Publicado em: 24 de abril de 2026
O voto não é só apertar um botão na urna. É uma decisão que mexe com a vida, com a família e com o futuro de todos. O voto é uma das poucas coisas que todo mundo tem igual nesse país. O rico tem um voto, o pobre tem um voto e os dois valem a mesma coisa.
O sentimento de que o voto possui a capacidade de transformar o Brasil — e, em especial, o bem-estar econômico e social de todos — reaparece de modo recorrente em períodos eleitorais. Trata-se de uma percepção legítima, fundada na experiência social reiterada e na expectativa coletiva de que o exercício da soberania popular seja capaz de reconhecer avanços concretos e promover o seu aperfeiçoamento. Nesse contexto, consolida-se a ideia de que o voto não apenas escolhe representantes, mas também projeta valores e orienta os rumos do poder público.
Todavia, se o voto é, por definição, instrumento essencial da democracia, seu exercício exige consciência ética e responsabilidade cívica, sob pena de se esvaziar sua função transformadora.
Dessa forma, o eleitor, enquanto agente político, não apenas escolhe representantes, mas também projeta valores sobre a estrutura do poder público. Nesse sentido, afirmar que o voto pode contribuir para tornar os cidadãos melhores e mais realizados constitui um belo ideal, sustentado por uma visão de democracia, ainda que a evolução da consciência política do eleitor não se dê de maneira linear nem progressiva. Ainda assim, persiste a expectativa — quase um desejo coletivo — de que cada eleição represente um salto qualitativo no sentido da consolidação da compreensão de que o voto não tem preço, mas produz consequências concretas.
E consequência pesa — pesa na vida e no futuro de todos — veja o exemplo trágico das quase 700 mil pessoas que morreram de Covid-19 no Brasil, que poderia ter sido bem menos se o governo anterior tivesse tido outra conduta perante a pandemia. Aliás, segundo estimativa da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, 400 mil vidas poderiam ter sido poupadas. Essa realidade está escancarada e evidenciada no relatório final da CPI e basta lê-la: Leia a íntegra do relatório final da CPI da Pandemia apresentado por Renan Calheiros no Senado | Brasil de Fato
A observação atenta da realidade política brasileira, portanto, revela uma dissonância preocupante. Sem incorrer em generalizações, nota-se que parte do eleitorado e dos candidatos adota um discurso moralmente elevado, ao passo que suas práticas se alinham a interesses eticamente questionáveis — um contraste que evidencia a tensão entre aparência e essência.
Dessa forma, verifica-se que, em muitos contextos eleitorais, ainda é frequente a oferta de favores, bens ou vantagens econômicas em troca de votos. Esse dado empírico, reiterado por denúncias encaminhadas ao Poder Judiciário e ao Ministério Público, permite reconhecer a persistência de práticas de corrupção eleitoral. Já sob outra perspectiva, se tais condutas violam os princípios do Estado Democrático de Direito, então sua repressão rigorosa se impõe como condição necessária para a integridade do sistema político.
Nesse cenário, a legislação eleitoral desempenha papel fundamental ao tipificar a compra de votos, estabelecendo que o simples oferecimento de vantagem já configura ilícito. Trata-se de uma formulação normativa que reforça a intolerância institucional a tais práticas. Daí decorre o imperativo de punir, de maneira exemplar, tanto o corruptor quanto o corrompido, sob pena de se normalizar a degradação do processo democrático.
Por outro lado, a dinâmica eleitoral permanece marcada pela incerteza. Não se pode prever, com absoluta segurança, os resultados que emergirão das urnas. Contudo, essa imprevisibilidade não exclui a possibilidade — sempre presente — de que venham à tona fatos desabonadores relativos à trajetória de candidatos, influenciando a percepção do eleitorado.
Observa-se, inclusive, um movimento crescente de rejeição a candidatos que frustraram a confiança pública. Pode-se inferir, de um lado, que há uma tendência social de punição política por meio do voto. E, de outro lado, pode-se inferir que se o voto é instrumento de controle democrático, então sua utilização para afastar maus representantes revela-se não apenas legítima, mas necessária.
