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Lá em Altamira, na minha família, cozinhar nunca foi só cozinhar. Era um compromisso com a família. Era cuidado em forma de panela. Minha mãe não dizia “eu te amo” toda hora. Ela temperava.

E como temperava.

A comida vinha quente, cheirosa, bem feita. Mas vinha também bonita, organizada, pensada nos detalhes. Porque lá em casa eu aprendi cedo que alimento não era só pra matar fome. Era pra acolher. Era pra honrar quem sentava à mesa.

A mesa, aliás, nunca foi apenas mesa. Era encontro. Era conversa comprida. Era celebração. Às vezes vinha uma discussãozinha de família, porque toda família de verdade tem seus barulhos, mas ninguém saía sem repetir o prato ou sem levar um pouco de afeto no caminho.

Depois eu virei mãe.

E foi nas primeiras sopinhas dos meus filhos, meio insegura com a consistência, tentando acertar o sal, a textura e o amor, que eu entendi minha mãe de verdade. Entendi que alimentar alguém é um dos gestos mais profundos que existem. É cuidar até daquilo que ninguém vê.

Vieram as sopinhas, os pratos coloridos, os cafés da manhã em bandejas levadas na cama em datas especiais, as mesas postas com carinho, os aniversários pensados nos mínimos detalhes. Porque na minha casa a comida nunca teve só que ser gostosa. Ela precisava emocionar. Precisava ter beleza, cuidado, intenção.

Amor mora justamente nos detalhes.

Hoje eu olho minha filha organizando uma mesa para um café da manhã especial, ajeitando os pratos com delicadeza, pensando nas cores, nos guardanapos, no jeito de servir, e eu entendo uma coisa bonita: ela aprendeu olhando. Aprendeu vivendo.

Eu fui o exemplo dela sem perceber.

Ela absorveu tudo quando eu nem imaginava que estava sendo observada. E, vez ou outra, quando eu elogio o capricho dela, ela sorri e responde: “Mamãe, eu aprendi com a melhor.”

E isso emociona de um jeito que não cabe em palavra.

Outro dia vi meu filho preparando hambúrguer para a namorada, concentrado, cuidadoso, querendo acertar o ponto, a montagem, o sabor. E achei bonito perceber que ele também aprendeu. Porque cozinhar sempre foi linguagem de afeto aqui em casa.

Aqui em casa, meu filho ajuda a irmã a montar bandeja de café da manhã, pensa nos detalhes, pergunta se ficou bonito, se ficou gostoso. E eu vejo, nos dois, a continuidade de tudo aquilo que começou muito antes de mim, nas mãos da minha avó, depois nas mãos da minha mãe, e agora seguindo adiante, silenciosamente, através dos meus filhos.

É aí que eu entendo que a comida nunca foi só comida.

Sempre foi memória sendo construída.

Sempre foi uma maneira delicada de dizer “eu me importo com você”. Uma forma de permanecer. De criar raízes dentro das pessoas.

No fim das contas, ser mãe é exatamente isso: ensinar sem precisar falar o tempo inteiro. Temperar o tempo. Alimentar futuros. Deixar amor espalhado nas pequenas coisas que um dia alguém vai repetir sem nem perceber.

Porque existem heranças que não cabem em cofres, documentos ou caixas antigas.

Existem heranças que chegam quentes à mesa, perfumam a casa inteira e atravessam gerações em silêncio.

Porque o verdadeiro sabor do amor é justamente esse: o de permanecer.

Nalva Avertano-Rocha, gastróloga.
Para todas as mães que amam através do alimento.

Nalva Avertano-Rocha
Gastróloga, Bacharel em Direito, Especialista em Bolo de Rolo, criadora do Bolo de Rolo Amazônico, empreendedora à frente da Nalva Avertano-Rocha Gastronomia. Ministra cursos livres de gastronomia com foco na valorização da cultura amazônica. Natural de Altamira (PA), apaixonada por crônicas, poesia e pelos sabores da floresta. Corredora amadora em processo de superação e reinvenção.

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