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Conto Vampiro

Esta história não é real, mas poderia ter sido.

Era noite. Há séculos não sabia o que era acordar com os raios de sol. Seus olhos haviam se acostumado a seguir a luz da lua, e era ela quem guiava seus anseios, sua trilha, todo dia.

Naquela noite, no entanto, diferente de todas as outras, não gastava seus poderes hipnóticos para sugar algo de interessante de algum boy ou garota entediados com sua própria solidão modernosa e cheia de luxúria. Fazia algo que havia desaprendido a fazer: olhava pra si mesma, aquela alma velha no corpo da menina que queria ser a mulher que nunca se tornaria.

Sob a luz do luar, naquela noite, fazia aquilo que corria em suas veias vibrar. Podia ouvir o sangue em cada uma daquelas pessoas sentadas na grama do parque, o pulsar de seus corações impacientes pelo gelo que consumia sua pele.

No mundo inferior era tudo muito diferente. Suas horas de consciência eram quase tão inertes quanto o seu desnecessário descanso e sentir, em todo e qualquer aspecto físico e filosófico, não era uma opção real. Sede de vida era tudo aquilo que tinha de real.

Mas a escuridão teimava em abraçar todas as suas tentativas.

O pulso de quem teima em se inventar é onda de preamar, impossível saber até aonde vai levar.

Não sabia dizer se havia passado segundos ou anos naquele estado de contemplação. O tempo a havia amaldiçoado com o eterno meio-termo entre perder e ganhar. E, do tempo, ia ganhando tempo.

Quase num transe, sentia o cheiro dos pensamentos amorosos e mesquinhos, delicados e retumbantes, renegados e exauridos. E, com suas presas malignas, ia nutrindo todo o ar que revivia seu corpo em toda a dissonância que aquelas madeiras empenadas propunham em sua sinfonia dodecafônica.

Sentiu o gosto do sangue na boca. A plateia levantou, em clamor. E foi ali que finalmente se fez imortal.

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