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“Clima de Copa do Mundo” talvez seja uma das pouquíssimas coisas que unificam o Brasil, uma definição máxima de um ambiente de felicidade. Não importam os problemas, as crises, o Campeonato Mundial da Fifa virou sinônimo de época em que é completamente normal e aceitável desligar-se da realidade e torcer pela seleção de futebol. E, vejam bem, não falo isto em tom de crítica. Apenas uma constatação. Uma vivência desde a mini-Gabi que, de cara, viu o tetra, chorou quatro anos depois com o não-penta, juventizou-se vivendo uma Copa na Alemanha e, mesmo não ligando muito para futebol, passou uma vida inteira parando naquele momento, a cada quatro anos, para torcer pelo Brasil como se não houvesse amanhã.

Mas a verdade é que, desde o Catar, em 2022, muito mudou. Como dissociar futebol de política quando praticamente toda as organizações envolvidas obedecem a interesses escusos aos quais o esporte per se parece não vir em primeiro lugar? Foi ok desfrutar do show quando sua estrutura foi construída a base do sangue da exploração humana? Como fica a consciência ao gerar renda para os Estados Unidos, o país que mais cria guerras no globo terrestre e que, ainda por cima, destrata e maltrata atletas, equipes técnicas, árbitros, torcedores?

E aí vem o pior para quem, como eu, ama alienar-se durante 90 minutos e vibrar aos berros pelo Brasil: como torcer de coração cheio por uma seleção brasileira que rodopia em torno de uma figura como Neymar, que claramente prioriza os milhões lucrados com as bets, responsáveis pela destruição de vidas de tantos, e que defende tanta coisa execrável – inclusive banca parças acusados de estupro? Como torcer com afinco para Portugal, o país que adotei também como meu, quando a seleção portuguesa age no mesmo rodopiar em torno de um só jogador – Cristiano Ronaldo, no caso, que é declaradamente apoiador de Donald Trump?

Muitos dirão que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu tenho uma certa inveja de quem consegue separar as bolas. Não consigo torcer exatamente contra, mas gostaria muito de conseguir apoiar cegamente a seleção brasileira e não passar por esta Copa com este sentimento de “não estou muito aí”. Gostaria de que meu país tivesse como o seu grande ídolo da seleção uma figura que eu admirasse tanto os posicionamentos como os do capitão da seleção francesa, Kylian Mbappé. Gostaria que o grande ídolo do meu país fosse uma figura que eu admirasse tanto as ações como as do atacante senegalês Sadio Mané. Gostaria de ter mais momentos de orgulho além da citação do meu conterrâneo Sócrates e a Democracia Corinthiana pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.

Hoje tem jogo e eu vou ver, claro. Sem grandes festas, em família, com meu gato humano e minha pessoa felina. Tristemente, talvez só não fique completamente feliz se atropelarem o tal do neymala porque o jogo não é contra um país do Sul Global. Não, não consigo separar as bolas, não dá. Felizmente, ainda tenho uma certa esperança de que nossa seleção superará ele e outras figuras, mostrando que o Brasil é muito, muito mais. Como futebol, como esporte, como país. Torceremos. Agora, passar pano, jamais.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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