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No ano em que a humanidade começou a sentir em conjunto, não houve trombetas nem decretos. Houve apenas uma alteração quase imperceptível na espessura do ar, o mundo parecia ter inspirado de outro modo. Algo se deslocou na matéria invisível que envolve os corpos, e esse deslocamento levou consigo emoções que antes pertenciam apenas a quem as sentia. Uma tristeza nascida numa cidade distante repercutia no peito de quem caminhava noutro hemisfério. Uma alegria surgida num campo restaurado atravessava os olhos de quem, em subterrâneos iluminados por códigos, jamais tocara a terra. A empatia tornara-se atmosfera, inalável e incontornável.

Lia observava os peixes de luz do Helix Comum deslizarem pelo espaço holográfico e compreendia que o genoma não era um mapa, mas uma narrativa que se escrevia enquanto era lida. Hélio, que sempre sentira antes de pensar, percebia sob a pele o rumor antigo da espécie, aquela vibração residual de quando existir significava sobreviver. Um sinal emergiu dos dados, discreto e profundo, com a intensidade de uma dor que desperta num corpo adormecido. Atravessou Lia, despertando um segundo coração. Atravessou Hélio, transformando-se em um campo de calor. Ambos reconheceram, sem palavras, que haviam tocado o mesmo ponto de fratura do mundo.

O que ali se revelava não exigia correção, exigia transformação. Da mente de Lia surgiu então uma fórmula que não era apenas ciência, mas também juízo, inserir no código da espécie a capacidade de sentir o impacto antes do gesto, perceber o outro antes da ação. O coletivo, ligado pela nova sensibilidade, entrou em estado de suspensão, lembrando um organismo que prende a respiração diante do desconhecido. Fora da Rede, Lia e Hélio tocaram-se; naquele toque havia mais do que afeto, havia o peso luminoso de decidir o destino do humano.

Quando o protocolo foi ativado, uma onda de serenidade atravessou o planeta. Ela não era uma paz ilusória, mas uma reorganização profunda. Percorreu redes neurais, campos eletromagnéticos, tecidos vivos e memórias celulares. Músculos antigos relaxaram. Reflexos herdados perderam rigidez. Um novo órgão parecia instalado em cada ser, uma escuta interior capaz de acolher o outro. Os recém-nascidos já vinham com essa percepção incorporada. Os adultos sentiam tensões que nunca haviam nomeado dissolverem-se. E, quando alguém chorava, o lamento tornava-se um chamado imediato, mobilizando mãos, vozes e presenças. A violência, privada do anonimato, começou a perder função.

Entre essas ondas de reorganização, uma criança, cujo corpo ainda não sabia conter tanta memória, sentiu no peito um peso atravessando séculos. Imagens surgiram em sua consciência: relâmpagos lentos, cidades em ruínas, gritos soterrados, mães e soldados unidos pela mesma dor. O pranto que dela irrompeu carregava o luto de milhares de mães. As pessoas ao redor sentiram o tremor antigo, aproximaram-se, tocaram sua pele, enviaram calor, até que a dor das guerras, finalmente reconhecida, encontrasse um espaço onde pudesse dissolver-se. A criança respirou e, com ela, respirou o passado.

O trabalho deixou de ser imposto e tornou-se partilha de atribuições. Cada pessoa descobria sua função observando uma voz interior. As máquinas sustentavam a matéria do mundo. Os humanos cuidavam de suas vidas e da vida do habitat. Solos exauridos recebiam mãos e raízes. Rios eram purificados por sistemas vivos. Cidades voltavam a abrir-se à luz. Telhados tornavam-se jardins. Oceanos recuperavam seus corais. Os créditos vitais circulavam em ritmo constante, distribuindo tempo, mobilidade e repouso conforme a necessidade. O planeta, tratado como organismo, respondia com uma respiração mais ampla.

Na casa de Ayla, onde raízes atravessavam o chão e a luz entrava plena e Mia crescia imersa nesse campo sensível. Percebia o mundo antes das palavras, em pulsações e imagens. Irene cuidava dos ecossistemas vivos. Ayla sustentava os fluxos emocionais da comunidade. Um dia, movida por uma inquietação suave, Mia perguntou sobre o tempo em que cada pessoa sentia apenas a si. Ayla mostrou-lhe imagens de solidões cercadas de multidões, de alegrias que morriam sem eco, de dores que não encontravam testemunho. Irene acrescentou memórias de guerras, escassez e medo. Mia sentiu um leve aperto no peito e compreendeu que o mundo de agora nascera daquele sofrimento, que sentir juntos dera ao eu um lugar onde, enfim, repousar.

