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Eu escrevo e, ao escrever, já me imagino sendo lido como imagem, neste tempo em que somos letradas em uma complexa gramática de imagens. Você me lê e talvez também se veja refletido neste gesto. Entre nós há uma superfície luminosa. Ela, além de transmitir palavras, produz signos.

Chamamos de aesthetic aquilo que, em outras épocas, chamaríamos simplesmente de gosto. O termo contemporâneo carrega um excedente: ele designa um sistema de significação. No Instagram e no Pinterest, cada fotografia é menos um objeto e mais um enunciado. A mesa posta representa ordem. A luz natural sugere pureza. O minimalismo expressa autocontrole.

Eu olho uma sala em tons neutros e não vejo apenas móveis; leio um texto, uma gramática de imagens. Você também lê. Somos alfabetizados em imagens. O feed funciona como linguagem autônoma. O algoritmo atua como sintaxe invisível.

A vida instagramável constitui um mito no sentido barthesiano do termo: uma fala que naturaliza a cultura. A estética surge como espontânea, embora seja construída. Apresenta-se como pessoal, embora opere por códigos. Manifesta-se como expressão individual, enquanto dialoga com repertórios coletivos. A escolha íntima circula como signo social.

Eu organizo minha mesa antes de fotografá-la. Nesse gesto há uma dupla operação: produzo um cenário e produzo um significado. A xícara ao lado do livro comunica concentração. A planta ao fundo indica sensibilidade. O silêncio enquadrado sugere equilíbrio. Cada elemento funciona como palavra em uma frase visual.

Você percebe como o consumo entra nessa cadeia? O objeto adquire valor semiótico. A cadeira comunica pertencimento a uma estética. A viagem expressa intensidade existencial. O corpo encena disciplina. Comprar torna-se também inscrever-se em uma narrativa. O mercado compreendeu que vende signos junto com produtos.

A superexposição amplia a visibilidade e intensifica a significação. Cada gesto publicado converte-se em texto interpretável. A intimidade transforma-se em texto. O eu fragmenta-se em imagens que circulam de maneira autônoma. A fotografia fixa um instante e o transforma em evidência: isto foi, isto sou.

Há, contudo, algo que pulsa além da moldura.

Interrompo o fluxo do conceito e proponho uma cena.

Imagine uma fotografia perfeita: luz suave, café fumegante, livro aberto, silêncio organizado. Fora do enquadramento, alguém chora na cozinha. A imagem permanece harmoniosa. O mito mantém sua eficácia. O signo circula com fluidez. A emoção intensa segue seu curso em outra camada da experiência.

Nessa fissura, o sistema revela sua lógica seletiva. Ele organiza, recorta, destaca. O mito simplifica para tornar legível. O que permanece fora do campo visual continua existindo com densidade própria, ainda que não participe da circulação estética.

Barthes chamaria de punctum o detalhe que fere o olhar. Hoje, o punctum pode ser o deslocamento sutil, a rachadura fora do centro, a respiração irregular antes da pose, o cansaço depois do treino exibido, o silêncio entre duas notificações. Ali a vida reaparece com espessura.

Eu falo com você e reconheço nossa participação nesse jogo. Escolhemos ângulos. Ajustamos luz. Curamos a própria biografia. Não existe exterior absoluto ao sistema de signos; existem graus de consciência e modos de habitação.

A tarefa consiste em reinscrever a imagem na complexidade da experiência. Produzir estética e preservar profundidade. Publicar e, ao mesmo tempo, cultivar zonas de interioridade. Habitar o signo e proteger o indizível.

Nenhuma galeria contém o texto inteiro de uma vida. A imagem expressa. O silêncio também expressa. O sujeito, atravessado por signos e segredos, expande-se além da moldura.

No entanto, ao redor da cena curada, o que resiste à moldura é a vibração irregular de uma geladeira e um copo de requeijão com resto de água sobre a mesa. São objetos que recusam a função de signo; existem apenas em sua crueza material, marcados por manchas de gordura e o cheiro persistente de um cotidiano que nenhuma luz natural consegue higienizar. Nessa fissura, o cansaço não é “melancolia charmosa”, mas o peso real das pálpebras e o ranger de uma cadeira desconfortável.
É o intervalo onde a vida acontece sem audiência: um gesto desajeitado, um suor que incomoda e a liberdade de ser apenas densa imperfeição, muito além de qualquer legenda ou enquadramento.
Entre o que mostramos e o que somos há um intervalo. Esse intervalo constitui o espaço do sujeito. Ali respiramos sem legenda. Ali a experiência recupera espessura.

Talvez o gesto mais lúcido em tempos de estética contínua seja reconhecer que a vida acontece fora da curadoria da tela e permitir que esse excesso aconteça fora do feed, com liberdade.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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