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Dizem que o Criador, em um instante de absoluta generosidade e silêncio, decidiu que a música precisava de uma morada definitiva na Terra. Para abrigá-la, não escolheu os gélidos palácios de mármore da Europa, nem as luzes ofuscantes das metrópoles; preferiu o barro de Três Pontas, o mistério insondável das ladeiras de Minas Gerais e a pele retinta de um menino que trazia o sol nos olhos. Milton Nascimento, nosso Bituca, transcende a condição de artista: ele é um milagre brasileiro, uma manifestação do sagrado que se fez som para que pudéssemos suportar o peso da existência. Elis Regina, com a intuição dos profetas, foi quem primeiro decifrou o enigma ao sentenciar, entre lágrimas que ainda ecoam na memória do país, que aquela era a “voz de Deus”. E nós, que atravessamos décadas sob o manto de suas melodias, sabemos não haver qualquer exagero naquelas palavras. Somos seus devotos, fiéis de uma paróquia sem paredes, onde o altar é a própria canção e o sopro do espírito é o arrepio que nos percorre a espinha quando sua garganta se abre para o infinito.


O portal para esse templo abriu-se em 1967, quando o Brasil ouviu, pela primeira vez, o toque de clarim de Travessia. Mais do que uma canção feita para vencer um festival, aquilo ecoou como um chamado, um convite urgente para abandonar a margem segura e mergulhar no rio profundo da alma humana. “Solto a voz nas estradas, já não posso parar”, cantava ele, e, naquele instante, o tempo suspendeu seu curso. Aqueles acordes não marcavam somente o início de uma carreira, mas a pedra fundamental de uma nova geografia espiritual. Milton nos ensinou que a dor não é um fim, mas uma ponte; que “viver é o que é”, mas que a beleza permanece como a única força capaz de consertar o que o mundo quebrou. Naquela interpretação histórica, a voz de Bituca não saía apenas de seus pulmões; parecia brotar do centro da terra, carregando o peso das montanhas e a leveza das nuvens de Minas, num diálogo direto e sem intermediários com o eterno.


Ao chegarmos a 1972, o milagre multiplicou-se. O Clube da Esquina ergueu-se como uma comunhão, uma missa celebrada em plena calçada por jovens que viam na amizade a forma mais pura de resistência. Ao lado de Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges, Toninho Horta e Fernando Brant, Milton erigiu uma catedral sonora onde o barro mineiro se fundia ao brilho dos Beatles e à sofisticação do jazz. Ali, nas esquinas de Santa Tereza, o mundo descobriu que a música brasileira podia ser, a um só tempo, telúrica e universal. É o que se consagra na melodia sem palavras de Clube da Esquina Nº 2, um hino instrumental que transcende a linguagem e sela a criação do movimento coletivo de maior impacto em sua trajetória artística. Canções como Cais tornaram-se portos seguros para uma geração à deriva. Em Cais, Milton inventou a esperança onde só havia neblina, transformando o desejo lancinante de partir em uma oração de chegada. “Onde a gente e a natureza se entendem”, sussurrava, e nós compreendíamos que a música era o único território onde a liberdade ainda reinava plena.


Mas o evangelho de Bituca também conheceu o deserto e o silêncio imposto. Em 1973, sob o peso sufocante da ditadura, nasceu Milagre dos Peixes. Foi o momento sombrio em que a palavra foi amordaçada, mas a alma se recusou a calar. Diante da censura que mutilava suas letras, Milton respondeu com a nudez visceral do próprio grito. Cantou o indizível, transformando a voz num instrumento de dor e transcendência, imune às tesouras do autoritarismo. Era a resistência em estado puro, o milagre de fazer o peixe respirar no seco. Cada vocalize cortava como navalha, cada falsete era um voo altivo sobre as grades da opressão. Ali, Milton provou que a arte verdadeira é inalcançável pela tirania; converteu o silêncio forçado numa sinfonia de fúria e beleza, atestando que a luz, mesmo sob o manto da noite mais escura, sempre encontra uma fresta para brilhar.


