Publicado em: 4 de abril de 2026
A crise do presente e a reinvenção possível da vida comum
O conceito de zeitgeist conserva uma força rara porque nomeia algo ao mesmo tempo difuso e decisivo: a maneira pela qual uma época aprende a sentir, a julgar, a desejar e a temer. Não se trata de uma fumaça metafísica pairando sobre a história, nem de uma simples coleção de modas intelectuais, preferências estéticas ou opiniões dominantes. Zeitgeist é, antes, a forma historicamente dominante por meio da qual uma sociedade percebe a si mesma, organiza suas expectativas e dramatiza seus conflitos. Cada tempo possui fatos, instituições, tecnologias, sistemas de crença e linguagens; mas há momentos em que tudo isso se condensa numa tonalidade própria, numa espécie de clima moral e sensível que se infiltra nas artes, na política, nos vínculos afetivos, nas formas de consumo, no léxico cotidiano e até nas fantasias de futuro. É nesse ponto que o espírito do tempo deixa de ser metáfora elegante e passa a ser chave interpretativa.
Pensar o zeitgeist exige recusar duas simplificações igualmente sedutoras. A primeira é a visão atomista da história, segundo a qual as épocas seriam apenas sucessões de eventos desconexos, agregados empiricamente sem unidade mais profunda. A segunda é a fantasia heroica segundo a qual grandes indivíduos, isoladamente, criariam o seu tempo. A tradição filosófica alemã forneceu uma resposta mais exigente. Em Herder, em Ideias para a filosofia da história da humanidade, já aparece a intuição de que cada povo e cada época possuem uma tonalidade interior própria, uma fisionomia espiritual que orienta linguagem, costumes, memória e sensibilidade histórica. Em Hegel, em Fenomenologia do espírito, essa intuição adquire espessura filosófica mais robusta: o espírito do tempo deixa de ser apenas marca cultural e passa a ser compreendido como momento histórico de uma forma de consciência. Cada época possui uma racionalidade específica, um horizonte de inteligibilidade que estrutura as possibilidades do pensamento e da ação. Os indivíduos que parecem fundar um tempo são, frequentemente, aqueles que melhor condensam suas tensões latentes. Eles não surgem fora da história; são precipitados dela.
A força do conceito reside justamente em permitir que a história seja lida não apenas como sucessão de acontecimentos, mas como transformação de sensibilidades. Há épocas em que a confiança domina o horizonte e o futuro aparece como expansão; há épocas em que o medo se torna princípio organizador; há épocas em que o novo é celebrado como libertação, e outras em que ele se impõe como ameaça. O zeitgeist nomeia esse pano de fundo. Ele é menos uma essência do que uma atmosfera, menos uma substância do que um regime de percepção. Por isso, talvez seja mais adequado imaginá-lo como um clima histórico. O clima não determina cada gesto de quem o habita, mas condiciona humores, ritmos, exposições, disposições afetivas. Assim também o espírito do tempo. Ele não anula a pluralidade social, mas estabelece a temperatura moral em que essa pluralidade se move.
Na modernidade clássica, esse clima histórico foi fortemente marcado pela confiança na razão, na técnica, no progresso e na expansão de um mundo desencantado, mas inteligível. Max Weber, em A ética protestante e o espírito do capitalismo, mostrou com precisão como uma ética específica pôde se converter em estrutura civilizatória, articulando disciplina, cálculo, trabalho e promessa de salvação numa mesma forma de vida. Não se tratava apenas de economia. Tratava-se de uma reorganização profunda do espírito. A modernidade não instituiu somente novas máquinas e novas burocracias; ela fabricou um novo tipo de sujeito, um novo ritmo temporal, uma nova moral do desempenho, uma nova concepção de destino. O tempo deixou de ser apenas duração e passou a ser investimento. O futuro deixou de ser mistério e tornou-se projeto. O mundo foi sendo submetido à racionalização e, com ela, ao desencantamento. Mas se Weber oferece o retrato moral dessa formação, Marx, em O capital, revela sua engrenagem material. O espírito do tempo moderno não é apenas o triunfo da razão instrumental; é também a universalização de uma forma de abstração que converte trabalho, natureza, tempo e relações humanas em equivalência circulável. A mercadoria não organiza somente a economia; ela infiltra o imaginário, redefine a percepção do valor e instala no cotidiano uma metafísica discreta da troca.
