Publicado em: 9 de janeiro de 2026
Há experiências que se acumulam como sedimentos no tempo histórico, comprimidas no cotidiano, aguardando um intervalo de linguagem. A violência infiltra-se nos gestos mínimos, na repetição das palavras, na organização silenciosa do espaço. O medo instala-se como princípio regulador da vida diária. Walter Benjamin observou que a modernidade fragmentou a transmissibilidade da experiência, produzindo um hiato entre o vivido e sua narração. Nesse intervalo, a violência de gênero encontra sua duração mais eficaz, sustentada pela continuidade e pela repetição (BENJAMIN, 1994).
Antes de converter-se em dado, a violência constitui uma atmosfera social. Antes de ingressar nas estatísticas, ela já reorganizou o tempo, os afetos e o corpo. A mulher que hesita diante da delegacia carrega um saber tácito sobre os limites da linguagem institucional. A denúncia exige tradução, e toda tradução implica deslocamento. Quando registrada, a violência apresenta-se como vestígio: fragmentada, protocolar, despojada da densidade da experiência. O número que emerge nos relatórios funciona como ruína histórica, na acepção benjaminiana, um fragmento que remete a uma totalidade irrecuperável.
Os dados recentes sobre violência de gênero no Brasil formam um acúmulo de cifras em expansão contínua. Esses números exigem leitura crítica. O crescimento expressivo dos registros a partir de 2020 articula-se a um tempo marcado por crises simultâneas de ordem sanitária, econômica e institucional. Em contextos de instabilidade, estruturas de longa duração revelam sua persistência. O patriarcado manifesta sua capacidade de reorganização histórica, atravessando a modernidade como princípio ativo de ordenação social (SAFFIOTI, 2015; SEGATO, 2016). Relatórios internacionais indicam que a retração das políticas de proteção intensifica a vulnerabilidade feminina, sobretudo em cenários de crise sistêmica (UN WOMEN, 2024).
A casa emerge, nesse contexto, como dispositivo central. Idealizada como espaço de proteção, ela opera como tecnologia de controle. Heleieth Saffioti demonstrou que a domesticidade estrutura a hierarquia patriarcal, organizando relações de poder que naturalizam a violência como mecanismo disciplinador (SAFFIOTI, 2015). Estudos antropológicos contemporâneos confirmam que o enfraquecimento das políticas públicas desloca a violência para o espaço privado, onde a intervenção estatal encontra maiores limites operacionais (DEBERT; GREGORI, 2022). O confinamento pandêmico intensificou processos já em curso, condensando desigualdades históricas.
As estatísticas configuram-se, assim, como documentos ambíguos. Elas registram e, simultaneamente, ocultam. Cada número corresponde a uma história que encontrou forma institucional apenas de maneira parcial. Pesquisas do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública demonstram que os registros oficiais capturam uma fração do fenômeno, deixando extensas zonas de silêncio, sobretudo entre mulheres pobres e racializadas (CERQUEIRA et al., 2023). A leitura interseccional proposta por Kimberlé Crenshaw ilumina a produção específica dessas vulnerabilidades, ao evidenciar a articulação entre gênero, raça e classe na organização da violência (CRENSHAW, 2002). Silvio Almeida aprofunda essa análise ao demonstrar que o racismo estrutura o funcionamento do Estado, produzindo hierarquias implícitas de proteção e abandono (ALMEIDA, 2019).
No caso dos feminicídios, a violência atinge sua forma mais explícita. Mesmo após a tipificação legal, os assassinatos de mulheres permanecem majoritariamente vinculados às relações íntimas. Rita Laura Segato interpreta o feminicídio como ato comunicativo, uma pedagogia da crueldade que reafirma soberanias e delimita fronteiras simbólicas (SEGATO, 2016). Cada morte funciona como mensagem social, dirigida a todas as mulheres, reforçando limites normativos. A literatura antropológica internacional reconhece esse caráter comunicativo da violência letal como elemento central na reprodução das hierarquias de gênero (DEBERT; GREGORI, 2022).
A sobrerrepresentação de mulheres negras entre as vítimas evidencia a articulação entre violência de gênero e heranças coloniais. O corpo feminino negro permanece como espaço privilegiado de controle e expropriação. As estatísticas revelam essa assimetria, enquanto a teoria social permite compreendê-la como continuidade histórica. Passado e presente formam constelações, nas quais a violência atual se ilumina à luz de estruturas de longa duração.
O cenário político recente acentua esse quadro. O desfinanciamento das políticas públicas voltadas às mulheres e a deslegitimação discursiva da agenda de igualdade de gênero ampliam a vulnerabilidade social. Silvia Federici analisa esse processo como efeito da racionalidade neoliberal, que privatiza o cuidado e transfere para o âmbito doméstico a reprodução da vida (FEDERICI, 2017). Nesse arranjo, a violência tende a ser tratada como questão individual, reforçando sua recorrência estrutural.
Os dados sobre violência sexual contra meninas e adolescentes aprofundam essa leitura. A incidência desses crimes no interior das relações familiares revela normas culturais que naturalizam o controle dos corpos femininos desde a infância. O silenciamento das vítimas, a culpabilização social e a sexualização precoce operam como engrenagens de reprodução da violência. Diagnósticos globais apontam que a violência sexual infantil constitui um dos núcleos mais persistentes da desigualdade de gênero (UN WOMEN, 2024).
O aumento da violência de gênero no Brasil expressa, portanto, um processo estrutural. Patriarcado, racismo e desigualdade econômica articulam-se em uma ordem social que se reproduz por meio da violência. A teoria crítica demonstra que a violência sustenta a ordem, ao invés de rompê-la. Enfrentar esse cenário exige investimento institucional contínuo e transformação das normas culturais que ainda autorizam, de forma explícita ou implícita, a violência contra as mulheres. Enquanto essas estruturas persistirem, os relatos individuais continuarão a se repetir no anonimato, e as estatísticas seguirão acumulando fragmentos de uma perda social que excede qualquer quantificação.
Para ler também:
ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Obras escolhidas, v. 1).
CERQUEIRA, Daniel et al. Atlas da violência 2023. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023.
CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 171–188, 2002.
DEBERT, Guita Grin; GREGORI, Maria Filomena. Violence and gender in Brazil: discourses, practices, and policies. Annual Review of Anthropology, Palo Alto, v. 51, p. 345–361, 2022.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2017.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário brasileiro de segurança pública 2023. São Paulo: FBSP, 2023.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Violência contra as mulheres no Brasil: análise dos dados. Brasília: IPEA, 2023.
SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.
UNITED NATIONS WOMEN. Progress of the world’s women 2023–2024: gender equality in times of crisis. New York: UN Women, 2024.



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