No fim da tarde, quando o céu se abria em camadas de âmbar e violeta, consciências de lugares distantes entravam em sintonia. Cada respiração deslizava sobre a outra. Singularidades vibravam sem perder forma. O pôr do sol derramava sua luz líquida sobre rios, folhas e edifícios, atravessando o campo coletivo, e cada peito absorvia a melodia lenta. O mundo, por um instante suspenso, reconhecia-se a si mesmo.

Mia não sabia quando começara a sentir os outros. Não havia um antes e um depois. Havia esse estado contínuo em que o peito nunca estava vazio, porque dentro dele passavam correntes de alegria, de medo, de ternura e de perda sem origem definida. Às vezes pensava que aquilo era o mundo respirando através dela. Outras vezes, que era ela respirando dentro do mundo, e talvez não houvesse diferença.

Quando se sentava junto à janela da casa de raízes, sentia o campo coletivo como uma presença silenciosa. Não falava. Não exigia. Apenas estava, imerso em um oceano interior sustentando cada pensamento. Mia perguntava-se se ainda era possível estar só e descobria que sim, mas de outro modo. A solidão não era mais ausência do outro, era apenas um espaço onde o outro permanecia em silêncio.

Ayla dizia que antigamente as pessoas carregavam suas dores como objetos invisíveis, pesados demais para mostrar, pesados demais para soltar. Irene explicava que o sofrimento, quando não encontra testemunho, endurece e vira violência. Mia escutava e sentia, porque cada palavra trazia consigo memórias que não eram suas, mas que agora lhe habitavam o corpo, ecos de um passado que ainda procurava descanso.

Às vezes uma tristeza sem nome surgia nela. Não vinha de sua vida breve. Vinha de vidas que não vivera, de despedidas que não lembrava, de mortes que nunca presenciara. Nessas horas, o campo empático aproximava-se, envolvendo-a com uma maré quente, e Mia compreendia, sem precisar pensar, que sentir o outro não era carregar o peso do mundo, mas permitir que o mundo não carregasse seu peso sozinho.

Ela pensava então no eu, nesse pequeno centro que ainda existia apesar de tudo, um ponto delicado onde a experiência se recolhia para se tornar consciência. Mia não se dissolvera no coletivo; ao contrário, sentia-se mais nítida, com contornos definidos pelo contato com tantas existências. Era ali, nesse limite entre o que era seu e o que era de todos, que sua identidade nascia.

No fim das tardes, quando o céu se tornava um campo de luz lenta, Mia sentia as consciências distantes alinharem-se, respirando em uníssono. O mundo inteiro parecia parar para sentir. E nesse silêncio compartilhado, Mia percebia que ser humano não era ser separado, mas ser um lugar onde o outro pode acontecer.

A passagem de Mia ocorreu por um mínimo desvio na dança da matéria. Um cálculo do mundo deslocou-se, a plataforma viva alterou sua sustentação, e o corpo delicado de Mia concluiu seu ciclo. O instante revelou a delicadeza da existência equilibrada sobre a atenção do universo.

No mesmo momento, o campo empático ajustou sua frequência. Uma expansão silenciosa percorreu todas as consciências, abrindo espaços interiores para acolher algo maior. Cada ser humano sentiu a transformação do tecido comum. Uma presença que vibrara de modo singular agora fluía de outra maneira no conjunto.

Milhões de gestos desaceleraram. Olhares aprofundaram-se. Respirações encontraram um ritmo mais amplo. A humanidade inteira reconheceu que um ponto sensível havia mudado de estado.

Ayla percebeu a transição no núcleo de seus afetos. Irene sentiu a reorganização nos sistemas vivos. Lia reconheceu no campo uma nova textura. Hélio acolheu no peito um calor de passagem e continuidade.

Mia passara do tempo para a memória viva, e a memória, no campo empático, permanecia ativa.

A forma como Mia sentira o mundo continuava a vibrar no tecido comum. Sua escuta delicada, sua abertura às dores e às alegrias alheias, sua presença breve e intensa tornaram-se parte da arquitetura invisível da humanidade.

A mente coletiva entrou em convergência. Consciências espalhadas por continentes alinharam-se em um mesmo gesto interior.

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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