Mas o presente já não se reconhece plenamente nessa confiança. Se a modernidade se imaginava sob o signo do progresso, o tempo atual parece reconhecer-se sob o signo da saturação. Já não vivemos a escassez informacional, e sim a abundância desorientada; já não sofremos apenas com a falta de mediações, mas com o excesso delas; já não habitamos um mundo em que a técnica se apresenta apenas como promessa, mas um ambiente em que ela também se revela como forma de captura, vigilância e colonização do sensível. É aqui que o conceito de zeitgeist se torna especialmente fecundo para interpretar o presente, porque permite compreender que a crise contemporânea não é apenas econômica, apenas política, apenas ecológica ou apenas subjetiva. Ela é, mais radicalmente, uma crise de atmosfera. O que está em jogo é um reordenamento da experiência histórica em múltiplos níveis ao mesmo tempo.
A digitalização da vida social é um dos nomes centrais desse reordenamento. É insuficiente dizer que internet, smartphones e redes sociais modificaram o cotidiano. O que se alterou foi o próprio regime da experiência. Trabalha-se, ama-se, consome-se, protesta-se, recorda-se, vigia-se e se exibe sob mediação de plataformas que não apenas organizam fluxos, mas moldam expectativas, ritmos e formas de atenção. A questão já não é simplesmente técnica. É antropológica. O problema não está apenas nos dispositivos, mas na forma de vida que eles produzem. O presente não é digital apenas porque usa telas; é digital porque aprendeu a perceber-se a si mesmo sob a lógica da atualização permanente, da visibilidade compulsória e da resposta imediata. Anthony Giddens, em Modernidade e identidade, percebeu com notável antecedência que a modernidade tardia transformaria o eu em projeto reflexivo, permanentemente compelido a revisar-se, narrar-se e ajustar-se a contextos instáveis. No presente, essa reflexividade deixa de ser apenas exigência biográfica e se torna também imposição algorítmica. O sujeito já não apenas constrói a si mesmo; ele se administra sob o olhar abstrato de métricas, perfis, rastros e expectativas de desempenho.
Jürgen Habermas, em Mudança estrutural da esfera pública, ofereceu uma das mais decisivas categorias para compreender o que se perdeu nesse processo. A esfera pública moderna, ainda que imperfeita e sempre atravessada por exclusões, pressupunha a existência de um espaço em que argumentos circulavam, posições podiam ser confrontadas e uma certa ideia de deliberação racional conservava prestígio. O problema contemporâneo não é apenas que as instituições tenham se desgastado; é que o próprio ambiente de formação da convicção pública foi corroído por dinâmicas de velocidade, monetização e fragmentação. O debate público já não se organiza prioritariamente em torno da força do argumento, mas da força da atenção capturada. O escândalo, o recorte viral, o choque moral e a excitação instantânea tornaram-se, com frequência, formas mais eficazes de circulação do que a reflexão. A esfera pública não desapareceu; ela foi submetida a um regime de concorrência afetiva.
Nesse ambiente, a verdade sofre não apenas porque é contestada, mas porque precisa disputar espaço com uma avalanche de estímulos desenhados para impedir a duração da atenção. O problema não é somente a mentira, embora ela exista em escala industrial; o problema é a forma histórica de recepção em que verdadeiro e falso passam a circular segundo critérios semelhantes de impacto. A temporalidade do juízo se comprime. Pensar exige demora, mas a plataforma recompensa a reação. O resultado não é apenas desinformação. É exaustão cognitiva. É por isso que o espírito do tempo contemporâneo parece combinar o excesso de informação com a rarefação do sentido.
Yuval Noah Harari, em Homo Deus, chama atenção para a emergência do dataísmo, isto é, para a tendência a compreender o mundo, a vida e o próprio humano sob a lógica da informação processável. Essa hipótese é decisiva porque revela uma mutação silenciosa: o sujeito contemporâneo passa a imaginar-se não mais como consciência soberana, mas como nó de dados, feixe de preferências rastreáveis, conjunto de comportamentos antecipáveis por sistemas algorítmicos. O espírito do tempo, então, não é apenas tecnológico; é informacional. A interioridade já não se apresenta como profundidade insondável, mas como perfil interpretável. O desejo é convertido em traço. A atenção, em mercadoria. A experiência, em banco de dados. E o que parecia ampliação da autonomia frequentemente se revela como sofisticação da governabilidade.
