Publicado em: 22 de abril de 2026
Trabalho com a temática de gênero desde meu mestrado, que iniciei em 2013 e conclui em 2015. São mais de dez anos lendo artigos, participando de eventos científicos e de militância e desenvolvendo projetos e trabalhos para circulação do saber e acolhimento de escutas e violências decorrentes das desigualdades.
Quando comecei a ser identificada como alguém feminista ou que trabalha com psicologia e gênero, logo encontrei muitas resistências. A desqualificação foi uma delas: a roupa sendo avaliada, perguntas testando conhecimento, agressividade vinda de homens em sala de aula, nariz torto vindo de meninas, piadas e até apelidos pejorativos.
Sim, já teve um aluno que me mandou mensagem dizendo que eu parecia uma atriz pornô que ele assistia, uma aluna que comentou da minha roupa ter certa transparência, de me intitularem da “louca do gênero” e até de homens me dizerem que eu estava sendo injusta com homens, já que no interior deles, existia uma igualdade de gênero nunca vista em nenhum lugar do Brasil e que contrariava todos os dados estáticos (contém ironia).
Mas também já recebi mensagem de meninas me explicando que só entenderam depois suas implicâncias, pois não queriam reconhecer os relacionamentos abusivos que estavam ou mensagens carinhosas, agradecendo por puderem mudar os rumos de sua vida, da própria forma de enxergar a si.
Não sem dispêndio de energia, em todos os casos eu intervi, porque levo muito a sério meu papel de educadora. Logo, muitas destas ações viraram conteúdo de sala de aula e consegui transformar o ataque em conteúdo a ser analisado e pensar a sociedade:
Sim, me objetificar, esvaziar meu conhecimento e fazer piadas fazem parte de um projeto político para desarticulação do saber, de destituição do lugar político e de poder. Então, mesmo que me cause algum efeito na saúde mental, (é estratégico individualizar o processo e tentar gerar culpa na mulher) estudar gênero me faz politizar o processo e seguir em frente.
O tempo passou e, embora o patriarcado se reinvente na forma de violentar mulheres, há novos espaços para discussão.
O pensamento feminista – que já se sabe, está para além do estudo só para mulheres cis, mas também refletem sobre relações de gênero, inclusive sobre as construções das masculinidades – e a ampliação dos estudos de gêneros estão mais presentes para o senso comum, além disso o conselho de psicologia e as ementas do curso, leis e discussões públicas permitem uma nova circulação, mesmo que as represálias e resistências continuem a encontrar suas formas de manifestações.
A sensação é que trabalhar com gênero é viver em alerta: sempre o pressuposto é que estamos sendo avaliados e facilmente seremos responsabilizados, precisando ter uma super lente e uma prudência fora do comum, porque a fiscalização é rigorosa, afinal, gênero é perigoso.
Podemos falar de gênero com crianças? Podemos falar de gênero com adolescentes? Podemos falar de gênero no consultório? Podemos falar de gênero na psicanálise ? Podemos falar de gênero nas escolas? Essas mesmas perguntas parecem fazer parte da mesma linha discursiva que afirma que “tudo agora parece ser gênero!”
Não à toa, é recorrente o uso de pessoas alegando o racismo ou machismo reverso, deslocando algozes/vitimas , com dificuldade enorme de leitura mais aprofundada, de implicação e de desconstrução: o “gênero” continua sendo o vilão, uma ameaça, algo preocupante, mesmo que as estatísticas mostrem que o perigo está justamente na falta de letramento e de enfrentamento das desigualdades.
É comum, hoje, observarmos uma instrumentalização de conceitos e argumentos feministas tentando enfraquecer ou desqualificar ações que visam mudanças estruturais das relações de poder.
Além disso, a violência contra as mulheres, contra pessoas negras e comunidade lgbtqiapn+ não cessam. Os dados seguem alarmantes.
Dentre essa avalanche de crimes, os meninos adolescentes têm se tornado manchetes recorrentes nas mídias sociais: choque em pessoa vivendo em condição de sua e com acometimento na saúde mental; espancamento e assassinato de cachorro; estupros coletivos. Todos casos realizados a partir da mesma lógica: uma necessidade de validação de bravura entre pares, permitindo assim a identificação, além de provas e testes de masculinidade.
Cada vez mais urge entendermos as estratégias do patriarcado e a indignação seletiva (e até desproporcional), para assumirmos nossa responsabilidade coletiva, enquanto estrutura social, que transcende a instituição família.
As escolas e universidades precisam rever suas matrizes curriculares para pensar na educação cidadã, que garanta letramento de gênero e raça. Se não fosse necessário, não teríamos operadores da lei produzindo violência de gênero de forma tão promíscua, como no caso Mariana Ferrer. Muitos menos, teríamos as estatísticas apontando que as violências obstétricas ocorrem com as negras e que crianças estupradas são obrigadas a parir pela negligência médica, apesar do amparo da lei do aborto legal, que quase nunca se faz cumprir.
Precisamos rever nosso sistema de leis que ainda garante que plataformas de fomento a misoginia sejam permitidas e captem cada vez mais adolescentes. Achar que os pais dão conta de todo esse controle, (muitos sequer acompanham a linguagem e o número crescente, rápido e abusivo de plataformas) quando o mundo inteiro incentiva o oposto (e as plataformas são comandadas por homens poderosos com um projeto político muito bem definido) é de uma bizarrice sem tamanho.
Além disso, precisamos repensar nosso sistema punitivista que é tão ineficaz, seletivo e racista. Criar medidas de responsabilização que promovam mudanças sociais e coloquem os agressores para trabalhar e contribuir com reparação de danos.
Enfim, para criar nossos meninos e meninas precisamos nos abraçar enquanto sociedade e refletir como podemos proteger nossas crianças. Não tenho dúvida que a educação para o respeito, para diversidade, para os direitos humanos e democracia é um dos caminhos. E com isso, os estudos de gênero e feministas são fundamentais. Assim como também é fundamental o combate aos discursos de ódio e normativos, que defendem a soberania masculina. Está tudo interligado: inclusive a destruição planetária, concentração de renda e soberania de uns poucos contra tantos.
Se a análise não for ampliada, continuaremos elegendo casos para nos surpreendermos e revoltarmos e continuaremos culpando x ou y, atacando de forma ineficiente os efeitos do sintoma, como que tapando o sol com a peneira.
Por isso é importante nos questionarmos: como estamos educando nossos meninos e meninas?
A educação é um campo de disputa e é por ela que devemos iniciar: revisitando projetos político-pedagógicos, ementas,referências bibliográficas, professores/as.
E se as normas e expectativas de gênero nos antecede, mesmo antes de nascer, não temos como fugir do gênero. Tal como a jornalista Milla Lacombe afirma: “gênero não é detalhe; é centro do debate político” (e a extrema direita sabe bem disso). Sendo assim, está mais que na hora de aceitar que para uma educação ser transformadora precisamos dos feminismos, ou seja, da luta pela vida das mulheres, pela remuneração salarial, por creches de qualidade, pelo fim do racismo, pelo fim da degradação ambiental, pela criação das crianças, dentre tanta outros temas. (Nem tão) Simples assim. Como diz a Chimamanda (escritora nigeriana, “sejamos todas/os feministas!”.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista


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