Publicado em: 20 de novembro de 2025
Touristando virtualmente pela mídia global, observo que a COP30, realizada em Belém, chegou ao centro do debate internacional muito antes de apresentar a conclusão dos seus próprios resultados. No texto anterior, dirigi o olhar para o panorama de aspectos positivos e negativos da COP, da minha perspectiva. Nesta empreitada, procuro dar enfoque à questão geopolítica e à perspectiva da imprensa. Muito além de ser a primeira conferência climática sediada no coração da Amazônia, a COP tem funcionado como um observatório a céu aberto onde se revelam, de forma quase didática, as imensas contradições que moldam a política climática global em 2025. Essas contradições se tornam matéria-prima para críticas, reflexões e análises que atravessam a cobertura internacional.
A cobertura da imprensa nacional e internacional ajuda a pensar geopoliticamente e a compor o mosaico de tensões, esperanças e impasses que estruturam a COP. O retrato predominante é o de um mundo desalinhado com as metas do Acordo de Paris. Esse desalinhamento reflete uma comunidade internacional exausta, fragmentada e, em alguns casos, cínica e cética diante da urgência climática. Esse olhar importa porque a questão do clima é uma agenda que exige alinhamento global para produzir resultados estruturantes.
A COP30 tem sido um marco de contradições e ausências. O Guardian descreve o cenário com clareza ao registrar protestos indígenas dentro da zona azul, atritos com equipes de segurança e um ambiente em que a diplomacia verde divide espaço com pressões sociais intensas. Esse tipo de tensão não aparece como efeito colateral. É sintomático. A Amazônia sempre foi tratada como símbolo planetário, mas seus povos historicamente foram relegados ao papel de bastidores desse símbolo. Quando entram efetivamente em cena, o conflito deixa de ser exceção pontual e se transforma em diagnóstico. Por sorte, nesta COP temos a maior participação de povos originários de todas as edições.
Ao mesmo tempo, a própria imprensa internacional que critica ausências revela contradições internas. O Guardian destaca que grandes redes americanas não enviaram equipes para Belém. Uma conferência que deveria ocupar o centro das atenções torna-se um evento menor no noticiário das maiores democracias do mundo, um sinal eloquente sobre as prioridades da mídia global e, por extensão, das políticas públicas desses países.
Mais grave ainda é o aviso do secretário-geral da ONU, António Guterres, destacado nas páginas do Guardian. Para ele, falhar na meta de 1,5 °C já não é apenas risco. É falha moral. A escolha do termo é deliberada. A crise climática entrou em um território em que ética e diplomacia se misturam, mas a resposta da comunidade internacional continua insuficiente. É importante lembrar que, desde 1972, a comunidade global vem firmando compromissos ambientais em documentos internacionais vinculantes. Quando Guterres fala em ética, ele fala também de responsabilidade jurídica.
Enquanto isso, estudos citados pelo MediaTalks mostram uma queda consistente na quantidade de notícias sobre clima no mundo. O planeta esquenta e o interesse público esfria. Essa contradição é efeito direto da retirada da questão climática da pauta global, criando um vazio perigoso no debate público.
O Le Monde expõe um problema tão real quanto simbólico ao apontar os preços exorbitantes de hospedagem em Belém. Para muitos países pobres, a COP30 tornou-se inacessível, quase um evento associado ao turismo de luxo. O paradoxo é evidente. Uma conferência pensada para amplificar as vozes mais vulneráveis acaba afastando justamente quem mais precisa ser ouvido.
A mesma dificuldade atinge jornalistas latino-americanos, segundo a LatAm Journalism Review. Custos elevados, infraestrutura limitada e logística complexa reduziram sua presença. O resultado é um cenário em que a história da Amazônia continua sendo frequentemente contada por quem não vive nela. Embora esta COP seja, de fato, a mais diversa em termos de participação, o alerta permanece essencial.
Apesar dessas lacunas, há iniciativas importantes tentando corrigir desigualdades históricas na cobertura. A aliança formada por mais de vinte veículos coordenados pela InfoAmazonia atua como força alternativa à concentração midiática tradicional. Doze repórteres selecionados por bolsas internacionais seguem o mesmo caminho, fortalecendo a pluralidade da cobertura. A própria imprensa, diante desse panorama, tem procurado reconhecer suas falhas.