Aqui, a análise de Shoshana Zuboff, em A era do capitalismo de vigilância, torna-se incontornável. Já não se trata apenas de mediação tecnológica, mas de extração sistemática de dados comportamentais, previsão de condutas e modulação de desejos. O que está em jogo não é só a circulação da informação, mas a colonização econômica da experiência. As plataformas aprenderam a transformar atenção em ativo, comportamento em matéria-prima e antecipação em mercadoria. O sujeito contemporâneo, nesse regime, não é apenas usuário; é recurso. Sua navegação, sua hesitação, sua curiosidade, sua fadiga, sua repetição e até sua distração são capturadas, traduzidas e reinseridas no circuito econômico como excedente comportamental. O espírito do tempo digital, portanto, não é apenas o da conexão: é também o da vigilância internalizada e da governabilidade preditiva.
Se Habermas ajuda a compreender a deterioração do espaço comum, Zygmunt Bauman, em Modernidade líquida, ajuda a nomear a fluidez estrutural que caracteriza o presente. A liquidez não significa apenas mudança rápida; significa enfraquecimento das formas duráveis que antes davam ao indivíduo algum senso de continuidade e estabilidade. Vínculos, carreiras, identidades, instituições, narrativas, lealdades, pertenças: tudo parece tornar-se reversível, provisório, revogável. A solidez já não é o ideal; a adaptabilidade é. O problema é que uma sociedade na qual tudo deve permanecer flexível produz sujeitos permanentemente expostos à ansiedade da reconfiguração. Vive-se sob a exigência de refazer a si mesmo sem cessar. O mundo já não oferece chão; oferece interfaces.
Essa liquefação dos vínculos se articula a um novo regime de subjetivação que Byung-Chul Han descreve de modo contundente em Sociedade do cansaço. A figura central do presente não é apenas o sujeito reprimido, mas o sujeito explorado por si mesmo em nome da autorrealização. A coerção não desapareceu; tornou-se mais sofisticada. Já não opera apenas por proibição, mas por positividade compulsória e tóxica. É preciso render, criar, inovar, produzir, empreender, performar, mostrar entusiasmo, administrar a si mesmo, otimizar o próprio tempo, cuidar da própria marca, manter-se disponível e resiliente. A liberdade torna-se obrigação de desempenho. O cansaço contemporâneo, nesse cenário, não é desvio acidental; é sintoma estrutural. O sujeito esgotado não é aquele que fracassou à margem do sistema, mas, muitas vezes, aquele que internalizou suas exigências com maior fidelidade.
A proliferação contemporânea de palavras como burnout, ansiedade, exaustão, autocuidado e equilíbrio não deve ser lida apenas como avanço da consciência terapêutica, embora também o seja. Ela indica, sobretudo, que uma civilização inteira começou a nomear seu mal-estar com um vocabulário de fadiga. O espírito do tempo fala pela saturação. O corpo social, mesmo cercado de promessas de conectividade, carrega a marca de uma exaustão difusa. Nunca houve tanto discurso sobre bem-estar e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em sustentar experiências estáveis de presença, atenção, demora e silêncio. O repouso tornou-se projeto. A pausa, um item de gestão. A intimidade, um território invadido pela lógica da produtividade.
Gilles Lipovetsky, em Os tempos hipermodernos, oferece uma nuance importante a esse diagnóstico ao mostrar que o presente não é simplesmente pós-moderno, como se tivesse superado a modernidade; ele é, antes, hipermoderno, isto é, marcado pela intensificação dos traços modernos sob novas formas de aceleração, consumo e individualização. Essa leitura é particularmente útil porque impede equívocos frequentes. O sujeito contemporâneo não abandonou o culto à novidade, ao desempenho, ao mercado e à inovação; ao contrário, radicalizou-o. O consumo deixou de ser apenas aquisição de bens para tornar-se linguagem identitária, promessa de leveza, técnica de compensação afetiva e dramaturgia do eu. A mercadoria já não circula apenas como utilidade; circula como narrativa de si.
É nesse cruzamento entre liquidez, exaustão e hipermodernidade que a crise das instituições ganha contornos mais profundos. A desconfiança contemporânea em relação a governos, mídia, universidades, ciência, religiões e organismos internacionais não decorre exclusivamente de falhas pontuais ou escândalos, embora eles sejam relevantes. Ela exprime uma alteração no próprio vínculo entre sujeito e autoridade. O prestígio da mediação enfraqueceu. Cresceu a valorização da autenticidade percebida. A pergunta já não é apenas quem sabe, quem representa ou quem delibera melhor, mas quem parece falar sem filtro, quem parece não pertencer ao sistema, quem performa franqueza contra a linguagem institucional. A política torna-se menos espaço de elaboração comum e mais teatro de identificação afetiva.