Nessa jornada mística, Milton nunca caminhou sozinho; foi o centro de gravidade de uma constelação de gênios. O Som Imaginário, com a arquitetura onírica de Wagner Tiso, deu a Bituca o alicerce para tocar as estrelas. Tiso, mestre dos teclados e das harmonias insuspeitas, atuou como o grande tradutor dos sonhos de Milton para a linguagem dos homens. E o que dizer do pulsar ancestral de Naná Vasconcelos? Com sua percussão que parecia extraída do coração úmido das florestas, Naná conferiu às canções um transe tribal e cósmico, conectando o chão de Três Pontas ao infinito do universo. Juntos, forjaram uma sonoridade que não pertence a um gênero catalogável, mas a um estado de espírito — uma música que respira, sangra e cura.


E houve as sacerdotisas, as mulheres que emprestaram suas vidas para que o evangelho de Milton fosse pregado em todas as direções. Elis Regina não apenas cantou Milton; ela o devorou. Quando entoava Maria, Maria, não estava apenas executando uma melodia; invocava a força ancestral de todas as mulheres que “possuem a estranha mania de ter fé na vida”. Elis transformou as composições do amigo em hinos de guerra e afeto, elevando a obra a uma dimensão de catarse. Já Nana Caymmi trouxe a profundidade das águas escuras. Nana não canta Milton; ela o sofre, o sangra e o redime. Em sua voz, as canções de Bituca ganham uma densidade abissal, como se o mar da Bahia invadisse as montanhas de Minas num abraço tempestuoso e definitivo. Ouvir Nana cantar Milton é testemunhar um encontro de almas que já se conheciam muito antes de o tempo existir.


A canção Beatriz, fruto da parceria magistral de Edu Lobo e Chico Buarque para O Grande Circo Místico, representa talvez o ápice da elevação vocal dessa trajetória. Na interpretação de Milton, Beatriz deixa de ser uma personagem para transmutar-se na própria encarnação da beleza inalcançável. “Será que é de louça? Será que é de éter?”, ele pergunta, e sua voz flutua como se suspensa por fios invisíveis de luz. É uma chamada para o divino, o instante exato em que a música se desmaterializa e nos deixa desarmados diante do mistério. Da mesma forma, O Que Será (À Flor da Pele), em dueto com Chico, captura a tensão existencial de um país e de um coração em chamas. É o som do desejo que não cabe no peito, da pele que queima, da vida que insiste em brotar rasgando o asfalto.


Quando o Brasil finalmente voltou a respirar os ares da democracia, a voz de Milton assumiu o papel de hino da nossa liberdade reencontrada. Coração de Estudante ergueu-se como o grito entalado de um povo que redescobria sua dignidade. Ao lado de Wagner Tiso, Milton transmutou a dor pela perda de um amigo num símbolo inabalável de esperança. “Há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto”, lembrava-nos, e cada brasileiro sentia aquele coração batendo dentro do próprio peito. Milton tornou-se a sentinela da nossa incipiente democracia, o guardião dos nossos sonhos mais caros, o artista que, ao lado de Caetano, nunca nos permitiu esquecer que “qualquer maneira de amor vale a pena”.


O reconhecimento internacional serviu apenas como confirmação do que, intimamente, já sabíamos. De Quincy Jones a Björk, de Wayne Shorter a Herbie Hancock, o mundo curvou-se diante da inventividade vertiginosa de Bituca. A prova irrefutável dessa universalidade veio com Ponta de Areia (1975), que mostrou sua capacidade ímpar de fundir a música brasileira ao jazz global, imortalizada na gravação antológica com o lendário saxofonista norte-americano Wayne Shorter. Quincy Jones, arquiteto do pop mundial, reconheceu em Milton um mestre sem paralelos, um músico que não seguia regras simplesmente por ser, ele próprio, a regra. Mas, a despeito de toda a glória sob os holofotes de Montreux ou Nova York, Milton nunca deixou de ser o menino de Minas. Sua grandeza reside justamente nessa humildade monumental, na capacidade de ser, a um só tempo, um deus da música e o amigo afetuoso que nos estende a mão numa tarde de domingo. Ele é o sol radiante que ilumina nossas sombras, o trem azul que atravessa nosso peito, o caçador de mim que nos ensina, pacientemente, a buscar a verdade dentro de nós mesmos.


