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Publicado: 4 de abril de 2025  

Escrevo hoje uma ficção filosófica sobre Deus e o diabo para provocar uma reflexão sobre o relacionamento humano, envolto em unidade, responsabilidade e solidariedade.

Dois mil anos se passaram naquela divina espera, não porque a figura de quem era esperado fosse divina, mas quem esperava era a própria Figura Divina e a paciência do esperado esgotara-se, após dois milênios de pedidos de agendamento, mas para quem esperou tanto, mesmo sendo autoridade do mal, nada podia fazer a não ser esperar, dada a autoridade de quem o fazia esperar.

Essa espera acontecia na ante sala do gabinete mais importante de todas as galáxias, de todos os sistemas planetários e, com certeza, de todos os tempos. Ocorria na entrada do gabinete onde Deus despachava diariamente e quem esperava por toda essa infinidade temporal, era simplesmente – nada mais, nada menos – do que aquele que Deus um dia botou para correr do paraíso, a ferro e fogo, o próprio Lúcifer, assim entendido no latim, no grego e no hebraico, paradoxalmente como aquele que brilha ou transporta luz, esse mesmo, o Diabo dos dias atuais, Belzebu para os mais íntimos, Mefistófeles na literatura, Belial entre os cananeus, Arimã para os Zoroastrianos e outras denominações, verdadeiramente decidido a ter uma conversa franca, profunda e absoluta com o Criador de todas as coisas, supostamente do próprio impaciente.

Deus perguntava incrédulo, pela terceira vez, a São Pedro se realmente era o próprio Satanás quem havia entrado e agora esperava no salão pelo qual passaram grandes personalidades do bem e, diante da resposta, repetida, de que era o próprio, mesmo, quem ousara chegar e pacientemente esperar por tanto tempo, resolveu convocar a Santíssima Trindade com seus mistérios, para ouvir uma opinião, por sinal unânime em termos de indignação, sobre a ousadia do ex-egresso do céu, tamanha a sua impertinência e atrevimento em acreditar que poderia ser atendido pelo Divino.

Preocupado pela responsabilidade do ofício – o de guardar uma das entradas do céu, justo a que o indesejado penetrou (todos os anos o guardião das chaves detecta personagens disfarçadas buscando os reinos dos céus), São Pedro teve que explicar-se, ainda, por não ter reconhecido as características físicas do Demônio alteradas pela tecnologia atual. Um dos apóstolos santo, João, que sempre defendia Jesus, ajudou, justificando que Satanás não envelhece, daí a tranquilidade com que passou pela reforçada segurança do céu, dotada, inclusive, de câmeras filmadoras com imagens em modernas dimensões que a Nasa ainda nem fabricou, com inteligência tangível e avançadas resoluções do sistema planetário.

O fato é que aquela figura, inesperada, bolorenta e repudiada, estava lá fora, aparentando impaciência, bufando, exalando enxofre pelos poros e fogo pelas narinas, altivo, abrasador, desejando falar diretamente com o Grande Arquiteto do Universo.

São Jorge chegou a oferecer-se para resolver aquela situação com a mesma espada e lança que um dia matou o dragão que todos pensavam ser Belzebu, mas foi contido na alegação da Virgem Maria de que há milênios no céu não se derrama sangue. Se assim fosse, a humanidade acreditaria que o Sogro preferiu a violência, ao invés do diálogo, como a que utilizou na expulsão de Adão e Eva do Paraíso e depois se arrependeu por ter julgado daquela maneira o casal.

Jesus escutara atento a tudo o que se passara e por ter sabido vencer as tentações do insistente paciente na época em que estava na Terra, foi aquele quem aconselhou o Pai a atender, de uma vez por todas, ao impaciente incorrigível, em sua ousada decisão de procurar por Deus no próprio céu.

Explicou ao Divino que a Terra experimentava uma série de transformações marcantes, desde a sua ressurreição, recentemente uma subestimada pandemia abarrotando o céu, e que, apesar de ter criado criado a filosofia do amor, oferecendo sua vida para a salvação dos homens, a paz ainda não reinava, os seres humanos ainda não conviviam em irmandade.

O restante deste provocativo conto continuará em nossas reflexões (quiçá em continuidade por aqui se não for considerado sacrilégio), sobre a natureza humana. Adianto que o milenar paciente (ou impaciente) haveria de questionar sua própria criação e vinculação ao mal por parte de quem criou todas as coisas da Terra.

Ernane Malato
Ernane Malato é escritor, jurista, humanista, mestre e doutorando em Direitos Humanos pela PUC/SP e FADISP/SP, professor e pesquisador da Amazônia em diversas áreas sociais e científicas no Brasil e no exterior, membro das Academias Paraenses de Letras, Letras Jurídicas, Jornalismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Pará, atualmente exercendo as funções de Cônsul Honorário da República Tcheca na Amazônia.

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