0
 

Byung-Chul Han e o Adoecimento Psíquico do Sujeito Contemporâneo 

A transição de época que define o nosso tempo não se anuncia pelo estrondo das armas, pela coerção das grades ou pela imposição do silêncio, mas pelo zumbido ininterrupto, sedutor e ensurdecedor da hiperprodutividade. O sujeito contemporâneo encontra-se à deriva em um oceano de luzes sem sombras, exausto, consumido por uma ansiedade crônica e por um sentimento perene de insuficiência. Contudo, essa asfixia da alma não deriva de uma força repressora externa, de um soberano que o subjuga ou de um Estado que o amordaça. O algoz de nosso século habita o próprio espelho. O adoecimento psíquico contemporâneo nasce de uma compulsão internalizada, de uma voracidade pela performance e pela visibilidade absoluta que devora o sujeito por dentro. A negatividade — o silêncio, a pausa, o tédio profundo, o segredo, o luto e a alteridade — foi sumariamente abolida do tecido social. Em seu lugar, ergueu-se o império de uma positividade coercitiva, uma ditadura do “sim” que não tolera a hesitação.

Para compreender a ontologia desse esgotamento, é imperativo mergulhar na cartografia filosófica de Byung-Chul Han, cuja obra, inaugurada de forma fulminante com A Sociedade do Cansaço, oferece o diagnóstico mais agudo das patologias do nosso tempo. Han nos convida a reconhecer que abandonamos o paradigma imunológico — que marcou o século XX, a Guerra Fria e as fronteiras rígidas entre o “dentro” e o “fora”, o “amigo” e o “inimigo” — para adentrarmos o paradigma neuronal. As doenças que nos assolam hoje, como a depressão, o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), o transtorno de personalidade borderline (TPB) e a Síndrome de Burnout, não são infecções causadas por um corpo estranho, por um vírus ou por um “outro” que invade o sistema. Elas são, fundamentalmente, infartos da alma provocados pelo excesso de positividade. É a superabundância do idêntico, a proliferação do “mesmo”, que leva o sistema nervoso ao colapso. O excesso de estímulos não gera uma resposta imunológica, mas um esgotamento sistêmico; a alma não luta contra um invasor, ela se afoga em sua própria plenitude.

Deixamos para trás a sociedade disciplinar magistralmente descrita por Michel Foucault. Aquele mundo de hospitais, prisões, quartéis e fábricas, regido pela ortopedia dos corpos e pelo verbo modal do “dever”, cedeu lugar a uma nova arquitetura de controle. Adentramos a sociedade do desempenho, cujos templos são as academias de ginástica, as torres de escritórios espelhados, os laboratórios de otimização genética e os perfis imaculados das redes sociais. Nessa nova ordem, o verbo modal não é mais o “dever”, mas o “poder”. O grito de guerra do sujeito contemporâneo é o “nada é impossível”, o Yes, we can que, sob o verniz da liberdade absoluta, esconde a mais cruel das coerções. A ilusão da potência ilimitada gera um indivíduo que cobra de si mesmo resultados ininterruptos, uma otimização perpétua que não conhece a linha de chegada. 

A tragédia dessa configuração reside no fato de que a dialética do senhor e do escravo, descrita por Hegel, colapsou em uma única entidade. O sujeito de desempenho contemporâneo é, simultaneamente, senhor e escravo de si mesmo. Ele carrega o chicote e as correntes na própria psique. A exploração não vem mais do outro, da figura do patrão ou do capitalista clássico; ela transmutou-se em uma autoexploração travestida de autorrealização e liberdade. É precisamente essa roupagem de autonomia que torna a violência da positividade infinitamente mais eficiente, insidiosa e letal. Não há contra quem se rebelar, não há greve possível contra si mesmo. A submissão é voluntária, apaixonada e, por isso mesmo, inescapável. O indivíduo explora a si mesmo até a combustão total, acreditando estar apenas esculpindo a melhor versão de sua própria identidade.