Hoje, ao contemplarmos a vastidão da trajetória desse homem, percebemos que o seu evangelho é, acima de tudo, o da fraternidade. Em Nos Bailes da Vida (1981), ele resume sua reverência sagrada aos músicos de estrada e crava o lema definitivo de sua missão: “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Milton nos ensinou que “amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito”, e, em retribuição, ele guardou o Brasil inteiro no seu. Sua obra é um testamento inquebrantável de fé na humanidade, um lembrete de que, apesar das travessias difíceis, a música sempre nos levará de volta para casa. Milton Nascimento é o nosso ponto de encontro, o altar onde a dor se transfigura em beleza e o silêncio se converte em oração. Ele é o milagre que aconteceu entre nós, a prova viva e pulsante de que a perfeição existe, e que ela tem a cor da noite e o som do amanhecer.


Que as futuras gerações saibam que tivemos o privilégio de viver no tempo de Milton. Que saibam que ouvimos a voz do sagrado traduzida por sua garganta incandescente. Que saibam que, quando o mundo parecia desabar, tínhamos as canções de Bituca para nos manter de pé. Somos seus devotos, e o nosso culto é o da beleza, da amizade e da liberdade. O evangelho segundo Bituca não termina com um ponto final; continua ecoando em cada ladeira de Minas, em cada onda do mar, em cada coração que ainda se atreve a sonhar. Porque, enquanto houver uma voz que se levanta nas estradas, Milton Nascimento estará lá, guiando nossa travessia com a luz eterna e inabalável de seu canto.


Referências


Bibliografia
BORGES, Márcio. Os Sonhos Não Envelhecem: Histórias do Clube da Esquina. São Paulo: Geração Editorial, 1996.
DOLABELA, Marcelo. ABZ do Rock Brasileiro. São Paulo: Estrela do Sul, 1987.
ECHEVERRIA, Regina. Furacão Elis. São Paulo: Globo, 2002.
NASCIMENTO, Milton; BRANT, Fernando. Travessias: A Poética de Milton Nascimento. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
TISO, Wagner. A Harmonia das Montanhas: Memórias Musicais. Rio de Janeiro: Record, 2015.
ZAPPA, Regina. Milton Nascimento: Letras, Histórias e Canções. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.


Discografia
ELIS REGINA. Falso Brilhante. Rio de Janeiro: Philips, 1976. (Contém a antológica Maria, Maria).
LOBO, Edu; BUARQUE, Chico. O Grande Circo Místico. Rio de Janeiro: Som Livre, 1983. (Contém Beatriz, por Milton).
NASCIMENTO, Milton. Travessia. Rio de Janeiro: Codil, 1967.
NASCIMENTO, Milton. Milagre dos Peixes. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1973.
NASCIMENTO, Milton. Minas. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1975. (Contém Ponta de Areia).
NASCIMENTO, Milton. Geraes. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1976. (Contém O Que Será (À Flor da Pele)).
NASCIMENTO, Milton. Caçador de Mim. Rio de Janeiro: Ariola, 1981. (Contém Nos Bailes da Vida e Caçador de Mim).
NASCIMENTO, Milton. Ao Vivo. São Paulo: Barclay, 1983. (Contém Coração de Estudante).
NASCIMENTO, Milton; BORGES, Lô. Clube da Esquina. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1972. (Contém Cais e Clube da Esquina Nº 2).



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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