Publicado em: 11 de janeiro de 2026
Acordei completamente atordoada, com o coração num palpitar de quem sai de um pesadelo. Pego o telefone e confirmo que é real. Irmã Henriqueta partiu num grande puff. Do nada. Volto no tempo. Li e reli a mensagem da minha mãe. Não acreditei na hora. Continuo sem acreditar. Não entendo, não aceito. Não posso, não quero. Não tenho mais lágrimas para chorar, apesar do grande nó na garganta. Quero gritar, mas não adianta. A vida é um sopro que não sai da minha boca.
Lembro como se fosse ontem o dia de uma vida passada. Estava eu e o Antonio Alberto, meu padrasto, à espera da minha mãe para almoçar. Como sempre, ela não chegava nunca. Sei lá que horas da tarde já eram. Eu, brocada como sou, já havia almoçado umas duas vezes antes. Mas sempre almoçava de novo quando ela chegava. Enfim, ela chegou e finalmente nos sentamos para o sagrado almoço em família. E, do nada, ela começou a chorar. A soluçar. Não podia aceitar que tantas mães não conseguissem proteger suas filhas como ela tinha conseguido me proteger. Eu fiquei muito assustada. E nunca mais fui a mesma pessoa.
Era a altura da CPI da pedofilia na Assembléia Legislativa do Estado do Pará. Tudo começou quando ela, Franssinete Florenzano, denunciou em seu blog o até hoje impune caso de um ser monstruoso, então deputado, que por anos estuprou uma garotinha que ele supostamente “criava” em sua casa. Este ser foi condenado e até hoje, mais de vinte anos depois, não foi preso. O filho que tinha participação no crime escapou porque era menor de idade e hoje em dia é político profissional naquela casa. Este ser teve a audácia de processar todo mundo que o denunciou, incluindo minha mãe e a irmã Henriqueta, a delegada, a juíza.
Mas foi por causa deste crime horrendo (que trouxe à tona tantos outros durante a CPI) que o Dom Azcona e a irmã Henriqueta entraram na vida da minha mãe e, consequentemente, na minha. O Marajó, sinônimo das alegrias de férias da minha infância na casa da minha tia Gisa, virou um palco de lutas, com um vínculo ainda mais profundo através, infelizmente, das dores da nossa gente. Mas no meio de tanta violência, ganhamos amor. Minha mãe ganhou uma figura de pai e de irmã e eu, um avô e uma tia.
O trabalho da irmã Henriqueta e das irmãs Raimunda e Josefa, da fraternidade Ágape da Cruz, me inspiraram a filmar um documentário, que por n motivos ainda não lancei e que, agora, uma das suas personagens jamais vai ver. Irmã Henriqueta vivia numa constante pressão. Ataques por todos os lados. Tinha que andar com segurança e tudo mais, mas, ainda assim, era cabôca forte e enfrentava os piores monstros não só num âmbito político e institucional, mas cara a cara, participando de resgates, tirando com suas próprias mãos meninas e mulheres de situações horrorosas. Não à toa, inspirou filmes e livros.
Tivemos muitas e muitas conversas durante todos esses anos de convivência. Compartilhou comigo suas histórias, suas opiniões e suas escolhas mais profundas. Ela me viu crescer e me fez crescer. E está errado quem pensa que a postura aguerrida dela a impedia de ser delicada como as flores que tanto amava. Irmã Henriqueta era uma pessoa alegre. Ela ria, contava piada, falava besteira, gostava de passear, de viver a vida. E, principalmente, demonstrava seus afetos. Não lembro de uma vez que tenhamos nos encontrado que ela não tenha me dado muito, muito carinho. Ela sempre me dizia “eu te amo” e eu aprendi a sempre dizer de volta porque era a pura verdade.
Irmã Henriqueta partiu deste mundo no mesmo dia que David Bowie. Da sua maneira, também ela uma rockstar. Todo mundo sabe que era discípula do Dom Azcona, mas deixo aqui uma “curiosidade” que ela me contou durante a gravação de “3 Marias”: em sua juventude, quando foi estudar em São Paulo, trabalhou com outro ícone da defesa dos direitos humanos da igreja católica, o padre Julio Lancellotti. Diz-me com quem andas que te direi quem és.
Da última vez que fui a Belém, ela foi uma das pouquíssimas pessoas que consegui encontrar, no meio do turbilhão que foi a COP30. Gravei com ela uma última vez. Ela me perguntou “Gabi, tu te casaste?” e eu respondi “casei, em pecado”, arrancando dela uma gargalhada gostosa e um olhar sincero de “estou muito feliz de te ver feliz”. Me pediu para representar o Instituto Dom Azcona em eventos deste lado do oceano, quando ela não pudesse vir, e eu, como é óbvio, disse que sim. E nos despedimos com pressa, eu, minha mãe e ela, cheias de outros compromissos, combinando que tínhamos que almoçar juntas, que tínhamos que confraternizar, que celebrar a vida.
Estar longe é nunca ver com os próprios olhos os corpos que não pulsam mais daqueles que amamos. Já são tantos que nem sei mais. Irmã Henriqueta era freira católica, muito bem resolvida com a sua fé e respeitadora de todas as outras, e por isto mesmo sinto-me à vontade em dizer que ela encantou. Vejo sua imagem à beira do rio lá em Eirunepé, no Amazonas, fronteira com o Peru, onde ela nasceu. Me recuso a dizer adeus. Mas continuarei a dizer “eu te amo” sempre que a encontrar.









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