Publicado em: 21 de setembro de 2025
Me dedico a escrever para o universo encantado da literatura infantil. E digo a vocês: é muito bom. A imaginação me permite criar mundos e semear sonhos. Costumo dizer que “tudo pode”.
Se eu apertar o botão de uma caneta, posso voar ou até me teletransportar.
Vou buscar inspiração em minhas memórias — e aqui agradeço aos meus pais, Nelson e Norma, que nos proporcionaram uma infância feliz.
Eu, Sandra e Nelson, brincamos de tudo o que a imaginação de vocês pode alcançar.
Nas férias, o lugar preferido era o Sobrado da vovó Linda, em São Luís do Maranhão.
Ah, quantas saudades de correr pelos imensos corredores, de tomar banho frio no tanque proibido, de reunir a família ao redor daquele piano de cauda.
Entre quitutes e palavras libanesas, nasceram muitos artistas: instrumentistas, poetas, atores, escritores e cantores.
Aqui, vocês degustaram dois: Marco Duailibe e Sandra Duailibe.
Essa infância, regada de puro amor, me nutri, até hoje, como fonte de inspiração para meus livros.
E sobre esta casa?
Nem sei quantas vezes passei pela frente deste prédio com uma vontade danada de entrar.
Primeiro, por amar prédios históricos.
Segundo, pela curiosidade em conhecer os intelectuais deste silogeu, amantes das letras — os Imortais!
Isso só aconteceu em 2016, com a entrega de convites para o lançamento do meu primeiro livro — “Os três porquinhos e o lobo esportista”.
Porém, foi em 2023, conduzida pelas mãos da confreira Betânia, que passei a frequentar esta casa.
Hoje estou aqui para ocupar a cadeira de número 13, que teve como patrono Dom Romualdo de Seixas e, como último ocupante, o saudoso Raymundo Mário Sobral.
Curiosamente, há quatro anos moro na Rua Domingos Marreiros, quase esquina da Dom Romualdo de Seixas. Entretanto foi apenas recentemente que descobri quem, de fato, foi esse notável paraense.
Dom Romualdo nasceu em 1787, em Cametá.
Estudou no seminário de Belém, sob a orientação de seu tio, Dom Romualdo Coelho. Partiu rumo a Portugal para estudar Teologia e Filosofia, mas voltou para Belém ainda moço. Aos 19 anos, já era mestre de cerimônias do bispado, professor de Latim, Filosofia, Retórica e Francês.
Com a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, em 1808, Romualdo embarcou rumo ao Rio de Janeiro para representar o clero do Pará. Voltou de lá Cavaleiro da Real Ordem de Cristo e cônego da Sé.
Em 1810 assumiu o cargo de pároco em Cametá,
onde iniciou uma atuação pastoral direta junto à população.
Dom Romualdo foi eleito, duas vezes, presidente da Junta Provisória do Grão-Pará — liderando a província em meio às complexas negociações de adesão do Pará ao Brasil independente.
No Parlamento, foi deputado do Pará e também da Bahia.
Levou aos corredores do poder vozes que falavam em rios, florestas, populações esquecidas e sonhos amazônicos.
Em 1840, Dom Romualdo foi nomeado Arcebispo Metropolitano de São Salvador da Bahia.
Abrangendo todo o território brasileiro e todas as demais dioceses.
Assim, Dom Romualdo passou a exercer uma autoridade religiosa sobre várias regiões do Brasil.
No ano seguinte, presidiu a sagração do imperador Dom Pedro II, na Capela Imperial da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Rio de Janeiro. Recebeu o título de Marquês de Santa Cruz,
sendo o primeiro brasileiro a alcançar tal nobreza.
Dom Romualdo escreveu sermões, orações fúnebres, discursos públicos. Foi membro de academias literárias e científicas no Brasil e na Europa. Faleceu em 29 de dezembro de 1860.
A cadeira de número 13 teve como seu fundador Dom Antônio de Almeida Lustosa, empossado no dia 17 de janeiro de 1937.
Nasceu em Minas Gerais, em fevereiro de 1886.
Foi Arcebispo Metropolitano de Belém.
Em sua Primeira Carta Pastoral, abordou a relevância da vida interior, ressaltando o papel da fé no cotidiano do povo paraense.
Já em sua Segunda Carta Pastoral, voltou-se à valorização da saúde corporal, enfatizando que fé, saúde e higiene caminhavam juntas.