Dessa forma, escolher candidatos ultrapassa a dimensão formal do ato eleitoral: trata-se de uma decisão com impacto direto sobre áreas essenciais como saúde, educação, transporte, emprego e renda. Aqui, se impõe com clareza o filtro do eleitor: é imprescindível privilegiar candidatos comprometidos com o interesse público e rejeitar aqueles cuja conduta destoa desse compromisso.
Paralelamente, não se pode ignorar outro fenômeno recorrente: a propagação de acusações infundadas, calúnias e campanhas difamatórias. Trata-se de uma prática que, além de comprometer a honra individual, deteriora o ambiente democrático. A análise dessas ocorrências sustenta a percepção de que a desinformação é frequentemente instrumentalizada como estratégia eleitoral. Já sob outro prisma, se a democracia pressupõe debate leal e transparente, então tais práticas devem ser firmemente combatidas.
Assim, a máxima segundo a qual “nunca se mente tanto quanto em véspera de eleição” permanece, para muitos, como uma síntese amarga da realidade política — um juízo que encontra respaldo em múltiplas experiências concretas.
A propósito, a percepção de que as pesquisas eleitorais deixaram de refletir as prioridades sociais emerge, antes de tudo e em diferentes contextos, como uma recorrente dissociação entre os temas que efetivamente impactam a vida da população — como saúde, trabalho, emprego, renda e educação — e aqueles que ganham centralidade nos levantamentos divulgados. A partir dessa constatação empírica, constrói-se, a hipótese de que parte dessas pesquisas passou a privilegiar variáveis que capturam conflito e engajamento, em detrimento de necessidades concretas da população.
Sob outro prisma, se a finalidade das pesquisas eleitorais é aferir tendências de opinião de modo fiel e socialmente relevante, então sua metodologia e seus recortes temáticos deveriam refletir, com rigor, as demandas mais urgentes da coletividade. Quando isso não ocorre — ou quando assim parece ocorrer — instala-se uma tensão entre a função informativa esperada e o efeito político produzido.
Nesse ponto, emerge a crítica de que determinados levantamentos não apenas deixam de iluminar o que melhora ou melhorou a vida do povo, como também podem contribuir para a amplificação de clivagens políticas. A ideia de que a polarização é “alimentada com método” expressa menos uma certeza e mais uma interpretação crítica sobre como escolhas metodológicas, enquadramentos e formas de divulgação podem influenciar o debate público.
A questão central pode ser formulada com maior precisão: não se trata necessariamente de afirmar, de modo categórico, uma intenção deliberada e uniforme, mas de reconhecer que certos padrões de pesquisas, produção e circulação de dados podem, de fato, reforçar dinâmicas polarizadoras. Assim, se a informação molda percepções e estas influenciam decisões políticas, então a forma como as pesquisas são estruturadas e comunicadas possui impacto direto na qualidade do processo democrático.
Com efeito, constatada, de modo evidente e inquestionável, a ocorrência de omissão informativa significativa em pesquisa de intenção de voto, capaz de induzir o eleitor a erro, assim como de sugerir uma viabilidade jurídica que não existe e de revelar potencial para interferência indevida no processo eleitoral, impõe-se declarar sua ilicitude, por desvio da finalidade informativa e violação aos princípios da transparência e da boa-fé que norteiam a regulamentação das pesquisas eleitorais.
Por exemplo, questiona-se a realização de pesquisa de intenção de voto que incluía ou inclui pré-candidatos declarados inelegíveis por decisão judicial transitada em julgado.
Diante desse panorama, reafirma-se que o voto, uma vez exercido, produz efeitos que transcendem o momento da escolha individual, impactando diretamente a coletividade. Se é instrumento de promoção do bem comum, seu uso deve estar orientado à realização das necessidades sociais, econômicas e culturais da população.
Por essa razão, práticas que desvirtuam sua finalidade — como a compra de votos ou a manipulação informacional — não apenas comprometem resultados eleitorais, mas fragilizam os próprios fundamentos da democracia. Em última análise, votar não é apenas um direito: é um ato de responsabilidade histórica, cuja integridade deve ser preservada como condição essencial para o aperfeiçoamento democrático.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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