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A literatura cientifica tenta explicar a denominação de macho alfa como aquele que é dominante, poderoso ou assertivo dentro de um grupo, seja em sociedade animal ou humana.
Os

contaminados com essa classificação, dispostos à prática do feminicídio, ou por tendência ou por doença, abrandam essa condição com a justificativa de que o macho alfa também se apresenta na obrigação de ser atencioso, carinhoso e cavalheiro, para com a sexo oposto. Falaciosa vinculação, principalmente aos agressores, caracterizados nesse termo, para banalizar ou justificar a truculência cometida.  


O macho alfa se descreve como um líder geralmente obedecido, confiante e que possui status elevado, com implicações a uma personalidade controladora ou agressiva. Isso é um retrato, como se dizia antigamente, do Brasil que não se consegue explicar ao estrangeiro acerca do crescente e assustador feminicídio no país.


Sobre isso, semana passada tive a honra de assistir a um evento promovido pela Magnífica Reitora da Universidade da Amazônia – Unama. Um significativo evento em que foram chamadas ao palco educadoras, professoras, advogadas, parlamentares, juízas, secretária estadual, sem ser chamado nenhum homem porque o recado, muito bem dado, por sinal, e com rigor, seria das mulheres.
Todas falaram e todas brilharam em seus agudos depoimentos e contagiantes relatos pessoais como valiosos alertas ao futuro da nossa sociedade.


A professora Betânia trava essa luta em defesa do gênero feminino há anos, com sensibilidade e talento literário, escrevendo obras que despertam a sociedade para a gravidade do problema crônico brasileiro, dai resolveu trazer o Estado à essa discussão através da jornalista, cineasta, Úrsula Vidal, Secretaria de Cultura, igualmente vigorante nessa causa, atraindo outras personalidades femininas. Por isso o evento foi inusitado, digno de publicação de seus depoimentos.


Em janeiro deste ano o Judiciário brasileiro registrou 947 novos casos de feminicídio, 3,49% superior ao registrado do ano passado, de forma geral os índices da violência chagaram 99.416 novos processos até janeiro deste ano, dados apresentados pelo CNJ.


O que será que acontece no Brasil nos relacionamentos entre gêneros da espécie? De onde vem tanta violência desenfreada do gênero masculino que se auto denomina macho alfa contra a mulher neste país? da sociedade patriarcal, coronelista, machista da base sócio-política do Estado? da formação educacional originária do estudante? da impunidade que caracteriza o judiciário ou da falta de afetividade em uma sociedade bruta, egoísta, materialista e insensível que apodrece a vida social desta nação?


Que palhaçada é essa de macho alfa, de superioridade e inferioridade entre gêneros humanos, impondo diminuição da condição feminina? Que política foi essa que um ex-presidente da República declarou para todo o país sua repulsiva misoginia, arrastando multidões de misóginos ocultos à práticas criminosas?


Recentemente o Senado aprovou na lei do racismo, o crime de misoginia que se revela no ódio e na aversão às mulheres, inafiançável e imprescritível. A criminalização dessas ações representa medidas que objetivam punir tais condutas, contudo a formação de uma consciência concreta, humana, harmônica, emocional e ética, desde a família até a escola, é o ponto fundamental da convivência humana objetivando uma sociedade justa e equilibrada.  


Isso me faz lembrar os anos 70, em que um grupo musical, celebrando a identidade, a liberdade e a cultura gay pontuou ironicamente essa representação em arquétipos masculinos da vida cotidiana americana, estilizados nas figuras do cowboy, do policial, do nativo americano, do operário, militar e do motoqueiro, satirizando a hipermasculinidade americana, vendendo milhões de discos. Algo relacionado ao macho alfa brasileiro.


A consciência do universo feminino em nossa existência, a terra em sua fertilidade, a mulher em sua maternidade, a vida em sua continuidade, precisam falar ao homem que o machismo é relativo e não absoluto.  
O feminicídio é um caso de vida ou de morte neste país e o pólen dessa resistência, desse enfrentamento que os homens devem também integrar, inclusive, apoiando essa luta feminina, garantirá a estabilidade de uma sociedade em que nossos filhos e netos viverão.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Ernane Malato
Ernane Malato é escritor, poeta e jurista, especialista em Direito Constitucional pela UFPA, mestre em Filosofia do Direito, área de Direitos Humanos pela PUC/SP, professor e pesquisador da Amazônia em diversas áreas sociais e científicas no Brasil e no Exterior, membro das Academias Paraenses de Letras; Letras Jurídicas; de Jornalismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Pará. Exerceu funções de magistrado estadual e atualmente atua como cônsul honorário da República Tcheca na Amazônia.

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