Para nós, paraenses, é duro ignorar que a COP30, mesmo sediada na maior floresta tropical do mundo, ainda depende de estruturas externas, sejam financeiras, midiáticas ou políticas, para ver sua voz plenamente valorizada.
O conjunto dessas narrativas revela uma COP paradoxal. É profundamente simbólica, mas estruturalmente frágil. É marcada por protestos, mas ainda carece de compromissos concretos. É celebrada como marco de inclusão, mas permanece atravessada por exclusões econômicas e logísticas que silenciam parte das vozes que deveriam estar no centro do debate.
No campo político, a COP30 evidenciou como a política climática global continua moldada pela lógica de poder. A baixa participação de líderes – apenas 31 chefes de Estado, o menor número desde 2019 – mostrou que muitos governos priorizaram crises internas em lugar da diplomacia ambiental. As ausências dos países dos BRICS e do Mercosul reforçaram essa tendência de foco doméstico em detrimento de compromissos multilaterais.
O Brasil apresentou o Tropical Forests Finance Facility como sua principal conquista diplomática, mas o contraste com o ritmo lento das negociações das NDCs revelou limitações significativas. Até abril de 2025, apenas dezenove países haviam atualizado suas metas, enquanto os demais, responsáveis por 83% das emissões globais, optaram por manter silêncio estratégico. A realpolitik reduziu a ambição coletiva, já que grandes emissores evitam assumir custos econômicos e políticos imediatos.
A sociedade civil reagiu com críticas firmes. Ativistas como Ayshka Najib defenderam mecanismos formais de transição justa e alertaram para consensos diluídos, incapazes de orientar ações robustas. Esse processo levou a resumos técnicos que deixaram de fora os mapas do caminho sugeridos pelo presidente Lula e revelou uma diplomacia disposta a sacrificar clareza para preservar a unidade entre países. Essa dinâmica é relevante e perigosa, porque coloca interesses internos de alguns países em oposição direta à pauta climática.
A realpolitik, conceito central para compreender as contradições e ausências da COP30, não representa apenas cinismo. Ela é a expressão de um sistema internacional desigual. O Brasil reforçou seu soft power ao sediar a COP na Amazônia e ampliou seu capital político e econômico. Essa posição exige equilíbrio entre ambição discursiva e pragmatismo. Marina Silva, reconhecida pela Forbes como uma das Líderes de Sustentabilidade de 2025, simboliza essa busca por equilíbrio, enquanto governadores amazônicos, ao assinarem cartas conjuntas, demonstram que parte das soluções depende de coordenação interna.
O alerta de António Guterres continua atual ao afirmar que Belém precisa unir negociação com economia real para evitar ciclos de promessas pouco implementadas. No Brasil, a pauta climática é politicamente fraturada e enfrenta a resistência de interesses econômicos regionais que se opõem à agenda ambiental.
A COP30 mostrou que a realpolitik pode impulsionar e bloquear avanços simultaneamente. O progresso ocorre quando interesses convergem, mas estagna quando exige custos imediatos. Para o Brasil, o encontro representa uma oportunidade relevante de liderança, desde que consiga superar limitações impostas por interesses internos que frequentemente conflitam com a pauta climática global. Nesse ponto, Guterres tem razão.
Por enquanto, a grande pergunta que surge de forma subjacente em cada manchete permanece sem resposta: será que o planeta ainda tem tempo para continuar ignorando seus próprios alertas?
Links para pesquisa
The Guardian – Protestos e confrontos na zona azul
The Guardian – Guterres: Falhar no 1,5 °C é “falha moral”
The Guardian – Ausência de TVs americanas
Le Monde – Preços de hospedagem e acesso desigual
InfoAmazonia – Aliança jornalística na COP30
Earth Journalism Network – Bolsas para jornalistas
AFP – Custo de cobertura e deslocamento
https://www.afp.com/en/beyond-cop30-afps-year-round-global-climate-coverage?utm_source=chatgpt.com
LatAm Journalism Review – Jornalistas latino-americanos excluídos por custo
MediaTalks / MeCCO – Queda global da cobertura climática



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