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Feudos partidários

O governo brasileiro insiste em seu Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), tentando vencer a inércia, a má vontade e a incompetência que costumam atrapalhar quaisquer planos que exijam atividades aceleradas.

Tentou direcioná-lo para atividades logísticas, como a melhoria nos portos, dragagem, melhorias nas estradas, mas chega a ser engraçado: existe um Ministério dos Transportes, mas é como se não existisse esse ministério, nem os transportes. Afinal, falando sério: quais seriam as estradas brasileiras dignas desse nome em qualquer país sério?

Em tempos de trens com levitação magnética, correndo a centenas de quilômetros por hora nas principais ferrovias do mundo, o Brasil ainda sonha com a conclusão de algumas ferrovias básicas – as mesmas sonhadas no século XIX pelos pioneiros do setor. Nas existentes, a modernização consegue se chocar com as necessidades urbanas das cidades atravessadas pelos trilhos: dobra-se ou triplica-se o tamanho dos trens, mas a velocidade é quase a mesma, então formam-se paredões de vagões que impedem os cidadãos de passar de um lado para o outro de sua própria cidade, durante horas intermináveis.

No quesito rodovias, até existem algumas que poderiam se classificar entre as mais modernas do mundo, mesmo já praticamente saturadas e precisando de ampliações difíceis de fazer sem agressões ambientais significativas. As demais – quase a totalidade, ousamos dizer – talvez nem merecessem o nome pomposo de rodovias: são apenas aglomerados de buracos que, de tanto crescerem, acabam se juntando para formar uma superfície mais ou menos plana bem abaixo do revestimento asfáltico já desaparecido – se é que algum dia existiu de fato.

Em dia de sol, nada se vê, pela nuvem de pó. Em dia de chuva, nada anda, com os atoleiros que se formam. Nos demais dias, registra-se enorme quantidade de acidentes, com mais mortes que as causadas em todo o mundo pela tal gripe suína/A/H1N1/influenza ou que nome queiram dar. Cargas perdidas em decorrência dos acidentes e dos atoleiros, são uma enormidade, fariam a felicidade para a economia de muitos países. As que não são perdidas sofrem majoração nos custos de transporte.

Não bastassem tantos problemas infra-estruturais, o Brasil está há quase duas décadas enfrentando a falta de comando no sistema portuário, motivada pelo absurdo predomínio das escolhas políticas dos administradores, privilegiando apaniguados do partido político que estiver “de posse desse feudo”, independentemente de terem ou não um mínimo de capacidade para tão importantes funções.

Não é novidade para os leitores nacionais, embora decerto cause enorme espanto aos estrangeiros que leiam estas linhas. O fato é que, no Brasil, as administrações portuárias mudam a cada brisa que sopre no panorama político. Sabendo que já chegam ao cargo com “data de validade vencida”, prestes a serem descartados, muitos desses assim escolhidos optam por nada fazer, nada deixar fazer, ou por fazer qualquer coisa que beneficie financeiramente seus partidos políticos (pois assumir o controle de um porto é apenas um breve estágio em sua carreira política), independentemente de prejudicar enormemente o país. Sabem que não terão mesmo tempo para serem recompensados por ações meritórias, pois serão substituídos antes mesmo que elas possam ser concluídas e apresentar resultados. Sabem também que jamais serão punidos por maiores descalabros que pratiquem, pois mesmo que a lenta administração da Justiça chegue a um veredicto 15 anos depois, é bem possível que este seja inócuo.

É por isso que o presidente Lula, tão interessado no sucesso de seus PACs, precisa ser desafiado pelo seu eleitorado a fazer um novo PAC. Dando novo significado para a sigla: Procura-se Administradores Competentes…”

(Editorial do Porto Gente, intitulado Novo PAC é Preciso.)

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