Publicado em: 14 de janeiro de 2026
Recebi de um amigo leitor o questionamento sobre o caráter racista da obra de Erich von Däniken, frequentemente criticada pela comunidade acadêmica. É importante afirmar, desde o início, que condeno sem ambiguidades qualquer tese de caráter racista presente em suas formulações. Em meu texto sobre Däniken há, inclusive, um trecho dedicado às críticas acadêmicas dirigidas ao método dele. Ao mesmo tempo, alguns colegas sustentam que tais acusações devem ser relativizadas, pois as limitações tecnológicas, científicas e conceituais do período em que escreveu condicionaram tanto o horizonte teórico de sua obra quanto sua própria mundivivência. Assim, já no ponto de partida, somos colocados diante de uma tensão entre crítica atual e compreensão histórica.
Abomino qualquer tese racista na ficção, na ciência e na vida cotidiana, do mesmo modo que condeno o racismo presente em qualquer outro autor consagrado, sempre atenta à dimensão histórica da obra. Condeno quando Kant escreve que “os negros da África não possuem por natureza nenhum sentimento que se eleve acima do trivial” (Kant, 1764). Condeno quando Hume afirma estar “inclinado a suspeitar que os negros, e em geral todas as outras espécies de homens, sejam naturalmente inferiores aos brancos” (Hume, 1748). Condeno quando Darwin escreve que “as raças civilizadas do homem quase certamente exterminarão e substituirão as raças selvagens” (Darwin, 1871). Condeno quando Voltaire sustenta ideias de inferioridade mental de africanos e reproduz estereótipos antissemitas (Voltaire, 1756). Condeno quando Hegel exclui a África da história racional (Hegel, 1837). Condeno quando Heidegger adere ao antissemitismo e ao nazismo em seus Cadernos Negros (Heidegger, 1931–1941). Em todos esses casos, a grandeza intelectual convive com limites morais profundos, o que nos obriga a manter simultaneamente o reconhecimento e a crítica.
Platão aceitava a escravidão como parte legítima da ordem social de seu tempo e a integrou de forma natural em seus modelos de cidade ideal. Em obras como A República e As Leis, ele parte da ideia de que os seres humanos possuem capacidades racionais diferentes e que, por isso, alguns nasceriam para governar enquanto outros nasceriam para obedecer, o que fundamenta uma hierarquia entre pessoas livres e escravos (Platão, c. 380 a.C.; c. 350 a.C.). Embora recomendasse que os escravos fossem tratados com certa moderação para manter a estabilidade da pólis, Platão nunca defendeu a liberdade universal nem questionou a instituição da escravidão. Ao contrário, ele a regulamentou juridicamente e a considerou necessária ao funcionamento da cidade. Aqui novamente aparece a contradição entre uma teoria elevada da justiça e uma prática social excludente.
Monteiro Lobato, nosso ficcionista brasileiro, que tanto divertiu minha infância, também é denunciado em nosso tempo como um autor que reproduziu a arquitetura racista da sociedade brasileira, especialmente em obras como Caçadas de Pedrinho e Histórias de Tia Nastácia, nas quais personagens negros são frequentemente descritos por meio de estereótipos hierarquizantes (Lobato, 1933; 1937). O desconforto que hoje sentimos diante desses textos não apaga seu valor literário, mas também não pode ser dissolvido em nostalgia acrítica.
Nenhum desses autores, por maiores que sejam suas contribuições para a humanidade, está acima da crítica. Por outro lado, nenhum deles deixou de ser estudado por causa disso. A ciência e a filosofia avançam precisamente nesse movimento de confronto racional, no qual obras são preservadas, mas também reinterpretadas à luz de novos critérios éticos e novos conhecimentos.
No caso de Däniken, o problema reaparece sob outra forma. Quando ele sugere que certos povos não poderiam ter construído determinadas obras sem intervenção externa, ele não formula apenas uma hipótese ousada, mas introduz uma suposição biologicamente falsa. A biologia moderna demonstra que todos os seres humanos pertencem a uma única espécie com capacidades cognitivas equivalentes, enquanto a arqueologia mostra que sociedades humanas em todos os continentes desenvolveram engenharia, matemática e astronomia sofisticadas. Nesse sentido, qualquer teoria que parta de uma inferioridade intrínseca está empiricamente errada. Contudo, reconhecer esse erro não significa descartar inteiramente as perguntas que sua obra levanta.
Retirar esse pressuposto da obra de Däniken não destrói o núcleo investigativo do autor em seu tempo. O que permanece é a questão legítima sobre como certos efeitos materiais do passado foram produzidos, quais tecnologias, formas de organização e sistemas de conhecimento tornaram isso possível e por que parte desse saber se perdeu ao longo da história.
Por fim, do ponto de vista da epistemologia, toda obra deve ser lida dentro do horizonte histórico e cultural em que foi produzida, pois o conhecimento não é uma coleção de verdades eternas, mas um campo de disputas, poderes e interpretações. Kuhn mostrou que a ciência muda por rupturas de paradigmas, Foucault que o saber está atravessado por relações de poder e Gadamer que toda compreensão é histórica. Quando hoje acusamos um autor do passado, não falamos apenas sobre ele, falamos também sobre nós, sobre os valores que escolhemos defender. Nesse quadro, Erich von Däniken, ao interpretar mitos antigos por meio das categorias tecnológicas de seu tempo, expõe tanto os limites quanto as possibilidades de sua época. Cabe ao leitor disputar o sentido de sua obra, arrancando dela o que é falso, preservando o que ainda provoca perguntas e recusando toda forma de hierarquia humana disfarçada de ciência. É assim, e somente assim, que o pensamento avança.
Referências
KANT, Immanuel. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. Tradução de Vinicius de Figueiredo. São Paulo: Iluminuras, 2008. (Original de 1764).
HUME, David. Of national characters. In: HUME, David. Essays: moral, political and literary. Indianapolis: Liberty Fund, 1985. (Original de 1748).
DARWIN, Charles. A descendência do homem e seleção em relação ao sexo. Tradução de Célia Regina D. Santos. São Paulo: Hemus, 2009. (Original de 1871).
VOLTAIRE. Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações. Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Original de 1756).
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. A razão na história: uma introdução geral à filosofia da história. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2001. (Original de 1837).
HEIDEGGER, Martin. Cadernos negros (1931–1941). Tradução de Marco Antonio Casanova. Petrópolis: Vozes, 2019.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014. (Original c. 380 a.C.).
PLATÃO. As Leis. Tradução de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2010. (Original c. 350 a.C.).
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933.
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.



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