Publicado em: 8 de fevereiro de 2026
Talvez você também tenha sentido asco e vertigem moral ao acompanhar a abertura da caixa de Pandora dos documentos ligados ao caso Jeffrey Epstein. Surge a sensação de estar diante de algo ao mesmo tempo chocante e estranhamente familiar. Esse efeito remete a um padrão antigo: a tendência de transformar o horror da história em geografia do horror.
O mal, no imaginário coletivo, quase sempre ganha um endereço. No início do século XX, por exemplo, a pequena cidade siciliana de Cefalù entrou para o folclore europeu do escândalo por abrigar a Abadia de Thelema, fundada por Aleister Crowley. O lugar passou a ser descrito como templo de libertinagem, laboratório de abusos, enclave onde regras comuns da moral e do direito pareciam suspensas. Mais do que os fatos, muitos inflados e outros mal compreendidos, prosperou a imagem do lugar: um território simbólico onde o mal teria residência fixa.
Décadas depois, a ilha associada a Epstein cumpre função semelhante. O debate público se organiza em torno de um espaço delimitado, quase se o horror precisasse de coordenadas geográficas para ser concebido. A distância física oferece um conforto moral sutil: ao situar o mal numa ilha, cria-se a impressão de que ele habita fora do espaço comum.
Essa necessidade de localizar o intolerável fora do mundo ordinário revela mais sobre a dificuldade de reconhecê-lo enquanto parte de estruturas sociais contínuas. Nesse ponto, a reflexão de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal retorna com força. O horror surge frequentemente por meio da rotina, operando com discrição administrativa.
A exploração infantil aparece então como uma arquitetura moral sustentada por omissões institucionais sucessivas. Cada silêncio social funciona como um tijolo, cada relativização da violência sustenta uma viga, cada autoridade que escolhe desviar o olhar ergue uma parede. O resultado assume a forma de uma construção coletiva onde o intolerável se estabiliza enquanto paisagem. O escândalo emerge quando alguma fissura expõe aquilo que sempre esteve presente. Em resposta, a sociedade tende a reparar a rachadura e preservar o edifício.
A imprensa privilegia incêndios: labaredas altas, fumaça espessa, indignação em tempo real. Em seguida restam cinzas frias e a impressão confortável de que o mal foi localizado, fotografado e arquivado. Certos fenômenos pertencem a outra ordem. Eles se organizam segundo a lógica dos pântanos. A exploração sexual de crianças se desenvolve por fermentação lenta.
Em determinados momentos, o pântano recebe um nome próprio. Pode ser o sobrenome de um financista cercado por tapeçarias acadêmicas e convites filantrópicos, ou o nome de uma ilha que passa a representar o lado obscuro de uma nação que prefere se imaginar solar. A opinião pública, atraída por narrativas grotescas com personagens definidos, fixa-se no nome enquanto sintoma visível. Surge então a esperança mágica: ao atribuir um rosto ao horror, o espelho perde relevância.
A tentação recorrente envolve a figura do monstro. O monstro tranquiliza. Ele opera enquanto exceção que confirma a regra, desvio que preserva a norma, erro que absolve o sistema. A história humana, repleta de permanências disfarçadas de novidades, aponta em outra direção. A exploração de corpos vulneráveis integra a engrenagem da civilização moderna enquanto peça silenciosa.
Esse impulso pode receber um nome: imaginação teratológica. A teratologia, em sua origem, estudava corpos considerados monstruosos, anômalos, fora da ordem natural. No plano moral e político, essa lógica persiste enquanto hábito simbólico: certos agentes e certos lugares assumem a figura do monstro para serem isolados do tecido comum da vida social. A Ilha do Doutor Moreau, de Wells, oferece um exemplo literário dessa operação: um espaço onde o monstro assusta e tranquiliza ao mesmo tempo, pois encarna o mal enquanto exceção visível, desvio grotesco que reafirma a suposta saúde da norma. Ao enquadrar a violência extrema nessa moldura, a pergunta mais perturbadora perde centralidade: quais arranjos ordinários tornam sua ação possível, tolerável e repetível?
