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Mais de dois milênios após ser escrita, a tragédia de Sófocles ganha nova forma e território através de releitura do Grupo Experiência, coletivo teatral com mais de meio século de atuação contínua, que estreia no dia 10 de abril no Teatro Waldemar Henrique o espetáculo “Antônia e a encomendação das almas”, propondo uma transposição da clássica“Antígone” para o contexto amazônico contemporâneo.

A montagem desloca o conflito central da obra original, marcado pelo embate entre leis humanas e princípios éticos, para o Baixo Amazonas. A narrativa acompanha uma mulher que enfrenta estruturas de poder autoritário enquanto busca preservar sua dignidade. A encenação aposta em elementos culturais locais, incorporando cantos e expressões simbólicas para construir uma atmosfera em que justiça, resistência e memória se entrelaçam.

A direção é assinada por Geraldo Salles, fundador do grupo, que conduz o projeto como uma realização de longa data. Segundo ele, a adaptação de um texto clássico para a realidade amazônica representa um desafio que envolve tanto a complexidade dramatúrgica quanto as diferenças entre universos culturais. “sim, é uma audácia fazer a adaptação desse clássico e contextualizá-la na região, mas a dramaturgia de Adriano Barroso, e o elenco que hoje se constitui no Grupo Experiência, me dão a segurança de que este trabalho será uma surpresa muito boa para todos”, afirma.

A dramaturgia e adaptação são de Adriano Barroso, que destaca o contraste entre matrizes culturais distintas como eixo da proposta. “Adaptar uma tragédia grega para o universo amazônico é uma das tarefas mais árduas, não só pela qualidade do texto (no caso de Sófocles) ou pela estrutura do drama, mas pela própria mitologia que difere muito entre os gregos e os ameríndios”, explica. Ele aprofunda a reflexão ao comparar cosmovisões: “na visão cosmológica indígena o que prevalece é a vida, e os povos entendem a necessidade da autorrealização da natureza. O que interessa é justamente o equilíbrio. Isso se choca com a visão materialista da cultura ocidental”.

O espetáculo reúne um elenco formado por Yeyé Porto (que também assina a produção), Paulo Fonseca, Natal Silva, Luciana Porto, Nilton Cezar, Dário Jaime, Klaus Costa, Bruno Sousa, André Reis, Gisele Gorayeb e Kátia Menezes. A concepção visual, com cenários e figurinos, é de Nando Lima.

O Grupo Experiência foi criado em 1969 e, ao longo de décadas, desenvolveu uma pesquisa voltada à construção de uma linguagem cênica ancorada em temas regionais, com o objetivo de fortalecer a cena amazônica e formar público. Nos anos 1980, o grupo percorreu o país com o projeto Mambembão, da então Fundação Nacional do Teatro (Fundacen), além de montar obras como “Foi Boto, Sinhá!”, de Edyr Augusto. A continuidade desse trabalho resultou em um repertório extenso e reconhecimento dentro e fora do estado.

Geraldo Salles, formado pela Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará (UFPA), mantém atuação múltipla como ator, diretor, roteirista e professor. Com mais de 50 anos dedicados à cena, dirigiu dezenas de montagens e acumulou premiações em eventos locais e nacionais, permanecendo ativo na produção teatral em Belém e em outras cidades.

A montagem conta com recursos do Plano Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Fundação Cultural do Pará, da Secretaria de Estado de Cultura e do Ministério da Cultura. Após a estreia, a temporada segue nos dias 11 e 12 de abril, sempre às 20h, no Teatro Waldemar Henrique, localizado na Praça da República. Os ingressos estão disponíveis pela plataforma Sympla e na bilheteria do teatro. A classificação indicativa é de 14 anos.

Fotos: Maria Christina / Grupo Experiência

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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