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É usual que traços, formas, cores e texturas sejam compreendidos como elementos artísticos livres e incontidos, ferramentas de expressão que guardam possibilidades infinitas, linguagens próprias e significados particulares, variáveis conforme o artista que as manuseia. Não por acaso pintura e escultura são pródigas em estilos, escolas e movimentos que determinam maior, menor ou nenhum compromisso com a realidade, privilegiando uma representação abstrata do mundo.

Como contraponto ao realismo, o impressionismo prioriza luz, cor e pinceladas que distinguem obras e pintores; o expressionismo traz formas distorcidas que acentuam a subjetividade e expõem as angústias de cada criador, sua visão personalíssima da vida; o cubismo, geometricamente rebelde, desconstrói paisagens e cenários para criar perspectivas nada tradicionais; o surrealismo promove uma incursão pelo espectro onírico da mente humana, dando voz e vez ao inconsciente; e o fauvismo, por seu turno, descontextualiza cores e contornos para potencializar diferentes emoções.

Na escultura o concretismo e o neoconcretismo são, igualmente, passos a distanciar a produção artística da mera representação dos espaços e corpos físicos, amplificando a liberdade criativa dos artesãos. Trata-se, em suma, da autossuficiência do artista, seu livre-arbítrio, salvo conduto para que pinte o que pretender pintar, esculpa o que lhe aprouver esculpir.

Mas e na literatura, que tem por instrumento a palavra, como abrigar o abstracionismo? Como admitir que o autor atribua ao léxico um significado atípico e inaugural, diverso daquele a que o leitor acostumou-se? Permitirão sintaxe, concordância e regência que o escritor, tal como os artífices das tintas e da modelagem, exerça com autonomia o seu ímpeto criativo?

Ao contrário das linhas, matizes e formatos, que não possuem qualquer obrigação semântica preestabelecida, as palavras são escritas ou pronunciadas com um sentido acoplado ao corpo. Carregam consigo um fardo etimológico e social indissociável, quase uma responsabilidade pela estabilidade das relações humanas.

O observador tolera a desvinculação entre as artes visuais e a comunicação, mas o leitor espera coerência, referência e previsibilidade. Diante de uma pintura abstrata o primeiro se permite um espaço largo de interpretação, mas ao se deparar com um texto ilógico o segundo, inclemente, de pronto sentencia: – isso não faz sentido algum!

Vem daí, na minha ótica, o fato da transgressão ser mais frequente nas outras seis artes clássicas – arquitetura, escultura, pintura, música, dança e cinema -, restando à literatura um horizonte supostamente mais tímido e menos ousado, pretensamente resiliente e conformado com o aspecto corriqueiro da sua matéria-prima elementar: a palavra, a língua escrita, o vernáculo feito texto.

Não obstante, suposições e pretensões cerram fileiras com as regras, e é quase uma certeza metafísica que toda regra traz em si a exceção que lhe confirma, e o que se supõe ou pretende pode ruir diante do inesperado, do insólito e, sobretudo, daquilo que é tão novo, inédito e genial a ponto de fixar novos parâmetros de análise.

Para escapar do óbvio, arte maior por excelência, a literatura também tem seus engenhos e métodos, e com eles se transforma numa experiência sensorial liberta e soberana, independente da mensagem ou da acepção natural inerente às palavras, desautomatizadas em si mesmas ou na fragmentação das frases e orações por meio de neologismos, sintaxes fraturadas e fluxos de consciência – técnica literária que simula a torrente caótica do pensamento humano, sem linearidade, sequência lógica ou marcos temporais cronologicamente sucessivos.

Quando se acessa essa vereda, logo surgem nomes como Franz Kafka, Virginia Woolf, Antonin Artaud, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Raduan Nassar, entre outros. Nenhum deles, todavia, na modesta opinião do cronista, com o alcance, a magnitude e a sensibilidade extrema de Manoel Wenceslau Leite de Barros, mais conhecido como Manoel de Barros, poeta imenso e luminoso nascido em Cuiabá no dia 19 de dezembro de 1916, falecido em Campo Grande às vésperas de completar 98 anos, em 13 de novembro de 2014.

Aos que não o conhecem, basta dizer que Carlos Drummond de Andrade recusou o epíteto de maior poeta brasileiro do Século XX, atribuindo-o a Manoel, homem humilde e discreto, a vida toda pantaneiro, salvo durante os poucos anos em que morou no Rio de Janeiro para estudar direito, quando viveu assombrado e fascinado pela beleza do mar e da enseada de Botafogo:

“Como estou só: Afago casas tortas,
Falo com o mar na rua suja…
Nu e liberto levo o vento
No ombro de losangos amarelos
Ser menino aos trinta anos, que desgraça
Nesta borda de mar de Botafogo!
Que vontade de chorar pelos mendigos!
Que vontade de voltar para a fazenda!
Por que deixam um menino que é do mato
Amar o mar com tanta violência?”

Na literatura, mais especificamente na poesia, a grandeza de Manoel reside na sua capacidade de ressignificar a língua, destruir e reconstruir o que as palavras querem e podem dizer, dotá-las de ternura e emoção, reavivá-las, dar-lhes novas funções, fazê-las trilhar novos caminhos. Sem pretender a abstração pura, Manoel não abandona o mundo, segue falando de coisas concretas como sapos, latas, árvores, passarinhos, insetos e crianças, mas liquefaz e centrifuga o sentido dessas coisas, reposicionando-as na realidade. Afora isso, Manoel promove uma deliciosa bagunça gramatical, sujando os pés da norma culta na lama ribeirinha do pantanal, ornando-a com garças, grilos, inutilidades, “inutensílios” e “despalavras” – verbos viram adjetivos, adjetivos viram substantivos e estes regressam como verbos, fantasiando sujeitos como predicados e vice-versa, tudo numa harmonia perfeita, doce e que parece ter estado ali a vida toda, sem que ninguém a pudesse perceber… ninguém exceto Manoel de Barros.

“- Você sabe o que faz para virar poesia, João?
– A gente é preciso de ser traste
Poesia é a loucura das palavras:
Na beira do rio o silêncio põe ovo
Para expor a ferrugem das águas
eu uso caramujos
Deus é quem mostra os veios
É nos rotos que os passarinhos acampam!
Só empós de virar traste que o homem é poesia…”

Na poesia Manoelina as inovações e os neologismos não são enfeites ou badulaques, como ele talvez preferisse chamar. Muito ao contrário, há neles uma função ontológica, metalinguagem a desnomear e renomear as coisas e gentes do mundo, reencantando as palavras para enternecer o leitor que presencia seu renascimento. É tudo tão suave, verdadeiro e autêntico que deixa de haver choque, deixa de ocorrer o susto diante do que, embora estranho, soa tão natural.

“Tudo o que não invento é falso”; “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”; “Tem mais presença em mim o que me falta”; “O meu amanhecer vai ser de noite”; “Melhor que nomear é aludir. Verbo não precisa dar noção”; “Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições”; “Não saio dentro de mim nem pra pescar”; “Aonde eu não estou as palavras me acham”; “Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos”;  “Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”; “Do lugar onde estou já fui embora.”

Concreta ou abstrata, culta ou coloquial, prosa ou poesia, a literatura contém um universo infinito de beleza e alumbramento. É arte viva a justificar e enobrecer a existência humana, e artistas como Manoel de Barros, únicos e eternos, são como faróis que nunca se apagam.

“Deus disse: Vou ajeitar você a um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílios nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.”



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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