É nesse ponto que a comparação entre Epstein e a Ilha do Marajó, no Pará, revela continuidade de lógica e variação de cenografia.
No caso associado a Epstein, a violência circulava por salões, universidades, fundações e cabines de aviões privados. A exploração adotava traje social completo, participava de jantares beneficentes e frequentava ambientes consagrados pela imaginação coletiva enquanto ápice da cultura.
Nas denúncias históricas ligadas ao Marajó, o cenário apresenta rios largos, pobreza crônica e ausência efetiva do Estado. O poder chega de forma esporádica e difusa. À primeira vista, surgem dois universos morais distintos: a elite global e populações invisibilizadas.
Essa oposição permanece na superfície. O elo entre esses cenários se estabelece por meio da mesma equação elementar: vulnerabilidade convertida em recurso. Em contextos de riqueza, a exploração adota a linguagem da cumplicidade elegante e da blindagem institucional. Em contextos de miséria, ela se apoia na escassez de alternativas e na normalização da violência. Em ambos os casos, crianças assumem o papel de moeda de troca em sistemas treinados para tratar a fragilidade humana enquanto matéria-prima.
No plano jurídico, o consenso formal já existe. A Convenção sobre os Direitos da Criança afirma a proteção integral da infância. O Protocolo de Palermo descreve com precisão os mecanismos do tráfico e da exploração. No plano normativo, a linguagem da dignidade universal predomina. Na prática, prevalece o dialeto flexível da conveniência política.
Esse paradoxo marca a modernidade: produção abundante de textos sobre dignidade humana acompanhada por engenhosidade crescente na terceirização de sua violação.
Didier Fassin contribui para a compreensão desse cenário ao demonstrar a distribuição desigual da comoção moral. Certas vidas mobilizam escândalo imediato; outras se integram ao ruído de fundo da normalidade. A responsabilidade se dilui por meio de arranjos sociais de legitimação que tornam a violência tolerável e administrável. A autoria do horror se dissolve em circuitos coletivos. A exploração infantil depende tanto de predadores ativos quanto de uma vasta comunidade de distraídos morais, especialistas em desatenção ética.
Essa economia da indiferença prepara o terreno para uma suspensão profunda do reconhecimento. Axel Honneth descreve esse processo por meio do conceito de reificação. A exploração sexual de uma criança realiza uma operação simbólica extrema: a transformação de um sujeito em objeto, de uma biografia em utensílio, de uma promessa de futuro em mercadoria de uso imediato. O objeto, nesse caso, ainda se encontra em formação.
Por essa razão, a infância, celebrada em discursos sentimentais e campanhas publicitárias, revela-se uma categoria condicional. A proteção surge em contextos de conveniência e desaparece em contextos de lucro. Quando a violência envolve figuras poderosas, a comoção pública emerge da fratura de uma ilusão: a associação automática entre prestígio e ética. Quando atinge populações marginalizadas, a reação tende à morna aceitação. Certas vidas ocupam posição periférica até mesmo na geografia da compaixão.
O combate restrito aos indivíduos expostos no noticiário equivale à poda de galhos com instrumentos refinados, enquanto as raízes permanecem intactas. A resposta exigida pelos direitos humanos segue outro caminho: redução de desigualdades estruturais, fortalecimento de redes de proteção, responsabilização de agentes poderosos, ruptura de pactos de silêncio e enfrentamento da demanda que sustenta o mercado da exploração.
Essa resposta envolve uma mudança cultural desconfortável. Ela exige o abandono do eufemismo do monstro isolado e a aceitação de que o problema habita as zonas de penumbra da normalidade social.
Talvez a perplexidade central do nosso tempo resida nesse ponto. Em uma era que se orgulha de sua consciência ética global, permanece a necessidade de reafirmar o elementar: a transformação de uma criança em objeto produz uma fratura na própria ideia de humanidade. Enquanto o olhar permanecer fixado no espetáculo dos escândalos, os mecanismos que os sustentam continuarão operando em silêncio.
E, enquanto isso, o pântano seguirá seu trabalho paciente de fermentação.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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