Cas Mudde, em Populismo: uma brevíssima introdução, ajuda a compreender como essa gramática se organiza. O populismo não é um ruído externo à democracia; ele é uma forma simplificadora de dramatizar o conflito político a partir da oposição entre povo puro e elite corrompida. Seu apelo deriva exatamente do fato de condensar, em linguagem emocionalmente inteligível, ressentimentos produzidos por estruturas complexas. O espírito do tempo contemporâneo favorece esse tipo de operação porque combina crise de representação, saturação informacional, ansiedade social e desejo de simplificação moral. Quanto mais complexo o mundo, mais sedutora se torna a narrativa que oferece culpados nítidos e antagonismos absolutos. O problema, contudo, é que a simplificação não resolve a crise; apenas a recodifica em forma mais inflamável.
Edgar Morin, em Introdução ao pensamento complexo, fornece aqui uma advertência crucial. A crise contemporânea não pode ser compreendida por lógicas lineares. O erro recorrente é separar em blocos independentes aquilo que, na realidade histórica, se encontra enredado: crise democrática, crise ecológica, crise informacional, crise subjetiva, crise econômica. Não se trata de crises justapostas, mas de dimensões de um mesmo processo civilizacional. O zeitgeist contemporâneo é justamente a experiência sensível dessa imbricação. Vive-se numa simultaneidade tensa de colapsos parciais, recomposições instáveis e promessas técnicas incapazes de restaurar, por si só, o mundo comum.
Talvez por isso a identidade tenha se tornado um dos eixos mais decisivos do presente. A centralidade contemporânea de gênero, raça, sexualidade, pertencimento nacional, memória histórica, lugar de fala e reconhecimento não pode ser reduzida nem a moda moral nem a patologia discursiva. Há aí um movimento de correção histórica indispensável. Nomear-se é, para muitos grupos, interromper o apagamento. Tornar visível uma experiência de opressão é disputar existência pública. Mas o fenômeno não se esgota em sua dimensão emancipatória. Quando toda mediação pública passa a ser filtrada por marcadores identitários rigidificados, o espaço comum tende a converter-se em arena de suspeita permanente. A identidade emancipa, mas também delimita. Ela abre linguagem, mas pode estreitar escuta. Ela produz dignidade, mas também pode alimentar microfronteiras rígidas em um tecido social já altamente fragmentado.
O problema não está em reconhecer a pluralidade dos sujeitos históricos; está em perder a capacidade de construir formas compartilháveis de mundo a partir dessa pluralidade. O espírito do tempo contemporâneo oscila exatamente entre esses dois polos: de um lado, a justa recusa do universal abstrato que ocultava assimetrias reais; de outro, o risco de uma pulverização interpretativa em que todo conflito se absolutiza e toda divergência se torna sinal de violência ontológica. A dificuldade crescente de sustentar desacordo sem ruptura talvez seja um dos sintomas mais finos do presente.
Essa dificuldade se agrava diante da crise ecológica, que devolve ao mundo contemporâneo algo que a imaginação desenvolvimentista tentou recalcar durante muito tempo: o limite. Se a modernidade foi, em larga medida, a narrativa de uma expansão indefinida — mais crescimento, mais domínio técnico, mais controle, mais produção, mais consumo, mais extração —, o presente é o tempo em que o custo desse imaginário se torna incontornável. A mudança climática, a perda de biodiversidade, a devastação de ecossistemas, a escassez hídrica, os deslocamentos forçados e os eventos extremos já não pertencem apenas ao repertório das advertências científicas. Eles se tornaram experiência histórica. O planeta deixou de ser fundo mudo da ação humana e passou a responder.
É precisamente nesse ponto que o zeitgeist contemporâneo se distingue de épocas anteriores: ele incorpora a percepção de que o futuro já não é sinônimo imediato de promessa. O futuro retorna como ameaça, como cálculo de dano, como antecipação ansiosa. A consciência ecológica altera não só políticas públicas ou estratégias empresariais; ela altera a textura do tempo. Uma civilização treinada para imaginar progresso ilimitado encontra dificuldade em pensar a finitude sem traduzir tudo em colapso ou marketing verde. O limite, no presente, é vivido simultaneamente como verdade material e como trauma cultural.
