Publicado em: 3 de março de 2026
A guerra no Oriente Médio, que provocou o fechamento de rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, já está alarmando o setor produtivo no Pará, especialmente a exportação de commodities minerais e agropecuárias. Em um cenário de encarecimento logístico global e aumento da incerteza, indústrias locais podem enfrentar um ambiente mais desafiador para manter competitividade e previsibilidade operacional, avalia o economista e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará, Clóvis Carneiro.
Levantamento do Centro Internacional de Negócios da Fiepa mostra que o Oriente Médio mantém relevância como destino de produtos paraenses, ainda que com oscilações recentes. Em 2025, as exportações de minério de ferro para a região somaram US$ 277,7 milhões, tendo Omã como principal comprador.
Já no segmento de carne bovina, o volume exportado alcançou US$ 389,1 milhões, com destaque para mercados como Iraque, Líbano, Israel e Arábia Saudita. Os dados revelam que, embora não seja o principal parceiro comercial do Pará, o Oriente Médio compõe uma frente relevante de diversificação das exportações do estado.
Clóvis Carneiro avalia que “a grande preocupação é com o preço do petróleo, que poderá criar instabilidades nos mercados financeiros e na logística mundial, afetando diretamente os custos de fretes, seguros e encargos financeiros das exportações”. Para setores como mineração e pecuária, que são altamente dependentes de transporte marítimo de longa distância, esse encarecimento pode pressionar significativamente os resultados das empresas.
O presidente da Fiepa, Alex Carvalho, considera que a atual escalada geopolítica expõe fragilidades estruturais do Brasil no campo energético. E o país ainda opera com um horizonte limitado de reservas e elevada dependência de importação de derivados, o que amplia a vulnerabilidade da economia a choques externos.
“Enquanto grandes potências ampliam suas reservas e buscam segurança energética, o Brasil ainda trata como tabu novas fronteiras exploratórias. Abrir mão desse potencial, em um cenário global instável, é transformar cautela em fragilidade econômica”, afirma Alex Carvalho, em contraponto à postergação da exploração da Margem Equatorial.
O fator tempo surge como variável crítica. Clóvis Carneiro alerta que a duração do conflito será determinante para a magnitude dos impactos. Quanto mais prolongada a instabilidade, maiores tendem a ser os efeitos adversos sobre a economia global e, por consequência, sobre o Pará. Um cenário de guerra prolongada pode inclusive desencadear recessão internacional, reduzindo a demanda por commodities e afetando diretamente o desempenho das exportações industriais paraenses.
Outro ponto de atenção está na dependência indireta do estado em relação à economia chinesa. Principal destino das exportações do Pará, a China pode ser significativamente impactada pela crise, especialmente devido à sua forte dependência do petróleo do Oriente Médio, já que cerca de metade das importações chinesas passa pelo Estreito de Ormuz. Uma desaceleração da economia chinesa teria efeito imediato sobre a demanda por minério de ferro e outros produtos paraenses, ampliando os riscos para o setor industrial.
“Diante desse cenário, dois fatores se colocam como centrais para o monitoramento econômico: a duração do conflito e seus desdobramentos sobre as principais economias globais, como Estados Unidos, China e União Europeia. Para o Pará, na qual a inserção internacional é fortemente baseada em commodities, o momento exige cautela, planejamento e capacidade de adaptação a um ambiente externo mais volátil”, sintetiza Clóvis Carneiro.









Comentários