Basta observar a fenomenologia do cotidiano corporativo e digital, como a cultura do hustle — o imperativo de “trabalhar enquanto eles dormem” — para testemunhar esse canibalismo psíquico em tempo real. O esgotamento físico e mental foi elevado à categoria de troféu, uma medalha de honra ao mérito na guerra diária pela relevância. O sujeito contemporâneo, esse animal laborans hiperativo, não conhece o repouso verdadeiro. Até mesmo o lazer e o sono são instrumentalizados, transformados em meras pausas biológicas necessárias para garantir a produtividade do dia seguinte. O descanso perdeu sua sacralidade, sua dimensão de contemplação, tornando-se apenas uma recarga de bateria de uma máquina de carne e osso. O cansaço que daí deriva, como aponta Han, é um cansaço solitário, mudo e violento. É um cansaço que isola, que divide os homens em mônadas exaustas, incapazes de formar uma comunidade, pois estão demasiadamente ocupados competindo consigo mesmos e com os fantasmas de suas próprias expectativas.

Essa autoexploração é exponencialmente agravada pela exigência tirânica de uma exposição absoluta. Como Han articula com brilhantismo em A Sociedade da Transparência, fomos condicionados a acreditar que a verdade coincide com a visibilidade total. Tudo deve ser iluminado, mensurável, quantificável e, acima de tudo, positivo. A negatividade do mistério, da ambiguidade, do pudor e do segredo foi impiedosamente substituída por uma pornografia da informação. A transparência, longe de ser um ideal democrático de libertação, revelou-se o mais perfeito dispositivo de controle neoliberal. 

No panóptico digital em que habitamos, os prisioneiros são seus próprios vigias. A exposição constante, onde a vida é curada, filtrada e editada para parecer uma sucessão ininterrupta de ápices luminosos, elimina qualquer refúgio para a interioridade. O espaço interno, o recôndito da alma onde as contradições repousam e amadurecem no escuro, é violentamente arrastado para a praça pública. Tudo é nivelado, precificado e transformado em dados operacionais. A transparência despoja o mundo de sua aura, de sua poesia e de seu encanto. Sem a sombra, sem o véu que oculta e protege, o sujeito torna-se plano, liso, desprovido de profundidade. A ausência de silêncio e de escuridão nos condena a uma superficialidade hiperativa, onde a alma, exposta aos holofotes ininterruptos da aprovação alheia, resseca e estiola.

Onde tudo é luz, não há espaço para a germinação. A semente precisa da escuridão da terra para brotar; o pensamento profundo exige o isolamento e a quietude. No entanto, a sociedade da transparência e do desempenho exige a comunicação incessante. O silêncio é interpretado como uma falha no sistema, uma interrupção inaceitável no fluxo do capital e da informação. Essa tagarelice contínua, essa necessidade de emitir opiniões sobre tudo a todo instante, esvazia a linguagem de seu peso ontológico. Falamos muito, comunicamos o tempo todo, mas dizemos cada vez menos. A linguagem degenera em ruído, em um zumbido de positividade onde o “curtir” substitui o pensamento crítico, e a métrica do engajamento esmaga a busca pela verdade.

A consequência mais trágica e silenciosa dessa hiperpositividade é a aniquilação da alteridade, o que Han diagnostica com melancolia ímpar em A Agonia de Eros. O amor, em sua essência ontológica, exige a negatividade do desconhecido, do incontrolável, da assimetria radical que o Outro impõe. Amar é, por definição, perder o controle, é ser arrebatado por algo que não se submete à lógica do cálculo ou da utilidade. No entanto, a sociedade do desempenho, alérgica a tudo que não pode ser dominado e consumido, transforma o eros em pornografia e o amor em um mero arranjo de conveniências narcísicas. 

