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Minha vó Bibi, mãe do meu pai, respeitava a Semana Santa toda.

Na residência da 14 de Março,  no Umarizal, desde a segunda-feira a TV  (única da casa e que ficava na sala) era ligada em horários específicos (telejornais, novela das 8 e sessão da tarde às vezes) em tom quase inaudível.

Na programação vespertina da Vênus platinada eram exibidos filmes como Jesus de Nazaré (1977), O Manto Sagrado (1953), Os 10 Mandamentos (1956) e Reis dos Reis (1961). O papai e o vovô gostavam de ver.

Na sexta-feira,  sentávamos juntos à mesa, saboreando peixe, que poderia ser pescada, filhote ou um dos preferidos dos donos da casa: o mapará. A gente falava o mínimo possível e quase sussurrando.

De meio-dia às 3 horas da tarde, ela exigia silêncio total. Podíamos ouvir o som de uma respiração.

Pela rádio-vitrola, vovó, ajoelhada, escutava um programa sobre as Três Horas da Agonia e o Sermão das 7 Palavras


Rezava, rezava e rezava.

Ao final, levantava-se exausta. Estava tudo consumado.

A nossa matriarca vivificava aquele momento.

A Semana Santa é o período do ano que mais me faz lembrar dela, a mãe que me criou. E até hoje, quando penso em amor e fé, é a imagem dela que me passa pela mente.

Que nestes dias tão difíceis ante as consequências das mudanças climáticas, crises econômicas e conflitos armados, Deus tenha misericórdia de todos nós.

Abençoada Páscoa!

Paula Portilho
Paula Portilho é jornalista, Relações-públicas e consultora em comunicação política.

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