Publicado em: 24 de março de 2026
Sou de Belém. Belém do Pará, norte do Brasil. Um sem número de vezes precisei e ainda preciso responder às perguntas feitas, não somente por brasileiros de outras regiões, mas também daqui mesmo, de Belém, e aí, já como escritor. Somos insulares. O Pará foi Vice-Reino de Portugal. No princípio do século XX, havia aqui 45 consulados e comércio intenso com a Europa. Estudiosos dizem que a Semana de 22 começou antes, aqui mesmo. A Rádio Clube do Pará, ao invés de reproduzir capítulos de novelas enviadas pela Rádio Nacional em imensos discos de vinil, tinha seu próprio cast. Alguns dos maiores nomes mundiais do teatro e da música apresentaram-se no Teatro da Paz. Na falta de uma permanente troca de de cultura com, sobretudo o Sudeste, que se tornou um centro gerador na base de mão única, nós, aqui, demos nosso jeito. Nossa música, nosso teatro, nossa literatura, fotografia, filme, enfim, são diferentes, brilhantes, criativos e consumidos aqui mesmo. Claro, através dos anos, temos nossas dificuldades, mas nunca baixamos a cabeça. Consumimos o que vem de fora, mas misturamos com a nossa verdade. Mesmo assim, há muito o que conhecer. Últimamente, com o livro do Reinaldo Silva, por exemplo e agora, com “Este rio é minha rua”, de Ruy Antonio Barata, belíssimo trabalho pela Paka Tatu, há muito mais a conhecer, refletir, desta feita à Belém do século passado, chegando à sua metade, história recente, revelando fatos, nomes, pessoas que ainda hoje estão na área e que na sua juventude, atuaram, cada uma a seu jeito com suas convicções. A família Barata, por exemplo, que ficou mais conhecida a partir das parcerias de Rui, o grande poeta, com seu filho, Paulo André, melodicista. Mas há mais, muito mais a saber. Começa pelo “velho” Alarico, pai de Rui e suas lutas como advogado no “Baixo Tapajós”, Santarém e Óbidos, onde o filho também começou, casado com Dona Norma. Era um mundo em convulsão, explosões culturais que ainda hoje nos movem e sobretudo políticas que se acentuaram a partir da ação de Magalhães Barata, tornando-se um ícone jurídico a promover intensos debates por sua atuação na política do Pará. Rui, que chegou a ser deputado, viveu intensamente as campanhas memoráveis, ganhou e perdeu, junto com nomes como Jocelyn Brasil a quem tive a sorte de conhecer e muitos outros, até a revolta de Cuba que o fez ressignificar sua luta pelo comunismo, contra a vontade do pai que o queria político na região do Tapajós. Surge aí Ruy Antonio, o autor, que relata os acontecimentos como testemunha privilegiada, revelando nuances e detalhes que poucos conhecem. Aliás, a cada dia que passa, menos pessoas conhecem nesse nosso desprezo monumental da memória, como se o mundo tivesse sido inventado no dia em que cada um de nós nasceu. Ruy, adolescente, participa desde cedo de movimento estudantil, chegando a comparecer a alguns dos famosos Congressos da UNE, agora, como universitário de Medicina. Ali por 1963, toda luta contra a opressão, desfiles, passeatas, polícia batendo, prisões, pessoas desaparecendo, clandestinidade, exílio e até um encontro com Marighela, disfarçado, a quem reconheceu anos depois, passam pelo livro com detalhes essenciais para que possamos compreender, mais ainda, toda aquela época explosiva. Há outros livros, sobretudo o belo trabalho de Carlos Rocque, sobre Magalhães Barata (não são parentes) mas este livro saiu agora e é uma provocação irresistível a saber da nossa memória. Quanto a Rui Barata, nosso grande poeta, letrista, verdadeiro guru de tanta gente, entre as mais me incluo, foi professor da Universidade e um verdadeiro sol para os jovens nas décadas seguintes no Bar do Parque ou Maracaibo, por exemplo, cercado por jovens que o idolatravam. Eu o idolatro com suas qualidades e defeitos. Meu amigo. Me ajudou muito em opiniões, história e bondade. Quanto a Ruy Antonio, vitorioso na Medicina, em São Paulo, meu agradecimento por partilhar conosco tanta história importante. Um livro obrigatório.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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