Vivemos o que o filósofo chama de “inferno do igual”. O sujeito contemporâneo, enclausurado em seu próprio ego, é incapaz de amar porque é incapaz de reconhecer o Outro em sua diferença absoluta. O Outro foi rebaixado a um objeto de consumo, a um perfil otimizado em catálogos digitais de relacionamento, avaliado por algoritmos e descartado com a frieza de quem troca de mercadoria. Não há espaço para a vulnerabilidade do apaixonar-se, pois a paixão é uma ferida, uma interrupção não programada na engrenagem da produtividade. O indivíduo de hoje não ama; ele apenas consome reflexos de si mesmo, buscando no parceiro um espelho que confirme sua própria performance. Sem a negatividade do Outro, o eros agoniza, e a existência humana encolhe-se à dimensão de uma sobrevivência estéril.

Esse cenário de exaustão afetiva é coroado pelo colapso da nossa própria arquitetura cognitiva. Em Infocracia, Han demonstra como a avalanche de informações e estímulos digitais nos afoga em um presente contínuo, abolindo a temporalidade narrativa que dá sentido à história humana. A racionalidade profunda — que exige tempo, distanciamento, silêncio e a capacidade de suportar a ambiguidade — é engolida pela reação imediata, pelo choque emocional e pela indignação efêmera que alimentam os algoritmos das redes sociais. 

O smartphone tornou-se o rosário digital do nosso tempo, um objeto de devoção que consultamos compulsivamente em busca de pequenas doses de dopamina. A verdade perdeu sua gravidade diante da urgência da performance e da tirania do engajamento. O resultado não é uma sociedade mais esclarecida pelas luzes da informação, mas um enxame de cérebros sobrecarregados, incapazes de distinguir o essencial do ruído, aprisionados em uma hiperatividade mental que paradoxalmente os paralisa. A vita contemplativa, outrora o cume da experiência humana, foi esmagada pela vita activa levada ao paroxismo.

Diante desse diagnóstico sombrio, de uma época que queima seus sujeitos na pira da autoexploração luminosa, qual seria a via de escape? A cura para o adoecimento psíquico contemporâneo não reside em buscar ainda mais positividade. Não nos salvaremos baixando novos aplicativos de mindfulness, consumindo pílulas de produtividade ou frequentando retiros de fim de semana que servem apenas para nos “recarregar” e nos devolver, mais eficientes, à mesma máquina de moer carne. A verdadeira resistência, a única práxis capaz de estancar a hemorragia da alma, exige a coragem heróica de resgatar a negatividade.

Isso significa, antes de tudo, uma “pedagogia do ver”, como já alertava Nietzsche e que Han retoma: aprender a demorar-se, a não responder imediatamente a todo estímulo, a devolver aos olhos a capacidade de contemplação profunda. É preciso reivindicar o direito inalienável ao silêncio em um mundo permanentemente barulhento e histérico. É necessário ter a bravura de tolerar o tédio profundo — não o tédio inquieto de quem não tem o que fazer no smartphone, mas o tédio denso e criativo de quem se permite apenas estar, sem a obrigação de produzir.

Resistir é permitir-se a lentidão. É cultivar o segredo e o pudor, guardando partes preciosas e insondáveis da vida fora das vitrines devoradoras das redes sociais. É, sobretudo, abraçar a própria vulnerabilidade, a falha, a dor e a insuficiência. Somente ao aceitarmos que não “podemos tudo”, que somos seres finitos, atravessados pela falta, e que o Outro é um mistério sagrado que jamais poderá ser totalmente dominado, conseguiremos quebrar as correntes da autoexploração. Ao reaprendermos a habitar o negativo, talvez possamos, finalmente, transformar o nosso cansaço exaustivo e solitário em um cansaço curativo — um cansaço que nos reconcilie com o mundo e nos devolva a nós mesmos.

Referências

HAN, Byung-Chul. A Agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2014.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2014.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Vozes, 2022.

Foto em destaque: Buyng chul han



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

    Cartas da China 10 – Da Grande Muralha ao The Great Firewall

    Anterior

    Você pode gostar

    Comentários