Publicado em: 2 de fevereiro de 2026
Durante muitos anos, mulheres com lipedema foram tratadas como se tivessem obesidade e não emagrecessem apenas por falta de esforço. Mas não é tão simples assim.
O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo subcutâneo, descrita pela primeira vez em 1940, que afeta quase exclusivamente mulheres e permanece, amplamente subdiagnosticada e mal compreendida.
Diferente da obesidade, o lipedema apresenta uma fisiopatologia própria. A gordura se acumula de forma desproporcional, principalmente nas coxas, quadris e pernas, e para nos tornozelos e/ou punhos. Essa característica é chamada “sinal do manguito”. Esse tecido dói ao tocar, apresenta tendência a hematomas e responde pouco a dietas e exercícios tradicionais voltados para emagrecimento.
A ciência demonstra que o tecido adiposo do lipedema é estruturalmente diferente: os adipócitos (células do tecido adiposo) são maiores, há inflamação crônica, dilatação de vasos sanguíneos e linfáticos, fibrose tecidual e alterações metabólicas que tornam essa gordura resistente à lipólise (quebra de gordura). Ou seja, não se trata de uma gordura comum, mas de um tecido patologicamente alterado.
Isso explica por que tantas mulheres passam anos fazendo dieta, exercitando-se e, ainda assim, observam pouca ou nenhuma mudança no corpo. O resultado psicológico pode ser: frustração, sensação de fracasso, tendência a desenvolvimento de transtornos alimentares, ansiedade e depressão. O lipedema não impacta apenas o corpo. Ele pode comprometer a autoestima e a qualidade de vida.
Além disso, a dor crônica é um dos sintomas mais fortes. Com a progressão da doença, surgem limitações funcionais reais: alterações na marcha, sobrecarga articular, dificuldade para subir escadas e manter atividades simples do dia a dia. A dor gera inatividade e a inatividade piora a dor. Isso afasta a mulher do movimento, o que justamente mais poderia ajudá-la.
Em 2024, o primeiro consenso científico de sociedades médicas e esportivas reconheceu formalmente o exercício físico como ferramenta central no tratamento do lipedema. Não como solução para “queimar a gordura”, mas como estratégia para reduzir dor, melhorar função, modular inflamação, estimular drenagem linfática e recuperar qualidade de vida.
O músculo desempenha um papel fundamental nesse processo. Diferente do sistema cardiovascular, o sistema linfático não possui uma bomba própria. Ele depende do movimento corporal para funcionar. Cada contração muscular age como uma espécie de ordenha mecânica que comprime vasos, empurrando o fluido em direção ao coração e, no relaxamento, cria uma pressão negativa que puxa mais líquido para dentro do sistema linfático, melhorando assim a drenagem linfática.
A panturrilha, em especial, é considerada uma bomba linfática. Fortalecer essa musculatura significa melhorar a drenagem dos membros inferiores, o que é essencial em uma condição caracterizada por edema e inflamação tecidual.
Além do efeito mecânico, o exercício atua em nível molecular. O músculo é um órgão endócrino ativo, que libera miocinas anti-inflamatórias durante a contração. Em um tecido inflamado, esse efeito é extremamente relevante.
Um dado importante, é que mulheres com lipedema apresentam, em média, até 30% menos força muscular. Parte disso pode ser consequência da própria doença e do afastamento das atividades físicas devido à dor. Independentemente da origem, a perda de força gera mais sobrecarga articular, mais dor e, consequentemente, menos atividade.
Nesse contexto, o exercício passa a ser terapêutico. As diretrizes internacionais são claras ao recomendar atividades aquáticas como primeira linha de intervenção. A água oferece pressão hidrostática natural, funcionando como uma compressão contínua durante toda a sessão, além de reduzir impacto articular.
O treino de força também é importante nesse quadro. Movimentos controlados, progressão gradual e ênfase em membros inferiores e core. O objetivo é aumentar a funcionalidade, melhorar o retorno venoso, proteger articulações e a reduzir dor.
Os exercícios de respiração diafragmática também fazem parte do tratamento. O músculo diafragma influencia diretamente o maior vaso linfático do corpo, o ducto torácico. Respirar profundamente, de forma consciente, cria diferenças de pressão que favorecem a drenagem linfática central, além de reduzir o estresse.
O lipedema não é uma condição sem perspectiva. Hoje, sabe-se que, embora não tenha cura no sentido clássico, é absolutamente manejável. O exercício não muda a genética, mas melhora o ambiente fisiológico no qual essa genética se expressa.
O exercício físico é uma das poucas ferramentas capazes de devolver a qualidade de vida para mulheres com lipedema, pois atua exatamente nos sistemas que essa condição mais compromete: o sistema linfático, o tecido adiposo e o eixo inflamatório.
O movimento sistematizado gera adaptações fisiológicas reais e mensuráveis, que reduzem a dor, melhoram a funcionalidade muscular e restauram a relação da mulher com o próprio corpo. Exercitar-se, nesse contexto, não é sobre “queimar gordura”, mas sobre recuperar a capacidade de se mover sem sofrimento, de confiar no próprio corpo e de construir saúde a partir de dentro, com base em estímulos biológicos consistentes ao longo do tempo.
Referências bibliográficas:
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* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista






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