Dom Lustosa dedicou-se a viagens pelo interior do Pará, ouvindo as necessidades das pessoas mais distantes, enfrentando estradas difíceis e oferecendo conforto espiritual.
Entre suas obras estão Dom Macedo Costa, No estuário amazônico e Meu livro inseparável. Faleceu em 1974, deixando um legado de fé e cultura.
O próximo ocupante da cadeira foi Murilo de Almeida Castro Menezes.
Nascido em outubro de 1890 em Fortaleza.
Veio para Belém ainda menino, com apenas seis anos de idade.
Passou parte da juventude no interior, trabalhando junto ao pai.
Suas experiências serviram de fonte para suas crônicas, que retratam o cotidiano dos bairros paraenses com riqueza e sensibilidade.
Murilo trabalhou como auxiliar de comércio e também exerceu cargos em uma empresa de navegação, o que ampliou sua vivência da região amazônica e influenciou sua obra literária.
Posteriormente chegou a assumir a direção da Imprensa Universitária.
Foi empossado na Academia Paraense de Letras em 24 de abril de 1948.
Entre suas obras destacam-se: A capital do El Dourado, Subindo o Rio Amazonas, Bazar liquidador e Um cidadão de Atenas.
Murilo Menezes faleceu em 22 de abril de 1966.
E em 10 de maio de 1968 tomou posse Aláudio de Oliveira Melo.
Paraense, Major da Reserva do Exército Nacional, historiador e intelectual.
Contribuiu fortemente para a cultura e a literatura do Pará. Suas crônicas e ensaios enriquecem o entendimento da história e da literatura regional. Em 1969, publicou o artigo “José Veríssimo – O Homem e o Literato” na Revista da Academia Paraense de Letras, onde oferece uma análise aprofundada sobre a vida e a obra de José Veríssimo.
Faleceu em 6 de julho de 1998.
Seu sucessor foi Orlando Salomão Zoghbi
empossado em 17 de setembro de 1999.
Médico, nasceu em 1927. Tinha uma relação com práticas tradicionais e populares, e isso incluía o uso de ervas e raízes medicinais. Publicou vários artigos em jornais e revistas.
Referência em estudos sobre o fenômeno da Amazônia seu trabalho contribuiu para o cenário cultural do estado.
Em novembro de 1977 foi chamado para examinar vítimas locais que alegavam ter sido atacadas por um fenômeno misterioso apelidado de “Chupa-Chupa” — ou “luz vampira”.
Faleceu em maio 2018.
O último ocupante desta cadeira foi Raymundo Mário Sobral.
Quando fui fazer minha inscrição para a APL, senti um aperto no coração e uma vontade súbita de ligar para Léa Sobral. Afinal, eu estava prestes a me candidatar à cadeira ocupada por seu recém-falecido marido, seu grande amor. Estiveram casados por 66 anos.
Conversamos e nos emocionamos, e ela, com sua força e doces palavras, me concedeu sua bênção.
Com respeito, peço licença novamente à família de Raymundo Mário Sobral. (Lea, Mauro, Matheus).
Ocupar a cadeira de um mestre não é fácil missão. Sobral foi jornalista, escritor, cronista, dramaturgo, agitador cultural e, acima de tudo, um paraense que fez do humor uma ferramenta de identidade.
Nasceu em Belém, em julho de 1938, no bairro do Umarizal. Estudou no Colégio Nazaré, mas sua maior escola foi a rua. Tinha a cidade inteira como sala de aula.
Criou a revista Chá de Cadeira, distribuída gratuitamente em alguns consultórios de Belém, com charadas, palavras cruzadas e humor leve — pensada para entreter pacientes durante as longas esperas.
Era conhecido como o “Comendador da Ordem do Macaco Torrado”, uma autointitulação que refletia seu estilo irreverente e bem-humorado.
Em 1979 criou o lendário tabloide PQP – Um Jornal pra Quem Pode, um grito de liberdade editorial, de crítica bem-humorada e resistência criativa. O PQP durou mais de 30 anos. Era um jornal que ria — e fazia pensar.
Foi nele que nasceram personagens como Ocrides Candiru e os frequentadores da Pensão da Cotinha, que saíram das páginas do jornal para os palcos e para a música popular, com destaque para a homenagem de Pinduca em um carimbó de sucesso:
“Conheci em Castanhal
um homem sensacional
o Ocrides Candiru
escreveu Mário Sobral”
Tamanha era a importância desse universo criado por Sobral que, em 1987, a escola de samba Quem São Eles o homenageou com o enredo O Escambau Ilustrado do Comendador Sobral.
