.600/2025 e, de forma mais ampla, da luta pela demarcação dos territórios indígenas no Baixo Tapajós. As mulheres indígenas, como de praxe, têm lugar de destaque na linha de frente do movimento.

Barqueata (Cita / Reprodução)

Barqueata (Cita / Reprodução)

Para os povos originários e tradicionais, a defesa do rio está diretamente ligada à garantia do território. Nas publicações que circulam nas redes sociais a partir do local da ocupação, as lideranças reiteram que a demarcação não é apenas uma pauta jurídica, mas condição essencial para a sobrevivência indígena, a preservação da floresta, da biodiversidade, das águas e do equilíbrio climático global. Onde há terra indígena demarcada, a vida se mantém.

Desde o começo da ocupação, foram realizadas diversas articulações com movimentos sociais presentes no local e reuniões com representantes de ministérios do governo federal, que informaram aos manifestantes que o Ministério dos Povos Indígenas está se organizando para ir até o território efetuar um diálogo direto. Até agora não há nenhuma publicação oficial a respeito.

O foco imediato do protesto é a intervenção planejada para o trecho entre Santarém e Itaituba, estimada em R$ 74,8 milhões, destinada a ampliar a navegabilidade para grandes embarcações usadas no escoamento de grãos. A ação transforma o Tapajós em corredor logístico do agronegócio e subordina o rio a uma função econômica que desconsidera os impactos sobre quem vive historicamente do território.

Em publicação nas redes sociais, o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que reúne 14 povos do Baixo Tapajós e que coordena a ocupação, alerta: “A dragagem permanente ameaça as margens, altera o curso das águas, coloca em risco as praias, a pesca e a saúde da população, com a possibilidade de ressuspensão de mercúrio e outros contaminantes já presentes nos sedimentos do rio”.

As lideranças defendem a revogação do Decreto nº 12.600/2025, a suspensão do edital de dragagem nº 567/2025, o combate ao garimpo ilegal e a adoção de medidas emergenciais de saúde para comunidades já expostas à contaminação por mercúrio. Também denunciam que a movimentação de sedimentos pode comprometer a qualidade da água, afetar a pesca, acelerar a erosão das margens e impactar diretamente as praias de areia branca de Alter do Chão.

O debate ganhou contornos jurídicos no início do mês. Em 13 de janeiro, organizações socioambientais e o Ministério Público Federal questionaram a condução do processo pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Três dias depois, a Justiça Federal de Santarém manteve a licitação. As organizações apontam que não existe licença ambiental definitiva para a dragagem permanente e citam apenas a Autorização nº 5776/2025, emitida pela Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Semas) em caráter emergencial, válida até fevereiro de 2026.

As lideranças aprontam que a condução do projeto evidencia contradições entre compromissos ambientais assumidos pelo governo federal em espaços internacionais e as decisões administrativas adotadas no território amazônico.

Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) afirma que o decreto que atinge os rios Tapajós, Madeira e Tocantins integra um modelo que ignora populações que dependem historicamente dessas águas. A entidade declara: “O Tapajós não pode ser tratado como infraestrutura logística ou mercadoria. É território indígena, espaço de vida, memória e relação coletiva, cuja destruição compromete diretamente o bem viver dos povos do Baixo Tapajós. A APIB se soma à mobilização e reafirma apoio à luta em defesa do Rio Tapajós e dos direitos dos povos indígenas”.

Além da contestação à dragagem, a ocupação no porto também simboliza a resistência a um modelo de desenvolvimento que, segundo as lideranças, repete há séculos a lógica de invasão e exploração. Nas mensagens divulgadas durante o protesto, os indígenas contrastam mais de 10 mil anos de presença no território com os últimos 500 anos de um suposto desenvolvimento econômico que consideram destrutivo para a floresta e para seus modos de vida.

Entre os pontos centrais levantados está a ausência de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas, direito assegurado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. A condução do projeto repete a imposição histórica de grandes obras sobre territórios indígenas e tradicionais sem diálogo com seus habitantes.

Ocupação na Cargil (Cita / Reprodução)

Nesta quinta-feira (29), será realizado o Cineclube Regatão em em Alter do Chão. Um cortejo cultural sairá, às 19h, da sede das Suraras do Tapajós com destino à Quinta do Mestre. Na ocasião será exibido o documentário “Tapajós: Onde o Rio é Luta”, que traz as vozes de quem vive os impactos dos grandes projetos na região e resiste todos os dias.

Também como forma de apoio, as organizações indígenas do Baixo Tapajós estão mobilizando uma rede de solidariedade para garantir a permanência da ocupação no terminal da Cargill e a continuidade da resistência no território.

Publicações do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita) e do Conselho Indígena Tupinambá informam que os parentes mobilizados em Santarém necessitam de apoio material imediato para manter a estrutura do acampamento montado em defesa do rio.

As contribuições podem ser feitas de duas formas: por meio de doações financeiras e pelo envio de itens de primeira necessidade.

As doações financeiras podem ser realizadas pela Chave Pix 16.901.945/0001-14 (CNPJ), em nome do Conselho Indígena Tupinambá.

Segundo as organizações, os recursos são destinados à compra de água, alimentação, colchões e materiais básicos que garantem a permanência das famílias indígenas no local da mobilização.

Também estão sendo arrecadados materiais físicos para envio direto à ocupação em Santarém. A lista inclui:

  • Colchões
  • Barracas
  • Redes
  • Lençóis e toalhas
  • Materiais de higiene pessoal
  • Repelente e protetor solar
  • Água potável
  • Alimentos

Como muitas famílias estão no acampamento, as organizações também pedem apoio com materiais voltados às crianças:

  • Papel A4
  • Cola
  • Lápis e lápis de cor
  • Giz de cera
  • Barbantes coloridos
  • Massinha de modelar
  • Brinquedos

Quem deseja contribuir com a entrega de materiais ou obter orientações sobre como ajudar pode entrar em contato com Jackson Tupinambá através do número telefônico +55 (93) 98114-3497.

Foto em destaque: Vittiin Silva / Cita

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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