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A passagem de Marina Silva pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, encerrada nesta quarta-feira (1º), registra uma das mais expressivas reduções de desmatamento já observadas no país. Após três anos à frente da pasta no atual governo, a ministra deixa o cargo. Quem assume é o secretário-executivo da pasta, João Paulo Capobianco, que tem um perfil técnico e trajetória vinculada à formulação de políticas ambientais, sendo um dos principais nomes por trás do PPCDAm. 

A saída de Marina reposiciona a ministra no cenário político. Ela afirmou que poderá disputar uma vaga no Senado por São Paulo em 2026, embora ainda não tenha tomado decisão definitiva. “Eu vou para uma outra missão. Talvez eu seja uma das poucas que tá saindo que ainda não tá batido o martelo 100%”, disse. Ao comentar as articulações, acrescentou: “Graças à Deus temos a Simone Tebet, graças à Deus temos Fernando Haddad, mas a segunda vaga (ao Senado) ainda está sendo discutida”.

Marina também descartou, por ora, a mudança de partido e reafirmou vínculo com a Rede Sustentabilidade. Segundo ela, alterações recentes no estatuto da legenda foram feitas “de uma forma que não foi democrática” e devem ser questionadas judicialmente. “Hoje eu tô filiada na federação na Rede-Psol (…) Eu fundei a Rede, sou filiada a Rede e na federação Rede-Psol”, afirmou, ao indicar que pretende permanecer e contribuir para o fortalecimento do campo político ao qual está vinculada.

Durante a despedida, a ministra se emocionou ao agradecer à equipe e relembrou sua trajetória anterior no ministério, entre 2003 e 2008. Como gesto simbólico, retomou a tradição de entregar ao sucessor um broche confeccionado em jarina.

Depois do período crítico entre 2019 e 2022, Marina chefiou a recomposição institucional do ministério com a retomada de políticas ambientais interrompidas na gestão anterior. Ao apresentar o balanço da gestão, ela destacou a centralidade do combate ao desmatamento, associado a ações de fiscalização, ordenamento territorial e enfrentamento de ilícitos ambientais.

Os números da pasta atestam uma redução de 50% no desmatamento da Amazônia em 2025, na comparação com 2022, além de uma queda adicional próxima de 30% em 2024, representando uma trajetória contínua de recuo. No Cerrado, a redução acumulada foi de 32% no mesmo período. Dados mais recentes apontam nova diminuição de 33% na Amazônia entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, acompanhada de retração de 7% no Cerrado.

O impacto dessas medidas também aparece na redução de emissões: cerca de 733 milhões de toneladas de CO₂ deixaram de ser lançadas na atmosfera. Paralelamente, a área de mineração ilegal na Amazônia foi reduzida à metade, e a atuação dos órgãos ambientais foi ampliada, com crescimento de 80% nas operações do Ibama e de 24% nas ações do ICMBio em relação a 2022.

Outro indicador relevante foi a queda de 39% na área queimada no Brasil em 2025, frente à média dos últimos oito anos. No Pantanal, a redução chegou a 91%, enquanto na Amazônia alcançou 75%.

A gestão também se caracterizou pela ampliação do financiamento climático. Desde 2023, foram mobilizados R$ 179 bilhões para ações ambientais, com destaque para a reativação do Fundo Amazônia e o fortalecimento do Fundo Clima. Segundo Marina, houve uma mudança de escala na política ambiental, com maior integração entre desenvolvimento econômico e preservação.

A reestruturação interna do ministério foi outro eixo que deve ser destacado. O número de servidores cresceu com a incorporação de 1.557 profissionais, enquanto o orçamento quase dobrou (de R$ 865 milhões em 2022 para R$ 1,9 bilhão). A ministra afirmou que esse processo envolveu a recuperação da capacidade técnica, política e operacional da pasta, além da retomada de espaços de participação social.

Apesar dos resultados, a gestão foi marcada por disputas internas no governo, especialmente em torno da exploração de petróleo na Margem Equatorial e de mudanças no licenciamento ambiental. Marina, a amazônida (entre mulheres e homens) de maior relevância na política nacional e internacional, sempre manteve a coerência de seus posicionamentos e nunca se rendeu nos cabos de guerra dos interesses econômicos.

A COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, foi, segundo Marina, um dos principais desafios enfrentados pela equipe, ao destacar o esforço de articulação internacional e logística necessário para a realização da conferência.

Também fez questão de salientar a seriedade da gestão ambiental que conduziu nos últimos anos: “Dizem que nosso ministério é ideológico. Não é. Tem muita ciência por trás das decisões”.

Foto: Redes Sociais Marina Silva / Reprodução

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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