Sua produção literária falava com a alma do povo.
E foi ouvindo o povo que ele entendeu que a linguagem paraense é uma riqueza viva. Com esse ouvido atento e alma debochada, criou um marco: o Dicionário Papachibé – A Língua Paraense, publicado pela primeira vez em 1996 e reeditado várias vezes.
Um dicionário que traduz expressões, verbetes e gírias paraenses — não ensina o povo a falar “certo”, mas sim, ensina o Brasil a entender o Pará.
Sobral não era apenas um colunista — era um cronista do cotidiano amazônico. Em sua eterna coluna Jornaleco, no Diário do Pará, publicada até seus últimos dias de vida, criticava com leveza, ironizava com respeito e fazia da língua paraense um espaço de resistência cultural.
Autor de 13 livros, entre eles: O Candiru de Ocrides, O Motel de Ocrides, Repórter 69, Santa Ignorância – 20 anos de Papel Pintado, O Melhor do PQP e Ver-o-Peso de Bolso.
Em 2022, lançou sua autobiografia, Minha Vida Nem Freud Explica. No ano seguinte, surpreendeu mais uma vez com um livro inusitado e bem-humorado: Memórias Póstumas e Safadas de um Colchão, narrando as “experiências” vividas por um colchão nos contextos íntimos da vida humana.
Faleceu em fevereiro de 2025, aos 86 anos.
A Raymundo Mário Sobral, minha eterna reverência.
Caminhando para o encerramento da minha fala nesta noite tão especial,
quero expressar meu profundo carinho à querida amiga e confreira Betânia Fidalgo Arroyo, meu anjo da guarda. Obrigada pela amizade generosa e pela belíssima saudação.
Obrigada confreira Nazaré de Mello Uchôa pela sensível poesia que tocou meu coração.
Ainda ecoa em meus ouvidos o som encantador do violão do confrade Salomão Habib — minha sincera gratidão.
Edy-Lamar, que emoção! Obrigada.
Que honra ser recebida pelo som acolhedor do violino de Thais Carneiro. Obrigada!
Vanessa Vasconcelos, com seu toque, abrilhantou o rito. Gratidão.
Meu amado primo, Marco Duailibe – quanta emoção – meu eterno carinho.
Sandra Duailibe, voz de veludo, o que dizer? As lágrimas falam por mim.
Falo agora do amor que me sustenta:
Dos meus sobrinhos Fabio, Victória e Sofia — que amo “do infinito e além”.
Da querida Maribel — “a melhor cunhada do mundo”.
Da minha irmã Sandra — meu braço direito e esquerdo, a primeira pessoa que escuta meus planos e meus sonhos.
Aos que já partiram, e que permanecem vivos em minha memória:
Meu cunhado Sérgio, minha mãe Norma, meu pai Nelson e meu irmão Nelsinho, uma voz inesquecível, um talento extraordinário para oratória e um ser humano generoso, com quem muitos aqui conviveram e compartilharam histórias.
Minha família é meu esteio.
Meu carinho para Daniela, Eunice, Mônica, Iasmim, Helo, Larissa e Michael.
Minha gratidão aos amigos e parentes que vieram de longe:
Carmen, Geyna, Dona Gardênia, Gardeninha, Bila, Marco e Samira (que já havia realizado o checkin e por motivo de saúde não embarcou).
Humm… e os mimos que recebi? Alda, Claudia, Mônica Bandeira, Mônica Guimarães, Geyna, Jacira, Grassy, Regina, Sula, Helena, Alessandro, Nelma, Elaile, Cândida, Samira e Carmen. Gratidão!
Agradeço também à dedicada equipe que dá suporte a esta solenidade: Manubia Gaia, Jadson, Inovar, bufet Márcia Soares — e em especial,
— àqueles que estão no meu dia a dia, como o Pedrinho, o Flávio e a queridíssima Zenaide.
Agradeço a Deus pelo dom da vida.
Agradeço, com o coração transbordando de alegria, aos confrades e as confreiras que me recebem com entusiasmo.
Peço a Nossa Senhora de Nazaré que ilumine meu caminho nesta Academia, para que eu possa honrar esta cadeira com trabalho, entrega e amor à literatura.
Muito obrigada.

















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