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Resenha crítica da tese de doutoradoAmazônia – Território de Reexistência: caminhos contra-hegemônicos entre sociobioeconomia, práticas decoloniais e mudança social, de Juliana Maria de Barros-Freire

A obra – Amazônia – Território de Reexistência: … de Juliana Maria de Barros-Freire se inscreve entre as contribuições mais consistentes e instigantes da produção recente sobre a Amazônia, sobretudo porque enfrenta, com rigor conceitual e sensibilidade histórica, um dos debates mais decisivos do presente: o estatuto da bioeconomia e sua relação com a sociobioeconomia, com a sustentabilidade e com o futuro dos territórios amazônicos. Desde as primeiras páginas, a pesquisa se afirma como uma intervenção intelectual de grande alcance, não apenas por analisar a Amazônia como espaço de disputas socioambientais, mas por recolocá-la como território de pensamento, de reexistência e de invenção política. Essa inflexão é central: o estudo não toma a região como objeto passivo de intervenção externa, mas como sujeito histórico e epistemológico da transformação que o próprio planeta exige.

A travessia proposta pela obra é cuidadosamente construída e pode ser percebida já em seu índice, que organiza o argumento em uma sequência densa e coerente. O percurso passa pela crítica à colonialidade e ao extrativismo, pela discussão sobre a bioeconomia e suas ambiguidades, pela formulação da sociobioeconomia como horizonte decolonial, pela análise documental e empírica de políticas e práticas, e culmina em conclusões que reposicionam a Amazônia no centro da disputa por futuros possíveis. Esse movimento estrutural é importante porque mostra que o trabalho não se limita a descrever fenômenos: ele interpreta, confronta, articula e propõe. A forma como a autora conduz a análise revela uma arquitetura intelectual sustentada por forte unidade temática e por uma rara capacidade de integrar teoria crítica, observação empírica e imaginação política.


O ponto de maior densidade do estudo está na disputa entre bioeconomia e sociobioeconomia. A bioeconomia aparece como conceito central para pensar a transição ecológica, mas também como uma categoria profundamente disputada. Em sua formulação mais promissora, ela pode oferecer instrumentos relevantes para reorganizar cadeias produtivas, valorizar a biodiversidade e reduzir a dependência de modelos intensivos em carbono. Essa polissemia já havia sido destacada por Markus Bugge, Teis Hansen e Antje Klitkou, em What is the bioeconomy? A review of the literature, ao mostrar que o termo reúne trajetórias conceituais distintas e, por vezes, conflitantes. Dalia D’Amato e grupo de pesquisadores, em Green, circular, bio economy: a comparative analysis of sustainability avenues, também evidenciam a proximidade entre bioeconomia, economia circular e economia verde, reforçando o caráter plural do campo. 

No Brasil, o Decreto nº 12.044, de 5 de junho de 2024, que institui a Estratégia Nacional de Bioeconomia, já confirmava a centralidade política e institucional desse debate. Essa relevância foi reforçada com a aprovação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) pela Comissão Nacional de Bioeconomia (CNBio) em 5 de março de 2026 e sua apresentação oficial em 1º de abril de 2026, pelos ministros Marina Silva e Geraldo Alckmin. O PNDBio, organizado em três eixos (sociobioeconomia, bioindustrialização competitiva e produção sustentável de biomassa), visa transformar a biodiversidade em ativo econômico até 2035, com metas como recuperação de 2,3 milhões de hectares de vegetação nativa e concessão de 60 Unidades de Conservação para ecoturismo

Mas é justamente nesse ponto que a autora desenvolve sua crítica mais precisa. A bioeconomia, embora ofereça instrumentos valiosos de transição ecológica, permanece vulnerável à captura por racionalidades tecnocráticas, mercadológicas e coloniais. Em vez de romper com estruturas históricas de exploração, pode apenas reinscrevê-las sob nova linguagem. Maria Backhouse, em Global inequalities and extractive knowledge production in the bioeconomy, demonstra que a bioeconomia global pode reproduzir desigualdades e formas extrativas de produção de conhecimento. A obra de Barros-Freire retoma esse alerta e o situa no contexto amazônico, mostrando que a bioeconomia, se desvinculada da justiça territorial, da autonomia comunitária e do reconhecimento epistêmico, corre o risco de se converter em mera narrativa de modernização ecológica sem transformação estrutural.

É nesse contexto que a sociobioeconomia emerge como uma formulação original e decisiva. A autora não a trata como um simples adjetivo social aplicado à bioeconomia, mas como uma inflexão conceitual radical. A sociobioeconomia, em sua caracterização, desloca o debate para a justiça socioambiental, a autonomia territorial e o reconhecimento dos povos tradicionais como sujeitos de conhecimento e de política. Ela não reduz a floresta a estoque de recursos, nem a economia a cálculo de eficiência; ao contrário, pensa o território como tecido de relações, de memória, de reciprocidade e de vida. Trata-se, portanto, de uma economia da relação, do cuidado e da pluralidade, em contraste direto com os modelos que subordinam a natureza à lógica do mercado.

