Publicado em: 2 de janeiro de 2026
Um caso clínico raríssimo está obrigando a comunidade científica a rever certezas consolidadas sobre a doença de Alzheimer. Em 2022, neurologistas de uma clínica da memória ligada à Capital Medical University, na China, diagnosticaram um jovem de 19 anos com o que classificaram como “Alzheimer provável”, tornando-o o paciente mais jovem já descrito na literatura científica a preencher os critérios diagnósticos da doença sem mutações genéticas conhecidas associadas ao quadro. O estudo foi publicado pela primeira vez em dezembro daquele ano na revista científica Journal of Alzheimer’s Disease.
Tradicionalmente associada ao envelhecimento, a doença de Alzheimer afeta majoritariamente pessoas acima dos 65 anos. Casos de início precoce representam até 10% dos diagnósticos, e ocorrências em indivíduos com menos de 30 anos são extremamente raras. Quando surgem tão cedo, quase sempre estão ligadas a mutações genéticas hereditárias, configurando o chamado Alzheimer familiar. Não é o caso do adolescente chinês.
Os primeiros sinais surgiram por volta dos 17 anos. O jovem começou a apresentar dificuldades de concentração em sala de aula, problemas para ler textos simples e falhas recorrentes de memória recente. Com o passar do tempo, passou a esquecer acontecimentos do dia anterior e a perder objetos com frequência. O comprometimento cognitivo evoluiu de forma gradual, mas consistente, até o ponto de impedir a conclusão do ensino médio, embora ele ainda conseguisse manter certa autonomia na vida cotidiana.
Dois anos após o início dos sintomas, exames neuropsicológicos padronizados indicaram prejuízo significativo da memória. Testes de evocação imediata, memória de curto prazo e memória tardia mostraram desempenho drasticamente inferior ao de jovens da mesma faixa etária. Em termos percentuais, a pontuação global de memória foi 82% menor do que a média dos pares, enquanto a memória imediata ficou 87% abaixo do esperado.
Os exames de imagem confirmaram a gravidade do quadro. A tomografia por emissão de pósitrons associada à ressonância magnética revelou atrofia bilateral do hipocampo, estrutura cerebral essencial para a formação da memória, além de hipometabolismo nos lobos temporais, padrão frequentemente observado em pacientes com Alzheimer.
A análise do líquido cefalorraquidiano trouxe outro dado decisivo: níveis elevados da proteína p-tau181 e uma redução significativa da razão amiloide-β 42/40, dois biomarcadores clássicos associados à doença de Alzheimer. Esses achados, somados aos resultados clínicos e cognitivos, sustentaram o diagnóstico de Alzheimer provável.
O aspecto mais surpreendente do caso veio após o sequenciamento completo do genoma do paciente. Apesar da investigação minuciosa, os pesquisadores não identificaram nenhuma das mutações patogênicas conhecidas relacionadas ao Alzheimer de início precoce, como aquelas nos genes PSEN1, PSEN2 ou APP. Até então, o paciente mais jovem diagnosticado com Alzheimer tinha 21 anos e apresentava mutação no gene PSEN1, responsável pelo acúmulo de placas tóxicas no cérebro.
“Este é o caso mais jovem já relatado que atende aos critérios diagnósticos de Alzheimer provável sem mutações genéticas reconhecidas”, escreveram os neurologistas responsáveis pelo estudo. Para a equipe, o caso “altera a compreensão tradicional sobre a idade típica de início da doença”.
A ausência de histórico familiar, de doenças neurológicas prévias, infecções, traumatismos cranianos ou outras condições capazes de explicar o declínio cognitivo torna o caso ainda mais enigmático. Embora os especialistas ressaltem a necessidade de acompanhamento de longo prazo para confirmar definitivamente a evolução clínica, o consenso é de que se trata de um episódio que amplia (e complica) o entendimento sobre os mecanismos da doença.
Os autores sustentam que casos desse tipo devem ocupar lugar prioritário na agenda científica por revelarem lacunas importantes no conhecimento atual e apontarem que a investigação do Alzheimer em jovens tende a se ser um dos desafios mais complexos da pesquisa biomédica no futuro.









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