Publicado em: 1 de junho de 2026
Para muitas pessoas, o peso corporal ainda é tido como o principal indicador de emagrecimento e de saúde. No entanto, a fisiologia do exercício e a prática clínica mostram que a balança, isoladamente, possui capacidade muito limitada para representar o que realmente acontece no organismo. O peso total do corpo é a soma de diversos de componentes e alterações importantes na composição corporal podem ocorrer sem mudanças expressivas nos números mostrado pela balança.
Na prática, duas mulheres com o mesmo peso podem apresentar composições diferentes. Uma pode possuir maior quantidade de massa muscular e menor percentual de gordura, enquanto outra pode apresentar menor massa magra e maior acúmulo adiposo. O peso total, por si só, é incapaz de distinguir essas diferenças.
O tecido muscular e o tecido adiposo possuem características metabólicas e funcionais distintas. O adiposo (gordura corporal) possui função metabólica ativa, produz substâncias inflamatórias e participa da regulação hormonal e energética do organismo. Quando em excesso, pode aumentar riscos metabólicos e inflamatórios. Já o tecido muscular, além de produzir força e estabilidade fundamentais na proteção estrutural do corpo, ele melhora a utilização de glicose e gordura como fonte de energia, contribuindo para maior eficiência metabólica.
Outro ponto frequentemente negligenciado é que o início de uma rotina de exercícios físicos pode produzir mudanças pouco visíveis na balança, apesar de adaptações fisiológicas relevantes já estarem acontecendo. Mulheres que iniciam treinamento resistido frequentemente apresentam melhora da retenção intracelular de água e aumento do armazenamento de glicogênio muscular, fenômenos fisiológicos esperados durante o processo adaptativo. Isso explica por que a disposição melhora e a força aumenta antes de ocorrer alteração expressiva do peso corporal.
A literatura científica atual reforça que a prática regular de exercício físico, especialmente a combinação entre treinamento resistido e exercícios aeróbicos, promove melhora significativa da composição corporal feminina, mesmo quando a perda de peso não é elevada. Estudos demonstram que o exercício é eficaz para reduzir gordura corporal, preservar ou aumentar massa muscular e melhorar parâmetros metabólicos importantes para saúde ao longo da vida.
Além da estética, a composição corporal possui impacto direto sobre funcionalidade e envelhecimento. A preservação de massa muscular está associada à redução de risco de sarcopenia, melhora da capacidade funcional, proteção articular e manutenção da autonomia física com o avançar da idade. Isso é particularmente importante para mulheres, especialmente as de meia idade, período em que a perda natural de massa muscular tende a acelerar quando não existe estímulo físico adequado ou quando esse estímulo não é o suficiente para provocar as adaptações necessárias. O exercício físico, em “doses” certas, nesse contexto, atua não apenas como ferramenta estética, mas como estratégia de promoção de saúde ao longo dos anos.
Por isso, reduzir a avaliação dos resultados apenas ao peso corporal é uma interpretação muito simplificada de um processo fisiológico complexo. O organismo humano não se torna saudável apenas “pesando menos”, mas sim melhorando a função muscular, a eficiência metabólica, a capacidade cardiovascular e a qualidade estrutural do corpo. Muitas das mudanças mais importantes inicialmente não aparecem na balança. No entanto, aparecem na energia diária, na redução de dores, na melhora da postura, na qualidade do sono e na disposição.
Compreender isso tem o poder de mudar a relação com o exercício físico. A prática de atividade física deixa de ser uma tentativa de reduzir números na balança e passa a ser uma construção progressiva de saúde, funcionalidade e composição corporal desejável. E é justamente essa adaptação fisiológica contínua que torna o exercício físico a ferramenta mais segura para melhorar tanto a estética, quanto a funcionalidade do corpo, correspondendo positivamente às exigências da vida real.
Referências:
Isenmann, Eduard et al. “Resistance training alters body composition in middle-aged women depending on menopause – A 20-week control trial.” BMC women’s health vol. 23,1 526. 6 Oct. 2023, doi:10.1186/s12905-023-02671-y
Khalafi, Mousa et al. “The effects of exercise training on body composition in postmenopausal women: a systematic review and meta-analysis.” Frontiers in endocrinology vol. 14 1183765. 14 Jun. 2023, doi:10.3389/fendo.2023.1183765
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




Comentários