Publicado em: 13 de janeiro de 2026
Dia 10 de janeiro Erich von Däniken partiu, e ainda assim permanece. Permanece no modo como olho o céu e no modo como as pedras antigas continuam a me falar. Sua obra atravessou ciência, mito e imaginação e, na minha adolescência tardia, abriu janelas onde antes havia apenas paredes. Seus livros explicavam o mundo à maneira de uma mente atormentada pelo silêncio dos céus e ensinavam a sonhar com rigor e a duvidar com encanto, oferecendo à imaginação juvenil um mapa para territórios que iam muito além do cotidiano.
Com Eram os Deuses Astronautas?, ele nos ofereceu uma gramática do assombro. Pirâmides deixaram de ser apenas ruínas e tornaram-se sinais, deuses alados ganharam a densidade de mensageiros cósmicos e calendários solares passaram a pulsar como o coração antigo de uma memória maior. A humanidade começou a ser lida como capítulo de uma narrativa escrita para além da Terra, e para quem era jovem e faminto de mistério isso significou uma revolução interior.
Arthur C. Clarke ensinou a imaginar o futuro do encontro com outras inteligências; Däniken ensinou a reconhecê-lo no passado. Enquanto Clarke escrevia o amanhã com máquinas e estrelas, Däniken decifrava o ontem nas pedras, nos mitos e no mármore gasto pelo tempo. Um apontava para a frente do cosmos, o outro fazia o passado brilhar como um céu esquecido.
Isaac Asimov construiu universos em que a razão ergue impérios; Däniken abriu o passado como um palimpsesto em que humanidade e cosmos se sobrepõem em camadas de luz. O tempo, em sua obra, deixou de ser apenas linha e tornou-se espiral, permitindo que a história humana fosse sentida como algo mais vasto do que uma simples sucessão de eras.
Philip K. Dick transformou a realidade em superfície instável; Däniken transformou a cultura em um campo de sinais onde outras inteligências poderiam ter deixado vestígios. Em ambos, o mundo se apresenta como algo que pede leitura, mas foi Däniken quem ensinou muitos de nós, ainda adolescentes, a ler o próprio planeta como um texto misterioso.
Em Ursula K. Le Guin, o encontro entre civilizações reflete questões éticas, de linguagem e de cultura; em Däniken, esse encontro se desloca para trás no tempo, perguntando se nós mesmos não teríamos sido os “nativos” visitados por civilizações mais avançadas. Essa inversão do ponto de vista antropológico fazia com que a humanidade, de repente, se visse como parte de uma narrativa maior, observada desde fora.
H. P. Lovecraft povoou a Terra com presenças vindas do espaço; Däniken reconheceu nessas presenças uma herança espalhada pelos mitos e pelas pedras. Aquilo que em Lovecraft era abismo, em Däniken tornava-se origem.
Os Anunnaki, vindos dos textos da Mesopotâmia, entraram nesse imaginário como figuras luminosas dessa memória cósmica. Deuses do céu e da Terra, mediadores entre ordens do universo e da vida humana, eles passaram, na leitura inspirada por Däniken, a ser vistos como visitantes estelares, guardiões míticos de um contato antigo. Mesmo lidos como símbolos, continuaram a expressar a intuição arcaica de que a humanidade nasce em relação com forças maiores, projetadas no céu e inscritas nas primeiras escritas da civilização.
A crítica à tese dos deuses astronautas sempre apontou seus limites metodológicos, lembrando que pirâmides, calendários e mitologias emergem de culturas humanas complexas e criativas, muito inteligentes. Ainda assim, para quem leu Däniken na juventude, essa crítica nunca apagou o essencial: sua obra funcionava como uma máquina de imaginação, capaz de reencantar o passado e ampliar o horizonte do possível.
A Terra, então, tornava-se um livro. As pirâmides viravam frases, os templos parágrafos, os deuses metáforas de um diálogo antigo entre o humano e o infinito. No século das sondas e dos telescópios, sua escrita continuou a viver como um arquivo poético do desejo humano de pertencer a algo maior do que o próprio mundo.
Erich von Däniken deixou mais do que teorias; deixou uma maneira de olhar e de perscrutar o cosmos. Para mim, ele foi uma das vozes que deram forma à imaginação da adolescência, um convite permanente a erguer os olhos e perguntar quem mais poderia estar olhando de volta. Seu legado permanece como uma escrita aberta no céu, onde a humanidade continua a buscar, entre as estrelas, a narrativa de sua própria origem.



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