Publicado em: 10 de março de 2026
Osvaldo Sargentelli, radialista, apresentador de televisão e empresário brasileiro, que se autodefinia como “mulatólogo” e foi um dos grandes ícones da história do samba no Brasil (tanto que na data de seu aniversário é comemorado o Dia da Mulata) e alegrou as noites cariocas enquanto viveu, nos magníficos shows que apresentava na década de 70 na boate “Oba-Oba”, contava sempre que podia contava uma piada de gosto duvidoso (eu diria que péssimo gosto), mas que levava o público a não conseguir conter o riso.
Dizia ele que um médico, desses cuja sutileza se compara a uma jamanta desgovernada, entrava no quarto de um paciente em grave situação de saúde e foi direto ao assunto:
– Amigo, tenho duas notícias para lhe dar. Uma ruim e a outra pior…
– O enfermo, em desespero, indagou o que de tão ruim estaria acontecendo com ele.
– É que infelizmente, o senhor só tem 24 horas de vida…
– Meu Deus doutor! Existe notícia pior do que essa?
– Sim amigo, é que me eu esqueci de lhe dizer isso ontem!…
Essa situação fictícia, bolada pelo famoso apresentador para divertir seu público, é uma típica situação em que cabe, em sua inteireza, a expressão popular objeto do tema de hoje, que denota o acúmulo sequencial de infortúnios.
Ela significa que, após um fracasso, erro inicial, perda de prestígio, demissão do emprego, fracasso financeiro ou prejuízo (a queda), a pessoa ainda sofre uma consequência negativa adicional, desproporcional ou humilhante, espécie de golpe final que agrava sobremaneira uma situação por si já muito ruim (que é o coice). A metáfora demonstra que uma situação que poderia ser apenas passageiramente negativa, reveste-se de gravidade, às vezes até trágica, com o segundo revés sofrido logo em seguida pelo seu infeliz protagonista.
É induvidoso que tal expressão surgiu no meio rural, nas fazendas mineiras e paulistas do fim do segundo império, onde começava a despontar a atividade pecuária com alternativa ao plantio do café e da cana de açúcar.
Vaqueiros, jóqueis e quem já cavalgou ou cavalga com regularidade, tem pleno conhecimento de que ao eventualmente cai do cavalo, ainda corre o risco de, estando no chão, ser atingido pelo coice do animal, pincipalmente quando ele, embora manso, por algum motivo resta assustado ou indócil, tornando o acidente muito mais grave (para quem não sabe, o coice de um cavalo é poderoso, pois é capaz de gerar uma força superior a 2.000 libras por polegada quadrada, equivalendo a mais de uma tonelada de força em impacto, capaz de quebrar ossos, amassar metal e produzir ferimentos fatais ou muito graves.
Expressão tão corriqueiramente empregada por todo mundo, inclusive no contexto esportivo (como no futebol, por exemplo, “DEPOIS DA QUEDA, O COICE” se diz abertamente, como gozação, quando determinado time nada ganha no Brasileirão e ainda perde desastradamente o campeonato regional para o tradicional rival).
Na música brasileira, os Paralamas do Sucesso, célebre banda de rock brasileira formada em 1982 no Rio de Janeiro tendo como principais integrantes Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, não deixaram por menos e lançaram como mais um de seus muitos sucessos, a música com título similar – “Depois da Queda o Coice”, cuja estrofe inicial
“Hey na na na!”
Depois da queda, o coice
O selo do castigo
Pra uns só traz a foice
Pra outros traz alívio
Dançando toda a noite
Bem rente ao precipício
Depois de tanto açoite
A dor virou teu vício…
A referida expressão não chega ao status desmoralizando de uma outra, infinitamente mais cruel, que é “chutar cachorro morto”, traduzida como aquela situação em que alguém tripudia sem consideração ou piedade em cima de quem já está no fundo do poço e não tem meios para esboçar qualquer reação – mas sim, tem como foco o fato de que o infortúnio veio logo após o primeiro desastre, seja ela qual for ou de que tamanho for.
Em resumo, pode-se afirmar que essa máxima descreve uma situação vai de “mal a pior”, onde o problema inicial, por si já bastante grave, vem em seguida acompanhado de um castigo extra, como uma espécie de “bis in idem” que vitima qualquer pessoa, que ainda por cima fica com a fama de “rei da urucubada”, má sorte, “zica” ou energia negativa que persegue e não livra a cara de ninguém.
(*) CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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