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Um concerto lírico inédito, só com músicas de compositoras paraenses interpretadas por cantoras da terra, na linda igreja barroca de Santo Alexandre, foi organizado pelo Conselho Estadual de Cultura, com o apoio da Secult, via Sistema Integrado de Museus e Memorais, para celebrar o Dia da Mulher, ontem.  “Inspiradas Mulheres Paraenses”, com as cantoras Ione Carvalho, Luciana Tavares e Lana Bastos e a pianista Ana Maria Adade, foi concebido a partir das pesquisas do historiador Vicente Salles, que em seus estudos encontrou registros de compositoras paraenses desde o século XIX até a década de 1960.  

O diretor artístico do Theatro da Paz e membro do Conselho Estadual de Cultura, Gilberto Chaves, dirigiu o espetáculo, enfatizando a obra musical parauara, exclusivamente feminina, num delicado painel de época, muito elogiado pela plateia. Todos os membros do Conselho, presidido pelo jornalista e linguista João Carlos Pereira, em especial o advogado Eudiracy Silva, que idealizou o evento, a presidente do Sistema Integrado de Museus e Memoriais, profa. Maria Sylvia Nunes, a superintendente do Iphan, Dorotéia Lima, a presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Anaiza Vergolino, e membros da Academia Paraense de Letras prestigiaram o concerto e receberam muitos cumprimentos pela iniciativa.

A festejada pianista Ana Maria Adade, que é professora e ex-dirigente da Fundação Carlos Gomes, abriu o concerto com solos da valsa “Chuva de Beijos”, de Sarah Rocha (1880-1960); e depois tocou “Dolorosa”, composição de Júlia Carvalho (1873-1969)

A soprano Lanna Bastos interpretou as canções “Prece”, de Rachel Peluso (1908-2005), com versos  de Suzanna Campos; a valsa “Anseio”, de Helena Nobre(1888-1965); a valsa “Saudades” e o samba “Eu não digo P’ra Você”, ambas de Júlia Carvalho.

Já a também soprano Ione Carvalho cantou a canção “O Coração”, de Marcelle Guamá (1892-1978), com versos de Antero de Quental; a valsa “Vem, Amor”, de Helena Nobre; a “Prece que me Ensinaste”, canção de Marcelle Guamá, com letra de Luiz Octavio, e “Belém de Nazaré”, de Rachel Peluso, com letra de Osório Nunes.

A soprano Luciana Tavares interpretou a toada “Musa Cancioneira”, de Marcelle Guamá, com versos de Adelmar Tavares; a valsa “De Longe”, de Dora Chermont Lisboa (1886-?), com versos de Ermelinda de Almeida;  a canção “Uma Saudade”, de Rachel Peluso, com letra de Paulo Fortes, e o tango “Mágoas Secretas”, de Júlia Carvalho.

Ao final, todas juntas, elas executaram a deliciosa marcha “Cidade Morena”, de Maria de Nazaré Figueiredo.

Curiosidades: Rachel Angélica Mattera Peluso, pianista e compositora santarena, filha de italianos que imigraram para o Brasil atraídos pelo ciclo da borracha, era membro da
Academia de Letras e Artes de Santarém. 
Aos 7 anos, participou de um festival no Theatro Vitória, sob regência de José Agostinho da Fonseca. De 1920 a 1923 foi pianista da Orquestra Tapajós, dirigida por José Agostinho. Em 1923, a família Peluso se mudou para São Paulo, onde Rachel se diplomou pianista e concertista no Conservatório Carlos Gomes (Campinas). Professora e maestrina, também estudou órgão, contraponto, bandolim, violino, violão e canto.  Compôs o Hino Oficial da Assembléia Legislativa do Estado do Pará, canções e inclusive peças destinadas a crianças. 

A irmã de Rachel, Gioconda Rosa Angélica Peluso, era soprano lírico e Patrona da Academia de Letras e Artes de SantarémPromoveu a divulgação de autores paraenses, entre eles Waldemar Henrique, Jayme Ovalle, Rachel Peluso e Wilson Fonseca. Ambas figuram no livro “Música e Músicos do Pará”, de Vicente Salles. 
Em homenagem a Rachel Peluso, José Agostinho da Fonseca (1886-1945), pai de Wilson Fonseca (maestro Isoca), compôs a valsa “Rachelina”, em 1922, para a qual o poeta parauara João de Jesus Paes Loureiro escreveu um belo texto poético em 1996. Aliás, Rachel Peluso foi professora de piano do magistrado, Professor Emérito da  Unama, membro da Academia Paraense de Música e compositor Vicente Malheiros da Fonseca, em São Paulo, na década de 60, no Conservatório Musical “José Maurício”, por ela fundado e dirigido, em companhia de sua irmã Gioconda. Vicente lhe dedicou a “Valsa Santarena nº 39” (1992), executada em primeira audição mundial no concerto em homenagem ao centenário de nascimento da compositora santarena, em Montevidéu (Uruguai), em agosto de 2008, organizado pelo maestro e pianista uruguaio Julio César Huertas. E para Gioconda Peluso dedicou a “Valsa Santarena nº 41” (1994), também executada nesse concerto. Na Casa da Cultura de Santo Amaro (SP), existe a Sala Rachel Peluso. O ministro Cesar Peluso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, é sobrinho de Rachel e Gioconda Peluso. Todas essas histórias foram publicadas no jornal Uruá-Tapera em artigo de Vicente Fonseca intitulado “Temas e Variações sobre Rachel Peluso”, em maio de 2007 (leiam aqui).
Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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