Publicado em: 26 de fevereiro de 2026
Na extensa praia de areias alvas da Ponta do Espardate, município de Salinópolis, avisto uma concha marrom que costumamos denominar de caracol, contrastando com as cores do cenário: o branco e o verde musgo das águas da maré vazante.
Isolada, inserida na célere transformação aquática costeira, lá estava ela, semienterrada, reinando na magnitude ambiental, enfeitando a paisagem.
Resolvo levá-la, como quem recebe uma oferta do oceano atlântico, para minha coleção de objetos exóticos do mar.
No quarto do hotel a coloco perto do terraço para, no outro dia, transportá-la ao novo abrigo em Belém e me recolho para uma noite de descanso, após a longa caminhada pela orla ventilada.
Quando acordei no outro dia a concha havia sumido, ou melhor, se movimentado para outro canto do quarto, sugerindo ter vida própria, mas se tratava, porém, de um inquilino que habitava seu interior movendo a “casa”: um siri-ermitão fazendo da concha sua morada. Naquele instante começava o dilema desta crônica: eu queria a “casa” dele e ele a “concha” que eu achava que era minha.
Percebi ter encontrado uma concha do mar, sem imaginar estar “ocupada” pelo siri que se considerava proprietário.
Levei-os para o jardim do hotel, oferecendo ao eremita a “oportunidade” de sair daquela “toca”, diretamente para a praia, mas ele não aceitou. Algumas balançadas na casa e nada do hóspede aceitar despejo forçado.
Ainda que não tenha sido o construtor da residência e sim o molusco originário àquela altura extinto, o ermitão não se dava por vencido.
Força não seria solução, pois não possuo vocação para extinções de espécies ou mesmo para violência contra seres vivos, então arquitetei sua retirada consultando a internet que me ensinou jogar água morna para que ele se retirasse à procura de outro abrigo. Apesar disso, apenas colocando as patinhas de fora, ele não saia.
O fato é que ambos queriam a concha, mas o que alimentava minha pretensão era ele não ser o proprietário originário. Paguros – como também são chamados – se aproveitam dessas “moradas” quando o molusco original morreu. O Eremita apenas “aluga”, temporamente, a concha como abrigo, uma vez não possuir o abdômen rígido e, para se proteger, ocupam conchas marinhas vazias. À medida que crescem, trocam para outra maior.
Minha concha, ou a concha do eremita, pertenceu a um molusco marinho que a produziu secretando carbonato de cálcio, depois morrendo por idade, predação ou fatores ambientais, até ser ocupada pelo hóspede-crustáceo para se proteger de predadores.
O siri-eremita passa a ocupar a concha, encaixando o abdômen dentro delas e, segurando a mesma com as patas, se deslocando para procurar alimentos. Tudo natural no ecossistema marinho, não sendo uma relação de mutualismo ou parasitismo, mas de oportunismo.
O dicionário da língua pátria ensina que oportunismo é a prática de aproveitar circunstâncias, muitas vezes de maneira inescrupulosa ou antiética, para obter vantagens pessoais. Caracteriza-se pela acomodação às situações, priorizando o interesse próprio, ignorando princípios morais ou normas estabelecidas, aplicado na política, nos negócios ou nas relações pessoais.
No mundo dos humanos costuma-se classificar como “pegar o bonde andando”, sem preocupação alguma com a ética, ou como “aproveitamento” de situações em crise, com vários exemplos na história da humanidade, Hitler foi um deles.
Fiquei o restante do dia me perguntando: aonde estaria caracterizado o siri eremita nessas definições da convivência humana? que ofensa ele teria promovido ao molusco extinto, dentro de seu habitat? Que tipo de oportunismo estaria, o eremita-hóspede, utilizado sobre a concha que encontrou antes de mim?
Assim pensando longamente, fui à praia na ultima noite da minha aventura naquela linda região salgada e devolvi a concha ocupada pelo siri-ermitão ao meio ambiente, no instante que a maré crescia, reconhecendo não ter nenhuma propriedade sobre eles, quem sabe nem de muitas coisas neste mundo.










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