Aqui, a crítica climática não pode ser apenas técnica. Ela exige imaginação histórica. Amitav Ghosh insistiu, em seu ensaio sobre a crise climática e o impensável, que o problema ecológico é também uma crise de linguagem e de imaginação, porque as formas narrativas dominantes da modernidade foram moldadas justamente para excluir o improvável, o não linear, o sistêmico, o não humano como agente. Essa observação é decisiva para pensar o espírito do tempo: uma época revela muito de si não apenas pelo que consegue nomear, mas também pelo que não consegue narrar adequadamente. O presente dispõe de dados abundantes sobre a catástrofe, mas nem sempre possui linguagem à altura daquilo que sabe.
A crise ecológica também reconfigura os valores da vida cotidiana. Sustentabilidade, energia limpa, consumo responsável, transição verde e responsabilidade social corporativa tornaram-se expressões correntes. Mas o espírito do tempo é contraditório: a mesma sociedade que aprende a falar em limite continua organizada por mecanismos de aceleração, extração, depleção e obsolescência. A sustentabilidade inspira e, ao mesmo tempo, é capturada como linguagem de marketing. O verde pode ser ética; pode ser etiqueta. O consumo responsável pode ser gesto real de transformação; pode ser ornamento moral de uma economia intacta em sua voracidade.
Essa ambivalência atravessa todos os valores dominantes do presente. A autonomia promete emancipação, mas frequentemente desemboca em isolamento. A visibilidade amplia presença simbólica, mas converte-se facilmente em performatividade. A diversidade corrige apagamentos históricos, mas pode ser reabsorvida por uma lógica de segmentação permanente. A autenticidade liberta da máscara institucional, mas pode degenerar em narcisismo moral. A flexibilidade parece sinônimo de liberdade, mas frequentemente mascara precarização. A conexão promete proximidade, mas não impede a solidão. O zeitgeist contemporâneo é, talvez, a arte de prometer alívio por meio das mesmas estruturas que produzem sufocamento.
É por isso que a noção de espírito do tempo continua intelectualmente indispensável. Ela permite compreender que o presente não é apenas um acúmulo caótico de fenômenos desconexos, mas uma configuração histórica recognoscível. O que une a saturação digital, a crise da esfera pública, a liquidez dos vínculos, a exaustão subjetiva, o apelo populista, a centralidade identitária e a emergência ecológica não é uma causa única, mas uma atmosfera comum. Habita-se um tempo em que o comum se enfraquece, a velocidade se intensifica, a mediação se desgasta, a subjetividade se expõe e o futuro se obscurece. O mundo continua funcionando, mas com o ruído crescente de algo que perdeu centro.
Talvez o traço mais profundo do presente não seja a velocidade em si, nem a tecnologia isoladamente, nem mesmo a crise tomada como evento, mas a sensação de que tudo se move sem que algo verdadeiramente se resolva. Vive-se entre ruínas ainda operacionais. As instituições seguem de pé, porém vacilam; os sujeitos exibem autonomia, porém se esgotam; a informação se multiplica, porém o sentido rareia; o futuro chega mais rápido, porém cada vez menos como promessa. O zeitgeist contemporâneo não é apenas um tempo de transformação. É um tempo em que a própria transformação se tornou experiência crônica, sem repouso, sem síntese duradoura, sem narrativa pacificadora.
Pensar o espírito do tempo, hoje, implica reconhecer que a disputa decisiva não se dá apenas em torno de poder, riqueza ou visibilidade, embora tudo isso permaneça central. A disputa mais funda talvez seja pelo significado da vida comum. O que ainda pode ser partilhado? Que linguagem resta para o mundo comum? Que tipo de humanidade se imagina quando o sujeito é tratado como dado, a política como guerra de identidades, a natureza como limite traumático e a atenção como ativo econômico? Essas perguntas não pertencem à ornamentação filosófica do presente; pertencem ao seu nervo. O zeitgeist é, em última instância, o nome dessa nervura histórica: a forma pela qual uma época vibra, se exaure, se ilude, se percebe e tenta, mesmo entre ruínas, reinventar o próprio horizonte.
Referências
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WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista









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