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Bragança é daquelas cidades que começam a brilhar antes mesmo de a gente chegar. A estrada que leva até ela parece acender lembranças antigas, mesmo daquilo que a gente não sabe que guardou. O vento muda, o cheiro muda, o coração muda. A gente percebe que está entrando em outra vibração, em outro ritmo, em outro tempo.
Porque Bragança tem isso: ela acolhe antes de abraçar.

A Pérola do Caeté nunca se mostra de uma vez. Ela se revela aos poucos, como quem respeita o caminhar do visitante. Primeiro, o verde que parece mais verde. Depois, a luz que bate diferente nas casas antigas. E logo surgem os sons: o tambor distante, o passo firme, o chamado ancestral que anuncia dezembro, mês em que a cidade inteira se veste de azul, branco e vermelho para honrar São Benedito.
A Marujada, com sua dança que mistura devoção e resistência, é um espetáculo que não se assiste: se sente. É fé em movimento, é história viva, é identidade pulsando.

E Bragança segue desdobrando suas joias: o barro modelado pelas mãos hábeis, a arte que brota das ruas, a farinha amarela que é ouro quente, estalando no forno. A gastronomia daqui tem força própria, tem rio, tem sal, tem memória. Tem peixe fresco que parece conversar com a maré. Tem cupuaçu que perfuma a alma. Tem gente que carrega séculos nos gestos.

E é nesse lugar de tanta tradição que a vida, generosa e sábia, resolve me reencontrar.
Porque agora, tantos anos depois das minhas primeiras passagens por Bragança, eu volto com outro olhar.
Volto mãe de uma mulher adulta, uma mulher inteira: Manoella Octavia Leopoldina Maria, minha filha, minha médica, que hoje planta seus dias aqui.
Não nos corredores frios, mas nos caminhos humanos da cidade, cuidando de vidas bragantinas com ternura, com firmeza, com aquela doçura que só ela tem. Ela chega nas quartas, se acomoda, respira Bragança, e entrega presença, porque cuidar, para ela, sempre foi verbo de corpo inteiro.

E não é só Manoella que me liga novamente a esta cidade. Bragança me acolhe agora por outros braços, por outras histórias. Famílias que cruzam a minha, amizades novas que se abrem como portas antigas, gente que me recebe com verdade, com simplicidade, com aquele tipo de afeto que não se explica: só se agradece.
A vida é sábia nesses encontros, ela reconstrói caminhos quando a gente menos espera.

Por isso, cada vez que eu volto a Bragança, tenho a sensação de que piso num território que fala comigo.
Fala pela fé de São Benedito.
Fala pela dança da Marujada.
Fala pelo cheiro de farinha quente.
Fala pela doçura do povo.
E fala, sobretudo, por essa capacidade impressionante de fazer o coração da gente lembrar quem é, e quem pode ser.

E eu, agradecida, deixo que a vida me reencontre ali,
onde a fé desenha caminhos em azul, branco e vermelho,
onde a farinha reluz como ouro vivo no fogo,
e onde o amor, manso e certeiro,
faz morada no instante exato em que a alma reconhece casa.

Nalva Avertano-Rocha
Gastróloga, Bacharel em Direito, Especialista em Bolo de Rolo, criadora do Bolo de Rolo Amazônico, empreendedora à frente da Nalva Avertano-Rocha Gastronomia. Ministra cursos livres de gastronomia com foco na valorização da cultura amazônica. Natural de Altamira (PA), apaixonada por crônicas, poesia e pelos sabores da floresta. Corredora amadora em processo de superação e reinvenção.

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