Publicado em: 29 de março de 2026
“Descobri aos treze anos que o que me dava prazer na leitura não era a beleza das frases, mas a doença delas…”
Corria o ano de 1929 quando o menino Manoel de Barros percebeu, com a casta e sincera sensibilidade das crianças, que havia na língua portuguesa, oculto nas palavras e conceitos semânticos, um imenso e reluzente tesouro. Ainda guri, moleque de fazenda, Manoel compreendeu que a língua é um organismo vivo, mutante, que cresce e se agiganta quanto mais é estendida, ampliada, esticada até às últimas consequências.
Na inocência de uma infância pantaneira, o futuro poeta alcançou uma revelação que muitos não obtém numa vida inteira de respeito exacerbado à sintaxe e obediência servil aos significados usualmente atribuídos aos vocábulos. Em outros termos, enquanto a grande maioria nasce, cresce envelhece e morre falando, escrevendo e lendo uma versão tradicional e comportada do idioma, Manoel de Barros resolveu reinventá-lo, abstraindo regras e formas para dele extrair seu máximo, para comê-lo como quem tem fome e economiza cada grão, bebê-lo como quem tem sede e raciona cada gota, senti-lo como quem ama e se angustia de paixão.
Manoel liberta palavras como quem viola gaiolas e solta pássaros, permitindo que voem livres e soberanas, fazendo pouso onde lhes pareça mais adequado, onde se lhes ofereça maior acalanto. Infladas de gratidão, as palavras foram-lhe sempre gentis e generosas, retribuindo todo o cuidado recebido com uma poesia torrencial, original e de inigualável potencial criativo.
“Nosso conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos. Seria um saber primordial? Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor e não por sintaxe.” (…) Um dia tentamos até de fazer um cruzamento de árvores com passarinhos para obter gorjeios em nossas palavras. Não obtivemos. Estamos esperando até hoje.”
Lugar para Manoel é beira de rio, no meio do mato, em cima da pedra, na curva do vento. Tempo para Manoel é hora da chuva, envelhecer do dia, desde o começo do mundo ou quando meu avô morreu. Sabedoria para Manoel é desver o dia, fazer parte do chão como os lagartos fazem, ouvir as origens da terra e não saber quase tudo. Brincar para Manoel é catar inutilidades, morar no abandono, pertencer a uma árvore.
E assim, subvertendo a lógica para espremer as expressões, frases e orações, sugando seu mais profundo sumo, o gênio do Mato Grosso permitia que a língua, ao invés de limitar a realidade reduzindo-a ao que pode ser descrito, dela participasse como protagonista. O que se vê e como isso é contado integrados de tal maneira, com tamanha intensidade, que já não se sabe onde termina a verdade dos fatos para começar a autenticidade dos relatos.
“A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação. A gente gostava dos sentidos desarticulados como a conversa dos passarinhos no chão a comer pedaços de mosca. Certas visões não significavam nada mas eram passeios verbais. (…) A gente gostava das palavras quando elas perturbavam os sentidos normais da fala.”
Com tanto talento e tamanha imaginação, parecia óbvio que o rapaz, ao crescer, desse para pouca coisa, como ele próprio costumava dizer, e que aquele gosto esquisito por botar defeitos nas frases fatalmente o levasse a ser poeta, carregando pelo resto da vida um certo gosto por nadas.
“A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que eu sei. Meu fardo é não entender quase tudo; sobre o nada eu tenho profundidades. Eu não cultivo conexões com o real. Para mim poderoso não é aquele que descobre o ouro; poderoso pra mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas. Por essa sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios.”
Graças aos céus essa imensa e amorosa inclinação para os nadas do mundo, essa forma única e maravilhosamente tortuosa de ver a vida, fazendo da visão um recurso para dar aos verbos novas liberdades, de fato transformaram Manoel num poeta colossal, certamente um dos maiores e mais importantes da lusofonia, reconhecido aqui e alhures como um mestre artesão da linguagem.
