0
 

A Venezuela concentra o maior volume de petróleo certificado do planeta: algo em torno de 300 bilhões de barris de reservas provadas, em sua maioria óleo pesado e extrapesado da Faixa do Orinoco. Em valores em solo, mesmo sob hipóteses conservadoras, trata-se de um ativo geoeconômico colossal. A preços internacionais na casa de US$55–65 por barril (considerando, inclusive, dados do site Bloomberg), o valor bruto teórico estimado dessas reservas oscila entre US$16 trilhões e US$19 trilhões. Esse número, obviamente, não representa dinheiro em espécie disponível, mas o tamanho do prêmio estratégico em disputa: quem controla o ritmo, a tecnologia e a apropriação do desse petróleo venezuelano (que representa aproximadamente 25% das reservas mundiais) influencia algumas das mais lucrativas e decisivas cadeias energéticas, financeiras e geopolíticas da economia mundial. por décadas.


A leitura segundo a qual o conflito em torno da Venezuela resume-se ao aspecto político é apenas ideológico ou “democrático” é incompleta. A variável central é energia. Petróleo pesado exige capital, tecnologia de upgrading, logística e acesso a mercados exatamente os ativos dominados por grandes companhias dos Estados Unidos. Num cenário de abertura forçada, tutela política ou mudança de regime alinhada a interesses externos, empresas como Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips estariam entre as principais beneficiárias da exploração em larga escala do Orinoco, com ganhos de 4% a 7% que tiveram no valor de suas ações nos dias seguintes à saída de Maduro, conforme informações dos sites Bloomberg, Yahoo/Finance, Wall Street Journal, entre outros.

Como as companhias americanas se beneficiariam?
Primeiro, pelo acesso privilegiado às maiores reservas de petróleo comprovadas, sendo, até mesmo, superiores àquelas da Arábia Saudita a reservas de longa duração. Em um mundo que ainda dependerá de petróleo por décadas, garantir volumes gigantescos, ainda que de óleo pesado, significa previsibilidade de caixa e poder de mercado. Segundo, pela internalização da renda petrolífera: contratos de partilha, concessões vantajosas, serviços de engenharia, financiamento e venda de diluentes e catalisadores transferem parcela relevante do valor gerado para matrizes nos EUA. Terceiro, pelo efeito de encadeamento: cada dólar investido em extração pesada aciona siderurgia, química fina, logística, seguros, serviços financeiros e tecnologia, setores nos quais a economia americana é dominante.


Há ainda o impacto macroenergético. Incrementar o suprimento de petróleo pesado no circuito controlado por empresas americanas reduz a dependência de outras regiões sensíveis, ajuda a modular preços e reforça a segurança energética dos EUA e de seus aliados. Parte desse petróleo, uma vez processado, tende a alimentar refinarias adaptadas nos próprios Estados Unidos, capturando valor também no downstream.


E não podemos deixar de considerar a extrema importância logística e militar do fato de passar a dispor de fontes de petróleo maiores do que as da Arábia Saudita a menos de 2.500 quilômetros do território norte-americano (península da Flórida). Um petroleiro standard tem que percorrer de 10.000 a 11.000 milhas náuticas (entre 18.000 e 20.000 quilômetros) no percurso entre um porto saudita e o Texas (estado com os maiores centros de processamento de petróleo estadunidense), levando de 28 a 42 dias para fazer esse trajeto, em condições normais de tráfego. Por sua vez, o mesmo tipo de embarcação percorre de 1.400 a 1.600 milhas náuticas (entre 2.500 e 3.000 quilômetros) entre Caracas e o Texas, levando apenas de 5 a 7 dias, em condições normais de tráfego. Se não bastasse, também deve-se destacar que os Estados Unidos representam a força quase que isolada no ambiente político e militar do Mar do Caribe, enquanto que o percurso do petróleo oriundo da Arábia Saudita representa, para os Estados Unidos, desafios muito mais difíceis desta natureza.

Quanto isso poderia “crescer” a economia americana?
A palavra “pilhagem” é dura, mas explicita a assimetria potencial. Se 20% a 30% do valor econômico realizável das reservas venezuelanas fosse apropriado direta ou indiretamente por empresas e cadeias americanas ao longo de 20–30 anos, estaríamos falando de US$1 a 3 trilhões em receitas brutas acumuladas. Distribuído no tempo, isso não altera de imediato o nível do PIB, mas adiciona décimos de ponto percentual ao crescimento médio, sustenta empregos qualificados, melhora a balança comercial energética e fortalece o dólar via fluxos financeiros e investimentos. Um fluxo adicional de US$50–100 bilhões por ano em atividades ligadas à cadeia do Orinoco, plausível em exploração intensiva, pode representar 0,2% a 0,4% do PIB americano, além de efeitos indiretos sobre inovação e arrecadação.

Impactos potenciais sobre a dívida pública dos Estados Unidos?
Os efeitos sobre uma dívida federal em torno de US$30 trilhões seriam indiretos, porém relevantes. Não se trata de “pagar a dívida com petróleo”, e sim de alterar fluxos fiscais, externos e financeiros que condicionam sua trajetória.


No canal fiscal, a expansão de lucros, dividendos e ganhos de capital amplia a base tributária. Mesmo com planejamento tributário, receitas adicionais persistentes podem reduzir déficits marginais ou retardar o crescimento do estoque da dívida ao longo do tempo. No canal externo, maior controle sobre suprimentos e processamento doméstico melhora a balança comercial energética, reforça o dólar e barateia a rolagem da dívida. No canal macrofinanceiro, a centralidade do sistema financeiro americano na renda petrolífera global sustenta a demanda por Treasuries, reduzindo prêmios de risco; pequenas quedas no custo médio dos juros, aplicadas a um estoque de US$30 trilhões, geram economias anuais significativas.


O contraponto é decisivo: mesmo em cenários otimistas, esses efeitos não resolvem a dinâmica estrutural da dívida americana, determinada por gastos obrigatórios, política fiscal e juros reais. O petróleo venezuelano não é solução, mas pode funcionar como amortecedor: melhora condições de financiamento, sustenta crescimento marginal e compra tempo num sistema baseado em rolagem contínua.

O custo para a Venezuela e a narrativa em disputa?
O outro lado da equação é a soberania sobre a renda. Quando o petróleo não se converte em diversificação produtiva, ciência e infraestrutura, ele financia dependência. A história latino-americana sugere que a captura externa da renda de recursos naturais ainda que via contratos “legais” tende a reproduzir subdesenvolvimento. A disputa, portanto, não é apenas moral; é material: quem captura a renda e para onde ela flui. Petróleo é poder e o tamanho do ativo em solo ajuda a explicar por que a pressão internacional persiste, independentemente do governo de turno.

Prof. Francisco Ribeiro
Reitor da Unifesspa

Francisco Ribeiro da Costa
Francisco Ribeiro da Costa é reitor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), em seu segundo mandato, com gestão estendida até 2028 após o início do primeiro mandato em 2020. Geólogo de formação, é professor da Faculdade de Geologia da instituição. Tem mestrado e doutorado em Geologia, consolidando atuação acadêmica e liderança institucional voltadas ao desenvolvimento científico e educacional da Amazônia brasileira.

O vazamento no poço e as lacunas na estrutura da Petrobras 

Anterior

Levante Tupinambá e a Cabanagem nesta data emblemática no Pará

Próximo

Você pode gostar

Mais de Política

Comentários