Publicado em: 2 de março de 2026
Quarenta e três anos depois de ter sido filmado em película 16 mm, o documentário “Tó Teixeira… Cotidiano e Memória” será exibido ao público nesta segunda-feira, 2 de março de 2026, às 19h, no Cine Líbero Luxardo, em Belém, com entrada gratuita. A sessão contará, antes da projeção, com um pocket show de Salomão Habib, reconhecido como o maior pesquisador sobre a vida e a obra de Tó Teixeira e um dos principais nomes do violão no país. Após o filme, haverá roda de conversa com os realizadores e com o próprio Habib.
Com 29 minutos de duração, o documentário é dirigido por Chico Carneiro e Januário Guedes. A trilha é interpretada por Salomão Habib e a produção executiva é assinada por Chico Carneiro. A finalização da obra contou com apoio da Cinemateca Brasileira e da Sociedade Amigos da Cinemateca.

O filme parte de registros realizados entre o final de 1981 e o início de 1982, quando Chico Carneiro e Januário Guedes, ao lado de Aldemir Ferreira da Silva e Sábato Rosetti, decidiram documentar o cotidiano de Antônio Teixeira do Nascimento Filho, o Tó Teixeira. As imagens foram captadas em negativo cor 16 mm, com uma câmera Paillard Bolex à corda e um gravador Uher de bobina adquirido em leilão, utilizando quatro latas de negativo Kodak 7247 e bobinas de fita magnética de ¼ de polegada. O músico foi filmado em sua residência e em sua oficina de encadernação, atividade que exerceu ao longo da vida.

À época das filmagens, Tó Teixeira tinha 88 anos e enfrentava problemas de saúde, mas mantinha lucidez e memória ativa. Como a câmera utilizada produzia ruído, não foi possível gravar som direto; por isso, a equipe optou por registrar livremente o cotidiano e realizar, posteriormente, uma entrevista que estrutura as informações narradas no filme. O material foi revelado em São Paulo, nos laboratórios da Líder Cinematográfica, e retornou em cópia positiva de trabalho. A pré-edição foi feita na moviola do recém-criado CRAVA – Centro de Recursos Audiovisuais da Amazônia –, iniciativa vinculada à Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura de Belém, com operação do cineasta Alan Kardec Guimarães. A montagem inicial privilegiou a construção de um dia na vida do músico.

A falta de recursos impediu a conclusão do projeto nos anos 1980. O negativo foi depositado na Cinemateca Brasileira para preservação, enquanto Chico Carneiro manteve sob sua guarda o copião e o material sonoro. Em 1983, convidado a trabalhar em Moçambique, na África, o cineasta permaneceu no país por quatro décadas, ainda que retornasse anualmente à Amazônia para realizar documentários.
Durante a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2021, Chico Carneiro permaneceu em Belém por um ano e meio e tentou viabilizar a finalização do filme por meio da Lei Paulo Gustavo e de outra edição da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), mas os projetos não foram aprovados. No mesmo período, cortes orçamentários federais afetaram a Cinemateca Brasileira, que ficou dois anos sem energia elétrica, ar-condicionado e desumidificação, resultando em danos a diversos acervos, inclusive ao material original de Tó Teixeira.
Em 2021, com a Cinemateca ainda fechada, o diretor financiou com recursos próprios uma primeira digitalização a partir do copião, que já apresentava perda de cor e estabilidade de imagem. A reedição foi realizada em Maputo, mantendo-se a estrutura concebida em 1982, com inserção de trechos da entrevista e de obras musicais resgatadas por Salomão Habib. A qualidade visual, no entanto, não permitia exibição pública.
De volta definitivamente ao Brasil em dezembro de 2023, Chico Carneiro articulou nova avaliação junto à Cinemateca Brasileira. O negativo estava degradado a ponto de inviabilizar digitalização, mas o copião ainda permitia recuperação parcial. Com apoio da instituição, que concedeu desconto de 50% no processo, foi realizada nova digitalização, incluindo planos adicionais para registrar a execução de uma ladainha, anteriormente excluída. A edição final foi concluída em 2025, em Belém.
O documentário integra um conjunto de iniciativas voltadas ao reconhecimento de Tó Teixeira, cuja importância para a cultura parauara e brasileira inclui o fato de ter sido o primeiro homem preto a realizar um concerto de violão na Amazônia, o primeiro a transcrever obras clássicas para o instrumento e o primeiro professor de violão do Pará e da região amazônica. Nascido em 13 de junho de 1893, no bairro do Umarizal, então área majoritariamente habitada por afrodescendentes que trabalhavam na atual Cidade Velha, Tó foi multi-instrumentista, encadernador e formador de gerações de músicos. Faleceu em 1982, deixando repertório que abrange ladainhas, canções, valsas, choros, maxixes, tangos, marchas, carimbós e sambas. No fim da década de 1990, seu nome passou a designar a lei municipal de incentivo à cultura de Belém.
Chico Carneiro, 74 anos, é fotógrafo e cineasta autodidata, com trajetória iniciada no cinema exibido por seu pai, em Castanhal. Trabalhou em “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974), atuou como captador de som e coprodutor em “ABC da Greve” (1979) e desenvolveu carreira em Moçambique, onde produziu e dirigiu documentários com enfoque social. Desde 2001, voltou-se novamente à Amazônia, com obras como “Os Promesseiros”, a série “Barcos da Amazônia” e o ciclo de filmes realizados na região de Breves, incluindo “Dona Raimundinha do Rio Tajapuru”, premiado no 8º Amazônia FI-DOC e no Cine Alter do Chão.
Januário Guedes, diretor e roteirista, é mestre em Comunicação pela ECO/UFRJ, com atuação como professor universitário, gestor cultural e pesquisador. Foi diretor do Museu da Imagem e do Som do Pará, membro de instâncias nacionais do audiovisual e responsável por roteiros e direções em produções documentais e ficcionais desde a década de 1970.
A exibição do documentário é a celebração de um processo de preservação e finalização que atravessou mais de quatro décadas, brindado hoje o público com memória, recuperação de acervo e reconhecimento de um dos nomes centrais da música da Amazônia.










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