Publicado em: 31 de janeiro de 2026
Recebi na noite desta última sexta-feira, 30 de janeiro, enviado pelo autor e logo publicado no Portal Uruatapera, mais um belo artigo literário do Professor Doutor Marcos Valério Reis. Sob o título O chão, o silêncio e a condenação da existência em Vidas Secas, o texto faz uma acutilante análise da obra magna do alagoano Graciliano Ramos (1892-1953) – Mestre Graça, como o chamava a escritora Rachel de Queiroz.
Dissecando sociologicamente o livro e seus protagonistas, o articulista desnuda os dramas vividos por Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos, para então ensinar que “A seca é menos fenômeno natural e mais expressão concreta de uma estrutura social excludente. Em Graciliano, o sertão não é somente uma paisagem exótica, é um espaço de desumanização, onde a miséria corrói a linguagem, os afetos e a própria consciência.”
Quando se refere à cadela Baleia, Marcos Valério nos recorda que “paradoxalmente, é a personagem mais humanizada do romance. Seus pensamentos, afetos e medos são narrados com delicadeza (…). Sua morte constitui um dos momentos mais comoventes da literatura brasileira. Existencialmente, Baleia sonha, e sonhar é um gesto profundamente humano. Graciliano inverte a lógica social: o animal é capaz de imaginar um mundo melhor; os serem humanos, não.”
Por fim, fica-nos a conclusão de que “Vidas Secas permanece atual porque o Brasil que ele denuncia ainda insiste em existir. A obra nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas vidas continuam secas, não pela ausência de chuva, mas pela ausência de justiça? Graciliano Ramos escreve com dureza porque fala de um mundo duro. Seu romance não pede piedade. Exige responsabilidade social.”
A leitura fez eco em mim. O sertão como espaço de desumanização, a miséria como ferrugem voraz a consumir as consciências, a cadela capaz de esperanças em meio a homens desesperançosos e brutalizados, a aridez da vida ante tanta injustiça… tudo isso me levou a uma melancólica epifania: tanto pode a indigência levar ao caos quanto pode a opulência levar à barbárie, tanto pode a pobreza extrema induzir a piedade quanto a riqueza míope conduzir à selvageria.
Mesmo submerso em sofrimento, atravessando um deserto de oportunidades, farto de fome e abandono, Fabiano foi capaz de sentir piedade ao ver Baleia definhar magra e sem pelo, tomada de feridas purulentas escurecidas não por sangue coagulado, mas pelas moscas que lhe pousavam sobre costelas cada vez mais evidentes, com lacerações na boca que a impediam de ingerir escassa comida e raríssima água. Consternado, o sertanejo decidiu matá-la para aliviar seu calvário, permitindo que ao menos enquanto agonizava, no delírio que antecede a morte, o animal pudesse sonhar com preás gordos e crianças felizes brincando ao seu redor.
Em contraponto, num cenário diametralmente oposto, cercados de fausto e conforto, pretensamente bem educados, estômagos cheios e mentes vazias, camas quentes e corações gélidos, egos inflados pela superexposição das redes sociais, quatro adolescentes de Santa Catarina, ocupantes do topo da pirâmide social, foram capazes de sentir ódio e desprezo pelo cão Orelha, um dócil e simpático vira-lata, praticamente um habitante hippie da Praia Brava, torturando-o com requintes inacreditáveis de perversidade e selvageria, deixando-o ao relento, seviciado e machucado, tão barbarizado que só lhe restou a benevolência da eutanásia.
Não havia sertão, não havia miséria e não havia fome. Curiosamente, contudo, tal como percebido pelo Professor Reis, havia incompreensível desumanização, penúria moral a corroer afetos e consciências. Havia também vidas desidratadas pela ausência de justiça, e havia, infelizmente, um animal inocente a acreditar num mundo melhor, cuja má sorte o levou ao encontro de seres humanos que sequer desconfiam da existência de um mundo que não gire ao redor de seus umbigos.
Tal como ocorre num déjà vu, é como se a obra prima de Graciliano Ramos não tivesse fim; é como se, gerações depois de Fabiano, Sinhá Vitória e dos meninos, quatro novos e indigestos personagens insistissem na existência de um Brasil em que já não deveríamos habitar, dilacerado por eterna e aviltante irresponsabilidade social.
Não parece real, de tão insidioso, de tão pérfido. Parece mais, isto sim, um insondável enigma do Livro do Apocalipse (6, 1-8), com os cavaleiros assentados sobre quatro cavalos, o primeiro com a coroa sobre a cabeça; o segundo portando a espada, encarregado de tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; o terceiro com a balança nas mãos; e o quarto, que tinha por nome Morte, com o inferno a segui-lo; sendo-lhes concedido poder para matar a quarta parte da terra com a guerra, a peste, a fome e as feras.
Muito já se disse ou escreveu sobre esse episódio triste e revelador. Houve muito ódio a criticar ódio, maldade a condenar maldade, loucura a justificar loucura. Não quero participar disso. Não desejo o mal desses rapazes, isso não me compete. Desejo sim que sejam submetidos aos rigores da lei, na medida por ela estabelecida. E que um dia compreendam em plenitude tudo de ruim que fizeram. Será certamente a maior punição: alcançar e compreender a vilania de que foram capazes.
Mais e melhor me apraz que realidade e ficção se entrelacem, fazendo nascer literatura e poesia, permitindo imaginar que Orelha encontre Baleia, não num sertão infértil e desprovido, não numa praia onde haja fel e fúria. Talvez num campo verde, sobre um extenso e sombreado relvado, num chão acolhedor em que a existência não esteja condenada à secura, repleto de preás nutridos e apetitosos e de crianças felizes brincando ao redor.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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