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Publicado: 3 de abril de 2025  

Em meio à floresta, entre rios e ilhas, um outro modelo de cidade já existe — ainda que invisibilizado ao olhar oficial. Esse é o ponto de partida do estudo “Desencobrindo o periurbano estendido: o território de resistência amazônica em Abaetetuba”, pesquisa realizada pela estudante de Arquitetura e Urbanismo Fernanda Manuela Carvalho da Silva Santos, da Universidade Federal do Pará (UFPA), com orientação da professora Ana Cláudia Duarte Cardoso, como parte do Programa de Iniciação Científica (PIBIC).

O trabalho investiga como comunidades ribeirinhas e quilombolas das Ilhas do Xingu e Capim, no município de Abaetetuba, organizam seu cotidiano, resistem a grandes empreendimentos e constroem modos próprios de habitar a Amazônia — com forte ligação entre moradia, natureza e território.

Ao contrário da ideia dominante de cidade como sinônimo de concreto e verticalização, o estudo defende que há um “urbanismo amazônico” — nativo e histórico — que articula floresta, rio, quintal, roça e casa. Esse modo de vida, mantido por ribeirinhos, indígenas e quilombolas há séculos, é o que a pesquisa chama de “periurbano estendido”: espaços entre o rural e o urbano onde diferentes modos de vida coexistem e desafiam as fronteiras oficiais da cidade.

Segundo a pesquisadora, esse território não pode ser entendido pelas dicotomias tradicionais urbano-rural, cidade-campo. “Na Amazônia, o urbano não se resume às cidades. Ele se expande pelas ilhas, vilas e margens dos rios. São espaços vivos, conectados por redes de relações e trocas, que escapam à lógica capitalista”, explica Fernanda Santos.

A metodologia usada se baseou em entrevistas, observação participante, mapeamentos manuais (cartografia social), fotos e vídeos. As oficinas realizadas com os moradores perguntavam: “Onde você mora?”. A resposta vinha em forma de desenhos e falas que ligavam casa, roçado, quintal, açaizeiros, trapiches, o rio — elemento central na vida comunitária.

“Uma senhora nos disse: ‘quando eu penso em casa, lembro do rio’. Isso muda tudo. O rio é casa, estrada, comida, lazer, sustento e risco”, relata Fernanda. Essa relação íntima entre pessoas e natureza estrutura o território: da criação de galinhas no quintal ao plantio de mandioca na terra firme; da pesca no rio à produção de farinha, goma, tucupi e açaí — tudo é parte de um sistema autônomo e resiliente.

Apesar de toda essa riqueza socioterritorial, as comunidades enfrentam graves ameaças vindas de grandes empreendimentos econômicos, como a instalação de portos, minerodutos, monoculturas e a especulação fundiária. O porto privado da Cargill, projetado para a Ilha do Capim, é apontado como uma das principais pressões atuais, com impactos sobre o solo, os rios, a reprodução dos peixes e a segurança alimentar das famílias locais.

Em resposta, as comunidades se organizam em redes de resistência, promovem encontros como o “Grito das Águas” e reivindicam o reconhecimento legal de seus territórios, muitas vezes sem demarcação oficial. “Não tem indústria, mas a gente não passa fome”, disse uma moradora, contrapondo o discurso do “desenvolvimento” que, segundo os habitantes, polui, divide e precariza.

A pesquisa revela a existência de uma microrrede de centralidades comunitárias em Abaetetuba: pequenos centros com escola, igreja, posto de saúde, campo de futebol, onde serviços e interações sociais fluem entre comunidades vizinhas, conectadas pelo rio.

Esse padrão de ocupação não é aleatório: ele segue lógicas antigas de uso da terra, onde nenhuma parte do território é considerada secundária. “Tudo importa”, disseram os moradores durante as oficinas. Do peixe menor à árvore centenária, da rota da pesca à temporada do açaí — cada ciclo natural informa e organiza a vida.

A pesquisa é um convite a repensar como se planejam cidades na Amazônia. Ela propõe que o planejamento urbano passe a reconhecer e valorizar os padrões nativos de ocupação, em vez de tentar substituí-los por modelos importados. Ao identificar esse urbanismo próprio, o trabalho oferece ferramentas para a construção de políticas públicas que respeitem a cultura, o modo de vida e os direitos das populações tradicionais.

“Reconhecer o urbanismo amazônico é reconhecer também a possibilidade de um futuro diferente — onde a floresta continue viva, e com ela as pessoas que a mantêm em pé”, conclui a autora.

Imagens: Fernanda Santos

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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