Publicado em: 19 de janeiro de 2026
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, um dos mais relevantes movimentos recentes do comércio internacional, prevê a redução gradual de tarifas, a harmonização de regras e a facilitação do acesso de produtos dos dois blocos aos seus respectivos mercados, novas condições para exportações, investimentos e integração produtiva. E cria a maior zona de livre comércio do mundo, reunindo 718 milhões de consumidores e movimentando cerca de US$ 22 trilhões em trocas comerciais.
No Pará, que tem perfil exportador, o acordo tende a produzir impactos significativos a médio e longo prazo. Em 2025, o Estado exportou cerca de US$ 4 bilhões para a União Europeia, crescimento de 10,84% em relação ao ano anterior, com o que assumiu a quarta posição entre os estados brasileiros exportadores para o bloco, com 8,04% de participação nacional.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará, Alex Carvalho, avalia que a redução tarifária amplia a competitividade dos produtos paraenses no mercado europeu, especialmente nos segmentos de mineração, agronegócio e agroindústria, além de abrir espaço para bens com maior valor agregado. Minérios, soja e ferro-níquel estão entre os itens com maior potencial de ganho, mas a expectativa é de que a pauta se torne mais diversificada ao longo do tempo.
O acordo também traz desafios. A entrada de manufaturados europeus com menos impostos pode pressionar setores industriais menos competitivos no mercado interno. Acerca dessa possibilidade, Carvalho acredita que o risco é mitigado pelo perfil atual da indústria paraense, ainda pouco exposta à concorrência direta com bens finais produzidos na Europa. Mais do que ameaça, o tratado pode funcionar como um indutor de modernização, desde que acompanhado por políticas de inovação, financiamento e qualificação produtiva.
“Um dos exemplos mais simbólicos desse novo cenário está na cadeia do cacau e do chocolate. O Pará é o maior produtor de cacau do Brasil e vem consolidando uma indústria local de chocolates finos. Com o acordo, produtos europeus tendem a chegar mais baratos ao mercado brasileiro, aumentando a competição. Por outro lado, abre-se a possibilidade de o chocolate paraense, com identidade amazônica, rastreabilidade e apelo socioambiental, acessar o mercado europeu com menos barreiras, especialmente em nichos premium”, acentua o presidente da Fiepa.
Outro ponto estratégico é a redução de tarifas para bens de capital, como máquinas e equipamentos. No ano passado o Pará importou da União Europeia insumos industriais, produtos químicos e itens essenciais à mineração e à indústria de transformação. Com a queda de custos para aquisição de tecnologia europeia, a expectativa é de ganhos em eficiência, redução de custos de produção, modernização de processos e até melhorias ambientais em setores como mineração, metalurgia, alimentos, móveis e bioindústria.
“Além do minério, outros produtos da pauta paraense podem ganhar competitividade com a abertura do mercado europeu. Carne certificada; soja, que cresceu 28% nas exportações para a UE entre 2024 e 2025; e açaí podem se destacar entre os segmentos com maior potencial de expansão”, explica Alex Carvalho, enfatizando que o acordo Mercosul–União Europeia cria uma janela estratégica para que o Pará avance não apenas em volume exportado, mas principalmente em qualidade, valor agregado e inserção em cadeias globais de valor – desde que acompanhado de investimentos em setores primordiais, como a infraestrutura e logística. O aproveitamento pleno deste cenário, porém, depende de articulação entre setor produtivo, poder público e instituições de apoio, de modo que a indústria paraense esteja preparada para competir, inovar e ocupar novos espaços no mercado internacional.









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