Sua poesia vem das coisas simples e comezinhas, afeita à infância, apegada à inocência, repleta de inventividade, dotada de uma capacidade inesgotável de enternecer e emocionar, envolta numa magia originária, numa hermenêutica quase mística. No âmago de tudo, o homem, o menino, o ser humano, não como centro do mundo ou seu ator principal, mas sim como partícipe, coadjuvante, sem sobrepujança hierárquica sobre sapos, insetos, latas e passarinhos, repartindo com estes e outros inutensílios a graça e benção de viver.
“Eu queria pegar na semente da palavra. (…)
Eu bem sabia que a nossa visão é um ato poético do olhar.
Assim aquele dia eu vi a tarde desaberta nas margens do rio. Como um pássaro desaberto em cima de um pedra na beira do rio.
Depois eu quisera também que a minha palavra fosse desaberta na margem do rio. Eu queria mesmo que as minhas palavras fizessem parte do chão como os lagartos fazem. Eu queria que minhas palavras de joelhos no chão pudessem ouvir as origens da terra.”
“Eu sabia que as coisas inúteis e os homens inúteis se guardam no abandono. Os homens no seu próprio abandono. E as coisas inúteis ficam para a poesia.”
“Terreno de 10X20, sujo de mato – os que nele gorjeiam: detritos, semoventes, latas servem para a poesia… As coisas que não levam a nada têm grande importância. Cada coisa ordinária é um elemento de estima. (…) As coisas que não pretendem, como por exemplo: pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, se prestam para a poesia. Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia. (…)”
“Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia. Os loucos e água e estandarte servem demais. O traste é ótimo. O pobre-diabo é colosso. (…) Pessoas desimportantes dão pra poesia, qualquer pessoa ou escada. (…) As coisas sem importância são bens de poesia.”
Salta aos olhos, na lírica Manoelina, o desapego à solenidade, o desamor ao formalismo, a repelência aos salamaleques da vida. Muito mais prazerosas, sem dúvida alguma, as coisas desimportantes, os trastes e entulhos, tudo o mais que parece esquecido nos abandonos que nos cruzam o caminho, aquilo que não se sabe, que não tem ciência ou explicação, as coisas todas – e as gentes – que não fazem sentido algum.
Para lapidar todo esse farto manancial poético, Manoel foi sempre operário e inventor, perdido e encontrado em simultâneo, tendo o pantanal mato-grossense por oficina e laboratório onde simplesmente não sabia o que fazer – “O que não sei fazer desmancho em frases…”. Nas mãos as ferramentas fundamentais do poeta, seus desapetrechos e desobjetos:
“Os bens do poeta: um fazedor de inutensílios, um travador de amanhecer, uma teologia do traste, uma folha de assobiar, um alicate cremoso, uma escória de brilhantes, um parafuso de veludo e um lado primaveril.”
“Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco; ao ponto de ninguém e de nuvem. Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na sarjeta. Sou mais a palavra ao ponto de entulho. Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las pro chão, corrompê-las até que padeçam de mim e me sujem de branco. Sonho exercer com elas o ofício de criado: usá-las como quem usa brincos.”
“O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Há que se dar um gosto incasto aos termos. Haver com eles um relacionamento voluptuoso. Talvez corrompê-los até a quimera. Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los. Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.”
Conhecer Manoel de Barros equivale a amá-lo. Impossível tê-lo em mãos sem se encharcar de delicadeza e brandura. A cada livro um novo deleite, a cada verso um novo encanto, a cada releitura uma sensação inaugural, o prazer da descoberta de um novo idioma, tal qual criança de tenra idade a aprender sem amarras o poder das palavras:
“Escrevo o idioleto manoelês archaico (idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras alguma solenidade – uso bosta.) Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado pra parvo. Disso forneço certidão.”
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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