Publicado em: 1 de abril de 2026
Foram os imigrantes alemães que trouxeram ao Brasil os ovos coloridos que na Alemanha culminavam com a Páscoa, tradição essa que por sua vez são originárias das festas germânicas de outrora, os então chamados “bárbaros”, em honra à Eostre ou Ostera.
Páscoa em alemão chama-se Oster (pronuncia-se “ôstar”) e vocês já perceberam que tem a ver com o nome da deusa Oestre.
E essa festa indicava o início da primavera e era celebrada geralmente em 30 de março.
Era a deusa da aurora, da fertilidade, do renascimento e do amor, na tradição nórdica, saxônica e germânica.
Uma vez, ela em meio às crianças transformou um pássaro em uma lebre deixando a todos encantados.
Acontece que a lebre começou a ficar triste, pois não conseguia voar e nem cantar.
As crianças, que sempre estavam ao redor da deusa, pediram para reverter a magia e a deusa não conseguia uma vez que seus poderes diminuíam no inverno.
Na primavera e novamente diante das crianças, a deusa Oestre transformou a melancólica lebre de volta ao pássaro que em agradecimento botou ovos coloridos – o que novamente maravilhou as crianças.
Bem, o resto vocês já sabem, os ovos coloridos foram substituídos pelo mesoamericano, mexicano e amazônico chocolate, feito da semente do cacau, fruto solar de concentrada energia.
O resumo da ópera é o seguinte: é impossível esconder o paganismo na ritualística cristã da Páscoa, como é o caso dos ovos e da lebre (ou os coelhos). Daí o poder da Igreja residir justamente em seu universalismo e acatar tradições pré-cristãs como o “coelho da Páscoa”, assim como aceitou o fogo, a água, o incenso, a mirra.
O cacau é mágico, Macunaíma, “por tantas conquistas e tantos feitos passados” herdou das icamiabas um fascinante tesouro de 40 milhões de bagos de cacau, à frente de uma embarcação e “carrancudo” em direção de São Paulo em busca do famoso talismã da inesquecível Ci – a deusa da floresta.
E saudoso da divindade da mata, transforma o rio que vai da Amazônia ao coração do Brasil: o Araguaia inteiro vira chocolate! em uma imagem a revelar a riqueza da Amazônia:
“Os manos remavam espantando os mosquitos e cada arranco dos remos repercutindo nas duzentas igaras ligadas, despejava uma batelada de bagos na pele do rio, deixando uma esteira de chocolate onde os camuatás pirapitingas dourados piracanjubas uarus-uarás e bacus se regalavam.” (Capítulo V – Piaimã)
E o que mais doce a um herói amazônico do que ver o seu rio como uma esteira de chocolate? E chamar o paulista Tietê de igarapé – tal é o tamanho do rio em comparação aos nossos, amazônicos rios-oceanos.
Engraçado é como o valioso cacau, na capital capitalista do Brasil, se viu de repente desvalorizado o que levou o índio-herói ao seu tradicional “grito” de guerra:
“Porém entrando nas terras do igarapé Tietê adonde o burbom vogava e a moeda tradicional não era mais cacau, em vez, chamava arame contos contecos mil-réis borós tostão duzentorréis quinhentorréis, cinquenta paus, noventa bagarotes, e pelegas cobres xenxéns caraminguás selos bicos de coruja massuni bolada calcáreo gimbra siridó bicha e pataracos, assim, adonde até liga pra meia ninguém comprava nem por vinte mil cacaus. Macunaíma ficou muito contrariado. Ter de trabucar, ele, herói… Murmurou desolado:– Ai! que preguiça!…” (Capítulo V – Piaimã)
Cacau até hoje é sinônimo de dinheiro: qualquer transação à vista é paga “no cacau!”.
O cacau cura, dentre outras coisas, a pele ressecada, evita o envelhecimento, melhora o humor – é pura alegria!
Aliás, arrisco afirmar que o cacau refinado como chocolate, entremeado da fertilidade e magia da deusa germânica Oestre, somado à riqueza amazônica-macunaímica, é uma das míticas formas de felicidade!
Imagem meramente ilustrativa gerada por IA
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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