Essa caracterização ganha profundidade à luz do pensamento decolonial mobilizado na obra. Aníbal Quijano, em Colonialidad y modernidad/racionalidad e em Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina, oferece a chave para compreender a persistência da colonialidade nas formas contemporâneas de poder e saber. Enrique Dussel, em Europa, modernidad y eurocentrismo, evidencia a centralidade europeia como fundamento histórico da modernidade. Walter Mignolo, em Desobediência epistêmica, propõe a ruptura com as hierarquias do conhecimento; Ramón Grosfoguel, em The structure of knowledge in Westernized universities, aprofunda a crítica à racialização e à sexização da produção acadêmica; Catherine Walsh, em Interculturalidad, Estado, sociedad e em Pedagogías decoloniales y re-existencia, formula uma linguagem política da re-existência e da insurgência epistêmica. A tese dialoga com esse repertório de modo orgânico, sem transformar referência teórica em ornamento; ela reinscreve esses autores no solo amazônico, mostrando que a luta conceitual é inseparável da luta territorial.

Outro aspecto decisivo da obra é seu tratamento da metodologia. A análise documental, conforme Glenn A. Bowen em Document analysis as a qualitative research method, é mobilizada como ferramenta rigorosa para examinar políticas, relatórios e discursos institucionais que disputam os sentidos da bioeconomia no Brasil. A leitura documental não aparece como coleta passiva de informações, mas como interpretação de campos de força, revelando como documentos públicos podem ocultar ou legitimar certas racionalidades de desenvolvimento. Ao lado disso, o trabalho de campo amplia a espessura empírica da argumentação, permitindo que a análise se alimente de experiências concretas, de vozes comunitárias e de práticas territoriais já existentes.

A discussão sobre turismo de base comunitária tem papel relevante nessa tessitura. Marcelo Augusto Gurgel Lima, Marta de Azevedo Irving e Elizabeth Oliveira, em Decodificando narrativas de políticas públicas de turismo no Brasil: uma leitura crítica sobre o turismo de base comunitária (TBC), mostram como esse campo é frequentemente atravessado por ambiguidades institucionais. A obra de Barros-Freire amplia esse debate ao situar o turismo de base comunitária como expressão concreta de sociobioeconomia: uma forma de produzir renda, proteger cultura, fortalecer laços coletivos e preservar a autonomia do território. Nesse enquadramento, o turismo deixa de ser apenas atividade econômica e torna-se também linguagem política de pertencimento e cuidado.

A força da argumentação também se alimenta de diagnósticos mais amplos sobre a região. Philip M. Fearnside, em Desmatamento na Amazônia: dinâmica, impactos e controle e em Deforestation of the Brazilian Amazon, fornece o pano de fundo da devastação ecológica e da pressão histórica sobre os ecossistemas amazônicos. Eduardo Gudynas, em Transições ao pós-extrativismo: sentidos, opções e âmbitos, ajuda a pensar os limites do extrativismo e a necessidade de superá-lo sem recorrer a soluções meramente retóricas. Arturo Escobar, em Sentipensar con la tierra: nuevas lecturas sobre desarrollo, territorio y diferencia, oferece uma concepção de território como vida relacional, profundamente próxima da forma como a Amazônia é pensada na obra. E WRI Brasil, em Nova economia da Amazônia, contribui para situar a urgência de novos modelos econômicos para a região. A autora dialoga com esses referenciais e os reorganiza a partir de uma chave própria: a Amazônia não é fronteira a ser explorada, mas campo de produção de futuros.

As conclusões da obra conferem a ela ainda maior alcance. O argumento final é claro: sem participação comunitária, repartição justa dos benefícios, proteção territorial e reconhecimento dos saberes tradicionais, não há transição ecológica substantiva. A Amazônia deixa de ser apenas objeto de intervenção para afirmar-se como sujeito histórico, político e epistemológico da mudança que o planeta requer. O estudo mostra, com rara clareza, que as soluções para a crise ecológica não virão apenas de inovações produtivas, mas de uma transformação mais profunda na forma de conhecer, governar e repartir a vida. A Amazônia não é periferia do mundo; é um dos centros mais importantes para imaginar o mundo que ainda pode nascer.

A contribuição substantiva do estudo está, portanto, em demonstrar que bioeconomia e sociobioeconomia são conceitos centrais, porém profundamente disputados, para pensar a sustentabilidade e o futuro da Amazônia. A bioeconomia, em sua melhor formulação, pode apoiar a transição ecológica; mas, se desacompanhada de justiça territorial e de democratização epistêmica, corre o risco de ser absorvida por lógicas tecnocráticas e coloniais. A sociobioeconomia, por sua vez, oferece um horizonte mais exigente e mais fecundo, porque recoloca os povos tradicionais como protagonistas do conhecimento e da política, e a Amazônia como território de reexistência e invenção. Nessa perspectiva, a obra de Juliana Maria de Barros-Freire não apenas analisa um debate: ela o qualifica, o desloca e o aprofunda.

Nota:

Para acesso ao estudo completo, encaminhar solicitação para physis@physis.org.br

Referências 

BACKHOUSE, Maria. Global inequalities and extractive knowledge production in the bioeconomy. In: BACKHOUSE, Maria et al. Bioeconomy and Global Inequalities. Cham: Springer, 2021.

BARROS-FREIRE, Juliana Maria de. Amazônia – Território de Reexistência: caminhos contra-hegemônicos entre sociobioeconomia, práticas decoloniais e mudança social. 2025. Tese (Doutorado em Ciências) — Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025.

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* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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